22 de ago de 2012

sortie


subi a brigadeiro.

o mesmo arroxo no pescoço de anteontem, quando você te vi subindo a escadaria da cardeal de braço dado com ela.

peguei o onibus roxinho que vai até a berrini, desci na frente da etna, onde a gente tinha comprado o jogo de jantar e o aparelho de fondue. seus pais comprando cortinas. nosso amor parecia tão sólido.

que nem o bolo que tentei fazer e enfarinhou antes de você chegar do trabalho.
eu passei aspirador na sala, lustrei seu sapato marrom.
comprei flores amarelas e verdes no pão de açucar.
bobagem minha. queria mesmo era um gatinho. tava cedo, né amor?
gatinho é passo de noivado e anel de brilho no dedo. não, benzinho, quero não, quero não anel. sou moderna, você sabe.

mas a saia dela parecia de tule e ela tinha flor no cabelo e parecia bem uma gabriela dessas da calixto. sujinhas e esmalte descascado.
minha manicure já sabe que você gosta de florzinha.

provei bem de novo foi aquela calcinha que você me deu e pensei que podia te receber com sonho da padaria e tortinha de morango.
ai, fiquei duas horas na frente do balcão de congelados pensando na carne que você gostava.
e tinha pato, avetruz, galinha d'angola, ganso, pintinho congelado.
eu não escolhi nada. contei moedinhas em cima do balcão da balança. olhando a senhorinha de 40 quilos pesando brocolis. brocolis-tomate.
pepino-pimentao. ai como vc gosta de pimentão.

peguei o celular do bolso disposta a ligar pra sua mãe.
como é mesmo aquela receita? mas lembrei, oi, nunca soube mais da sua mãe.
Na minha bolsa tinha mesmo só a bateria vencida da maquina fotografica. a moça me disse: dá cancer.

doença é coleira no pescoço, sua dona.

Angélica. Talvez ela seja Angélica ou Maria Antonia. Talvez ela seja puta. Você gosta de puta e puxava meu cabelo enquanto eu lavava louça, era assim que você gostava de me pegar.
Mas você era amorzinho e deixava eu lavar seu cabelo na pia, fazendo carinho na nuca enquanto você fumava o cigarro que eu acendia.

O cabelo dela era loiro. loiro.
devia ter olho castanho claro. peito murcho. barriguinha e perna raspada com gilette.

Peguei a Rio Branco.
Subi uma arvore. Olhei a cidade. cof cof.
mundo cinza e sépia. marrom de terra como a sujeira debaixo das minhas unhas.

Ela não era legal. merecia soco na cara.
merecia ser puta.
não passear de braço dado e sonhar com gatinho.

fui me enervando até explodir de dor.

na barra funda, vi a saia de tule dela comprando passagem pro interior.
segui bem quietinha escada rolante, corredor, pula mala, pula criança, pula coxinha.
até janela do onibus.
subi no pneu.

olhei bem pra cara cheia de bochecha dela sentada na poltrona.
o olhar vidrado na poltrona da frente.
bati, bati até ela olhar.
e foi quando, vi eu mesma sentada de vestido de flor.
só eu, de passagem, sem destino, indo embora sem mim.