24 de fev de 2009

Tarologia

- Eu digo cale-se.
- Ãhn?
- Eu to cagando pra balada.
- Cagando onde?
- Não é onde, é pra quem...ou pra que..Sei lá, vc entende?
- O que?
- Eu cago pra isso tudo de balada e festa e night e todas as merdas desse tipo. Veja bem, não troco minha cama por nada, nunca acho que estou perdendo algo sensacional se simplesmente preferir dormir.
- Uhmmm
- E você?O que acha?
- Acho do que?
- Disso, oras...que merda, presta atenção...Acha que isso é algum tipo de depressão? Tipo, assim, não querer sair e preferir dormir ou ficar sozinha?
- Acho que é uma fase.
- E?
- E que você é louca.
- Ahh, tá, fala uma novidade. Me passa o café, por favor. Só o adoçante, aliás, quero aprender a tomar café puro, forte. Mas como estava dizendo, assim, posso ter um problema, sabe?
- Eu gosto daquelas bolachinhas e água com gás antes do café.
- Jura?Isso me lembra o ... Lembra dele?
- Não.
- Claro que lembra, pelamordeus você, hein...Mas sério, acha que tenho problemas?
- Sim, muitos.
- Me sinto deslocada. Me salva?
- De você mesma?
- Não, me salva de tudo. Até de você eu me encho na maior parte do tempo.
- Isso foi pra me ofender?
- Não, acho que na verdade foi um elogio.
- ?
- Assim, se falo assim com você, tudo que penso e sinto é pq eu te amo.
- E desde quando você considera intimidade um bom negócio? Até....
- Ai caralho. Você não aprendeu ainda o quanto sou castradora.
- Não acho que você seja, mesmo porque...
- Sou, sou sim. Castradora, egoísta, egocêntrica.
- Louca. Tá me dando tédio essa conversa.Que tal se você só me beijasse?
- Não posso. Não consigo. Sou complusiva por idéias e pensamentos.E tenho que externalizar isso de alguma forma, então falo sem parar. E não posso me conter.
- Então fale.
- Mas eu não quero falar!!!Quero que vc me responda! Você acha que tenho algum problema?

- Ai Cristo, diz enquanto olha para mim com olhos obliquos, quase fechados e sim, lívidos.

Pega um cigarro entre os dedos e me pede o cinzeiro.
Eu entrego sem muita convicção, se é que seja necessário...

- Tá bem, eu digo. Pode perguntar.

Diante do inevitável me assusto. Finjo uma atitude surpresa. Sento-me sobre seus joelhos, olho para cima e dou um trago no seu cigarro. Coloco-o novamente entre seus dedos.

- Você me acha chata?
- Às vezes.
- Quando por exemplo?
-Uhmmmm...assim de supetão não vou lembrar...

Tamborilo os dedos na janela, fingindo impaciência.

- Tá, como aquela vez que fomos ao cinema e você não parava de falar sobre as coisas que tinho lido sobre o filme tentando me impressionar.
- E consegui?
- O que?
- Te impressionar!
- Ahnnn, não. Achei meio patético.

Fecho levemente os olhos. Continuo.

- Você me acha bonita?
- Sim.
- Sempre?
- Especialmente quando você acorda.

Sorriso com o canto dos lábios, fingindo modéstia ou timidez.

- E gostosa?
- Também.
- Também o que?
- Também acho.
- Muito?
- Ahhh, sei lá. Gostosinha.
- Gostosinha? Pergunto enquanto ajeito a blusa tentando levantar os peitos.
- Eu gosto dos seus peitos.
- Cala a boca.

Ele me puxa ao seu lado e tenta me beijar enquanto eu deslizo pela beirada da cama. Sento-me de costas e acendo um cigarro. Gentilmente ele me oferece o cinzeiro.

- Sou muita chata. Chata, chata.
- Você só precisa relaxar.
- Relaxar?Repito enquanto inspiro e expiro profundamente. Ahhh, sim, pq não me disse antes?
- Eu já disse, só que você não ouve.
- Me ensina a te ouvir? Digo enquanto me aproximo para beijá-lo.
- Vou te ensinar a se calar.
- Uau, adorei. Fala assim de novo?Só que acrescenta um palavrão aí.
- Você é pirada.
- Isso é bom?
- Na maior parte do tempo.

Suspiro. Olho bem em seus olhos pensando em como consegui aquilo.
Ele me olha com as mãos, me puxando novamente ao seu lado.

- Sabe, não te contei, ele diz.

Continua:

- Lembrei de você outro dia. Estava passando...

Eu adormeço em seus braços sem conseguir ouvir o final da história. Sonho com castelos, casas, terra, muita água e uma luz azul que cobria nossos corpos. Incandescentes, flamejantes dissolvidos em um pó cinza, leve e fino. Uma fumaça suja, preto-fuligem espalha-se pelo ar. Combustão. Finalmente.

20 de fev de 2009

Sexta-feira da paixão

Estou, tipicamente, ansiosa, mas hoje com um agravante a mais.
Claro, não vou dizer o que é. Mas tá aqui preso na garganta. e escorre lentamente pelo corpo todo.
Claro que quero dizer tudo, pular de cabeça no asfalto quente, só para sorrir depois com boca e sangue e dentes para você.

