26 de mar de 2009

Ritual de adoração ao sol

Aí, ele parou por alguns instantes.
E com aqueles olhos cravejados de histórias sem nenhum silêncio, subtraiu-lhe as cordas vocais.
Sugou suas inverdades obstinadas, suas mentiras absolutas, suas exceções imutáveis e o gosto doce de todos os seus fracassos.

Ela sucumbiu. Com um certo desprazer que a felicidade lhe causava, pois o conforto e o afeto geravam essa estranha sensação de impotência. E se a gente nascesse mesmo para ser feliz? Qual a beleza nisso, Meu Deus?

Ele cortou-lhe os pulsos e riu quando ela disse que tinha medo que o sangue fugisse. Ele não foge, disse com complacência. "Está necrosado. Você precisa abrir todas essas suas veias estreitas, deixar entrar um pouco de ar e então,"

Ele não sabia a resposta. Mas quem disse que ele deveria saber?
E essa estranha mania de controlar tudo? E essa obsessão em conhecer todas as nuances e matizes de olhares cruzados?

Era, finalmente, a sua hora de parar.

20 de mar de 2009

Alladin se escreve com dois LL?

Então eu disse:

....

Sim, fui eu mesma. Achou que eu diria em terceira pessoa? Sério?Que eu diria algo assim sem assumir a responsabilidade? Não que eu tenha muito caráter, mas seria incapaz de cometer algo parecido e me abster da culpa.

Também não acho que seja sério o suficiente para fazer um puta drama mexicano, desses que gosto. Mas, não sei...alguma coisa me motiva a dizer.

E me sinto tão bem com isso, quase orgulhosa da minha postura (uauu!), quase muito feliz com a minha existência.

Não, não é importante para ninguém, aliás, nem sei porque falo sobre isso com você.

Consigo fechar os olhos e sim. Quase posso sentir.

Fica feliz por eu estar feliz?

16 de mar de 2009

louva-deus

Olha, eu poderia muito bem mentir.
Dissimular, virar os olhinhos fugindo do assunto, morder os lábios, jogar os cabelos simulando descaso.
Mas não poderia de deixar me apavorar. Me jogar dessa janela só para ver a rua que você passa.

Claro, isto é, se houvesse um você.

Tem ele ali, aquele ali do outro lado, uns estranhos simpáticos e muita viadagem por todos os lados. Claro, né gato? Augusta é assim. Rolam emos também. E eles vomitam pra caralho porque só bebem, tipo, vodca no bico e fumam beck pra caralho.
As pessoas ainda falam beck? Pq, assim, meu pai fala baseado e eu acho o ó. Tipos, pai, ninguém mais fala baseado. Mas na verdade fala sim, porque tinha esse cara que eu ficava e ele falava baseado, mas ele nem conta porque eu nem gostava dele, e além do mais, como posso dizer? Bem, ele...uhmmm. Deixa.

E eu preciso parar, mas não posso mais. Sabe quando parece que não existe aquele turning back, só pra parecer bem profissa.Turning back, palavrinha de merda.
Gosto mesmo é de pretty, freak e oclusivas GLOTAIS. Chi-quer-ri-mo, porque chiquérimo eu sei separar.

E na real, eu queria fumar um cigarro. Mas não posso, sabe como é...Como fumar um cigarro na frente de alguém de acha Deus-padre-"fala" tudo um arraso?
Não posso, né? Aí fico aqui escrevendo esse post por alguma razão que me foge agora, só pensando naquele cigarro que me espera. E nem vai ser tão bom, porque gosto mesmo é de fumar enquanto escrevo, não no meu quarto-que-acabei-de-limpar e no meu lençol-que-acabei-de-trocar.

E nossa, eu sou muito mão-de-vaca, hoje tipo, tinha esse livro "Tupi antigo para sei-o-que-lá moderno", e eu TENHO que comprar esse livro, porque meu professor escreveu e agora a aula dele é em cima desse livro, mas achei muito usurpador (boa, essa foi boa, alguém aí entendeu?)da parte dele.

Aliás, já falei que odeio gente burra? Talvez não, porque super me acho burra na maior parte do tempo. Burra mesmo, me falta....Bem, sei lá, o momento é de falar mal dos outros, não de mim.
Cara, e gente caipira? Assim, como eu, manja? Jacu do sítio. Acho que me reconheço e por isso tenho raiva e afeee....Como tenho preguiça de mim.

E ainda hoje aconteceu uma coisa muito legal. Achei que era ruim, mas aí entrei no Google para pesquisar e é muito legal. Mas não vou contar o que é. prefiro falar do meu sonho.