Meu Deus, tenho chamado tanto Jesus esses dias que sei lá. Me pego pensando se tudo vale a pena, se você vale a pena. Se, nossa, não consigo parar. Compulsiva, ansiosa, dramática, louca, insensível. Pq penso assim?
Eu. de mim. para mim.
Como poderei fazer algo para você se nem ao menos consigo te ouvir.
(dou um grito ensurdecedor)
e saio corredo pela avenida, correndo, correndo.
Acho que to precisando de sexo para liberar energias.

13 de fev de 2009

A outra (por myself)

Analisava esteticamente. Superficial, por isso em tópicos.
Didaticamente:

Cabelos Loiros

Não! Eu não sou você, não. isso é só eu te vendo de fora de você mesma, para não parecer banal.

Caraca, meu!!! Vamo se joga na balada hoje! Tipo, c tem um ácido? Ou, sei lá, descola aí um pó (alguém conhece aí uma gíria pra usar no lugar de pó?), nossa, cara, c nem sabe ontem, preciso te contar tuuuudo, amiga. Não, te amooooo! Vamo brisáaaaaaaaa.
É, ou, ainda me perguntam: Por que você não fica em casa?

Ou, ela é mó invejosa, certeza. Viu o Orkut dela?Mó idiota. Porque meu pai, aí ele me disse:

Tipo: Cadê o (xxxxx)?
Assim, né meu?Eu respondi:
Tipos, pai: Nem quero nada com ele.

Pai:
Isso mesmo, filha, ele não te merece.
Nuvens, nuvens. (Ele não te merece, filhinha, porque ninguém te amará mais que eu. Que sou másculo e forte e sei de tudo)

Ai pai, me defende.

Mas, assim, né? Descolou o pó?Porra, vamo de bala, quero ficar fucking crazy. Vamos tirar uma foto?
Nuvens, nuvens (Isso, de cima, olhando pro lado. Meu peito é fudido, caralho, é ótimo ter peitão)

Meu, não olha, não olha.

Porra, meu. Falei pra vc não olhar. é ele.

Tipos, vou ao banheiro. Meu, fica aí e vê se ele vem falar com vc.

Não, penso, não, penso, não, penso.

Nossa, gataaaaaaaaaaaa. Qq vc ta fazendo aqui? Hahahaha, claro que vou na festa. Ta loca? Assim, casa? Rá...casar, pode crer, engravidou...mas sempre foi biscate...ai, claro, amiga. Te ligo, ta? Não some! Me manda um scrap.

Ahhh, vc por aqui?Eu vi você, tipos, eu vi. Eu te vejo o tempo todo, pra onde quer que eu olhe. Por que minha vida tem super sentido, e eu gosto de martnália, mas gosto de Alice in Chains, só pq vc...Mas vc...escroto.

Ele respira, para sucumbir. Mas só existem nuvens e nuvens.

As mãos estão trêmulas: Poética

Olhos podem ser lívidos?Por que não consegue mais escrever poesias?O que se perdeu?Talvez tenha sido quando desaprendeu a perdoar, se é que alguma vez soube.
Quando começou a ponderar tanto as coisas?E achar que literatura eram posts e escrever obrigação e linguagem algo que pudesse ser adequado à necessidade?
Por que regras gramaticais sempre bloqueavam o processo criativo.

Será que ninguém seria jamais capaz de compreender que certas coisas não se aprendem? Que, para certas coisas na vida não é preciso ter regras ou manual de instruções?
Coisas. Paixões, destino, coincidências. Frases curtas.

(IT) tentava se superar, fugir de seus próprios lugares comuns. Porque sentia nos seus textos, assim como sua vida, uma grande repetição. E só de pensar nisso, continuava repetindo o mesmo erro. Claro, havia uma certa lógica, isto é, se conseguisse enxergar a longo prazo.

Ciclos.

O ciclo dos treze anos. Igreja.
O ciclo dos catorze. Hi-Fi.
O ciclo dos quinze. Árvore.
Aos dezesseis. Sexo.
Aos dezessete. Pizza+motel. Sim, paredes salmão.
Aos dezoito. Nova Iorque.
Aos dezenove. Mentiras.
Aos vinte. Ônibus.
Depois perdeu as contas.

Hoje. Edição de texto.
Hoje. Por que é sempre hoje e o hoje nunca acaba.

Mas não queria falar sobre nada disso. Queria escrever. Como sempre quis, queria algo que não estava em si. Nem na madeira, nem nas traças, nem nos seus silêncios. Muito menos no pão, ao alcance de seus pés. Além de onde sua vista alcançava. Por que sempre havia muitas paredes cerqueando o pensamento.

Um dia, deitou-se no chão. Fechou os olhos. Porque o céu era tão assustador?Com nuvens e uma imensidão que fugia ao seu controle. tudo continuava parecendo pequeno. Mesmo o infinito e todas suas idiossincrasias eram banais. Por mais que se esforçasse sua vida nunca chegava ao clímax.