Assim: sonhei que dirigia uma moto em alta velocidade e a moto tava com problema no freio, mas eu controlava ela, desacelerando nas curvas e a hora que parei, pensei: Preciso ajustar esse freio. E sonhei também outro dia com rios ou mares dividios por arames farpados.

(suspiro)

Só queria que você entendesse e gostasse de tudo isso. E fosse bem doce.
E leve, e tudo fosse bem claro à sua volta.
E você me ignorasse às vezes, especialmente quando digo bobagens. E você sentasse assim desse jeito e me olhasse assim por cima e me lembrasse do quanto.E.tem mais.
Vem, mas vem bem devagar,pode pegar no meu cabelo, pode, pode.

Tira meu fôlego e me deixa sem dormir, só ouvindo você falar. E, nossa, já te falei? Seus olhos são oblíquos. Pequenas lamparinas que mudam de cor só para mim. E você não sabe também, mas reparei outro dia em você...e achei uma coisa que super se confirmou depois. Mas não falo o que é, não agora.
Só falo depois que você mandar eu me calar.

Calar, mentir, fugir, sucumbir, porque tudo sempre termina no infinitivo....

12 de mar de 2009

Sobremesa

Enfie a faca no peito, rasgando delicadamente o ventre.
Com a ajuda de uma tesoura, corte os seios e separe em uma tigela à parte.
Queime os cabelos com álcool e limpe a pele com língua.
Beije as entranhas carnívoras e dissolva as folhas verdes em éter.
Reserve todo o sangue em um vaso oriental como terra e açúcar mascavo.
Coloque na geladeira até assumir a consistência líquida, a cor translúcida e o gosto flácido. De pernas brancas envelhecidas.

Por favor, me salve. Ela grita com grandes olhos repletos de rímel. E um estranho e excitante pavor formiga seus lábios trêmulos.
Com a língua, limpa a mancha amarela do que restou na faca, e vomita sobre ele ao mesmo tempo em que lhe subtrai em um só golpe perfeito os lóbulos da orelha. Sim, agora tinha lóbulos só dela.

Ele sorria. Veja, faz tão bem sorrir sem lóbulos.

Levantou-se. Caminhou a passos incertos e cambaleantes até a nova escrivaninha.
Abriu a segunda gaveta, contando de baixo para cima do lado esquerdo.

Retirou tinta branca, azul e vermelha.

Muniu-se de muita coragem. E com um tesão incontrolável vasculhou a gaveta até o fim, quase tocando a parede. Sua respiração ofegante saia diretamente do peito. Sua garganta, aberta quase até o queixo revelava um buraco sangue-púrpura-macio-quente.
Parou em frente ao espelho por alguns segundos. Mais rímel, sim, muito mais rímel.

Enfiou dois dedos no pote de tinta branca. Esfregou delicadamente a tinta quase porosa nos lóbulos que havia acabado de retirar dos bolsos. Repetiu o procedimento.
Com os dentes arrancou um pedaço do vil bolo de carne entre seus dedos.

Não lhe interessava mais.

Mergulhou os restos de sangue, tinta branca e dedos no pote vermelho.
Bebeu de uma só vez o final do frasco.
Mastigou o plástico que comemorava naquele dia seu centenário de morte.

Enfiou o que restava de si no buraco da garganta, começando pelos pés, coxas, ventre, costelas, terminando, por fim, naquele chakra entre os olhos. E com a língua impulsionou-se rumo ao pote azul, antes que a luz verde do entre-olhos conseguisse escapar.

Restou no chão uma grande poça amarela, que ele misturou com a colher e lambeu vagarosamente enquanto assistia a chuva através da janela.

3 de mar de 2009

Superupdate

Preciso escrever algo bem feliz.
Algo simples.
Seguro com força meu queixo entre as mãos, cotovelos apoiados na mesa.
Deixa, deixa o cigarro queimar, a água esquentar e, pelo amor de deus, desliga essa TV.
Abaixa o tom da voz, minha cabeça me mata.

Não, não chega muito perto não, que hoje não quero.
To cansada, sabe? E ainda nem chegaram as porras da sei lá, como era aquela música sobre abril?As cores e tudo mais?

Nem faz diferença.

Ainda é março e aquelas águas todas não chegaram na minha vida ainda. Na sua sim?Que pena...

Prendo os cabelos, ajeito para trás. Sim, ouviu bem?Já consigo, porque fazia tempo e sabe...Que mania de me interromper. Porra, você me irrita muito.

Tá, nem tanto, confesso. Acho que a culpa é do calor, sabe? É. Quase nada combina com isso. Isso me lembra, já te falei? Queria ser negra ou tartaruga.
É. queria.

Agora mudei de idéia. Quer dizer, mais ou menos. Quero ser...tanta coisa chata no mundo, né? Não quero ser nada.

Quero ser buraco. Vazio. E nem se atreva a tentar plantar sementinhas dessas que dão coisas chatas como flores. Buracos melhores são os ocos. Aqueles que ninguém repara.

Ai que papo de merda. Você cansou? Você também é um puta chato. Mas to com preguiça até de você.

Não abre essa porta, não tá vendo a janela? Acho que a culpa é dela. Essa janela suja. Claro, já tentei limpar, mas tipos, ela é alta e grande e eu não alcanço a parte de cima, nem do lado de fora. E tenho medo de morrer, manja? Tipos, que morte escrota, pior que isso só morrer, uhmmm, deixa eu pensar em uma morte estúpida. Acredita que não vem nada a cabeça?

Enfim, tenho medo de morrer. Antes eu não tinha, aliás, eu era, sabe...Bem mais idiota. Você não acha?
Anyway, eu era besta. Tinhas umas idéias assim, bem piores que as que tenho hoje.

É, porque hoje eu sou assim, desse jeito que você não consegue enxergar. Passa seus óculos pra mim, deixa eu ver minha cara no espelho. Já sei!

Queria assim, atravessar o espelho. Isso, bem Alice. Porque, meu caro, ser Alice não é pra qualquer um. É uma responsabilidade tão grande, que às vezes meus ombros cedem a tanta pressão. Ou quase cedem, porque, além de tudo, sou muito orgulhosa. Você não consegue ver, claro, tem miopia, bobinho.

Não, não chega perto ainda não. Not ready, not in the mood.

E muitas pessoas falam comigo ao mesmo tempo e eu não-me-importo. Me importo só com essa minha insônia. E quando se sofre de insônia é como se você passasse o dia todo semi-desperto, semi-morto, semi-quase-sem vontade.
E isso mata mais que morte-morrida-estupida-de-cair-de-janelas.

Por favor, arranca meus cabelos com força, me puxa pelos braços, violentamente, me surpreenda, peloamordedeus. Rasga meus lençóis, joga esses livros no chão e me come no teto. Anda pela minha parede e acende esse cigarro no concreto. Tem concreto por toda parte, meu amor, não seja burro.
Quebra, quebra os quadros e pratos. Vamos andar sobre os cacos de vidro, vem, olha como é bom. Rola comigo pelo chão, mas não solta meu cabelo, me guia. Não sou sua nem por um segundo, você tem que obrigar a isso. Me tira de mim, vai. Me descola de mim mesma. Assim, ó: segura com força, me dá um beijo, e depois arranca de uma vez só.

Quando eu acordar não serei mais eu. Nunca mais serei. Só estarei com você.
E até isso vai durar muito pouco, até que você me despedace de novo, com tesoura dessa vez.

E eu fique alguns dias, assim, jogada pelo meu chão. Sem vontade de mexer. Só vendo as partículas de poeira dançando soltas pelo ar. Pensando com os botões que não sei mais onde estão: queria mesmo era ser vento. Ventos de março, só para passar com desenvoltura por cima dessas águas todas que nunca chegam.

1 de mar de 2009

Mímica

E se as palavras acabaram?
E se os olhos se fecharam?
E se o coração anda batendo, acuado, na garganta?
E se agora, só o não-dizer pode explicar o que os olhos não sentem mais?

Aperto os lábios, simulo uma respiração profunda.

Vem, vem comigo. Ajuda a rasgar minha pele.
Vem, vem agora que o asfalto é quente. Vem que tudo ainda é sujo.

Entrega.

Abre minha carne. Mata minha sede de sangue, mata seu desejo de cuspir labaredas de carvão.

Desfragmentação.

Costura as pontas dos meus dedos. Faz meus lábios azuis, meus cabelos anis. Minhas unhas ocre.
Coloco uma roupa de domingo e decoro expressões em latim.Você sorri assim?

Pausa.

Corro nua pela avenida. Corro em silêncio.
Olhos fixos em....As mãos frias, os pés, muito pés acima de todas as cabeças.
Te encontro na terceira margem da sarjeta. Você me dá a mão.

E sou eu quem faço o trânsito parar só porque você pediu para atravessar.