Um texto pode ter sim:

começo-meio-fim.
Introdução-dois argumentos-alguma parcialidade-uma conclusão que retomasse o começo.

Mas sua vida não seguia nenhuma lógica. Claro, seguia: Paixões, destino, coincidências. Mas com frases curtas não havia conclusão.

Morte. (Angústia de quem vive, solidão de quem ama). Não, não coloque aspas. Não, não indique referências, copie deliberadamente. Quem inventou que não posso copiar? Se minha vida é uma grande repetição de si mesma, por que não posso imitar, reinventar, emular?

Meu DEUS (CAIXA ALTA), digo. Quer que eu repita? Os gregos, já diziam, e diziam tanto e tanto. Pode se viver uma vida toda, sonhando com a glória, mas ser só (pausa) medíocre.

Retórica nunca levou ninguém a lugar nenhum, sério.

(heresia)

Sim, como a linguagem pode ser simplesmente reduzida a Bechara? Sabe quem é Bechara? Não se importe, juro, não faz a menor diferença na sua vida.

Mas quando via alguém moreno-cigarro em punho-uma cerveja em um copo americano:

Cara, essa é propaganda, lembrei de nóis. Carnaval é coisa de gente besta.

Ou

Uma foto de si mesmo (o outro, é uma história, tá?) no jornal, enchia o peito de orgulho e batia as asas e balançava o rabo (pensei num pavão, veio um cachorro, fazer o que?)

Meu DEUS, sentia um acréscimo de estima por si mesmo (Ãnh?Isso eu sei!) e pensava que pessoas vaidosas e egocêntricas e autoritárias não podiam fazer nada além de manipular a massa. O Povo.

Se Aristófanes e Ivete Sangalo podiam falar em nome do Povo, por que eu não posso?

Ivete Sangalo mostrando seu camarim-exclusivo-high tech-na TV:
“Sabe porque eu tenho TUDO isso?Por causa do Povo, só por ele.”

Agora sim aspas, para não deixar dúvidas.

Devo concluir o texto retomando o começo, pensou. Mas aí teria que saber se olhos podem ser lívidos.

Dostoéivski diria que sim. Mas e Bechara?

9 de fev de 2009

feiras e seus hífens

Era uma tarde de sábado chuvosa e quente. Ela tinha uns grandes olhos castanhos amendoados.

Olhos para comer. Mãos para ver. Uma dor deveras fria para sentir.

Sentada, observava a chuva que nunca atingia sua rua, não alagava sua casa. Resumiasse somente a um barulho distante, estridente, quase bom para dormir, se ela conseguisse fechar seus grandes olhos.

Ajeitou os cabelos para trás, pensou em ler um livro, olhava o teto branco. Não, nem pensava em nada demais. Se é que pensava em alguma coisa. Estava, simplesmente. Não era, não existia, não possuia.
Porque para ser deve-se possuir alguma coisa, não? Um colar de pérolas, um anel de prata, sapatilhas vermelhas, um gadget qualquer, uma saudade, um desejo, uma verdade.

Levantou-se, foi em direção ao espelho. Experimentou um par de calças velhas. Pintou os lábios com um antigo batom vermelho cheirando a mofo. Pendurou grandes brincos de madrepérola. Ficou sem blusa, prendeu os cabelos, acendeu um cigarro e abriu, uma a uma, todas aquelas gavetas e livros e pastas.
Sentou-se no meio de tudo, envolvida por muito pó e fantasmas que não existiam.

Espalhou cartas, bilhetes, memórias, fotografias. Olhava para tudo com grande afetação e um certo sentimentalismo grosseiro. E se fizesse um ritual? Dançando nua em volta, enquanto ateava fogo à todo aquele silêncio que vinha da chuva lá fora.
Ainda se chovesse dentro, e toda essa tempestade acontecesse dentro daquele quarto de paredes borrentas. E seu peito partisse em dois.
Mas não, só uma brisa morna e seus grandes olhos céticos amendoados garantiam alguma vida àquele estúpido lugar.
Ela se animou. Estúpido.
Sim, lugarzinho de merda.

Não conseguia mover-se. O cigarro se auto-consumia no cinzeiro. Começou a sentir-se mal. Sufocava, engasgada pela própria respiração. Vontade de se rebelar. Declarar guerra contra si mesma.
Consciente x inconsciente, ela não sabia que lado lutaria. Quem era o mocinho dessa história? Animus poderia ser o vilão?

Sua vida era uma eterna fuga contra o presente, e um gosto de ressaca amargo de um passado que nunca cicatrizava.
Vivia vizualizando esse momento pós-hoje que seria mágico e perfeito como ela merecia.E, então, todas as noites, deitada em sua cama, permitia-se acreditar nisso por 5 minutos até pegar no sono.
Mas seus sonhos eram repletos de labirintos e caminhos que ela desconhecia, mesmo em seus sonhos ela fugia da chuva e da água que insistia povoar seus cenários inconscientes.

E, assim, o futuro nunca chegava em sua casa, em seu quarto, sua cama.
A culpa era sua, mas suas mãos estavam atadas e seus grandes olhos amendoados serviam só para comer, não para enxergar através da janela que permanecia fechada.