20 de ago de 2009

Sobre o mármore

Para Laris

Ela queria dizer, mas e se dizer não fosse suficiente?
Pior, e se não fosse correto? E, se dizendo, entraria numa espécie de redemoinho emocional de auto-flagelo e auto-piedade?

Sabe, sempre era um risco a se correr.

Próxima ao meio-fio, vasculhava a bolsa em busca do fone de ouvido que não funcionava mais. Esperava por aquele ônibus que nunca chegava, ou chegava muito lotado.

Tentou se concentrar, mas no meio de todo aquele concreto, sujeira e barulho não podia mais ser dona de si mesma.

Não conseguia nem ao menos se lembrar das coisas que gostava de comer no almoço, ou dos livros esquecidos na lista de coisas-que-deveria-ler. Das pessoas que gostaria de conhecer, o lugares que gostaria de morar. Já pensou? Se tivesse nascido, não sei, em algum lugar bem bucólico e que tivesse neve. Sim, neve era uma coisa boa. E supermercados cheios de coisas bem verdes orgânicas. e bicicletas.

Não ônibus malditos que nunca chegavam.

Uma buzina ensurdecedora interrompeu sua quase vertigem, antes que ela atingisse seu clímax. Conseguiu pensar bem a tempo em orgamos por imagens. Era uma boa idéia.

Um mal estar súbito lhe acometeu pelas pernas, estranho o centro de suas tensões ser exatamente entre as pernas. Ansiedade acelerava muito mais sua púbis que, sei lá, o centro do peito... Era como se um coração pulsante, de veias, e muito sangue bombeasse seus músculos internos.

Não, não queria subir naquele ônibus. Não queria voltar pelo caminho que já havia percorrido até aquele ponto.
As pessoas não paravam de falar ao seu redor, como tudo aquilo podia ficar subitamente desiteressante em questão de segundos. Como toda aquela multidão podia ser alheia a todo seu previsível universo interior e ao mesmo tempo responsável diretamente por todos seus espasmos e fugas de si mesma?

Metalinguagem, pensou. Não.
Família, psicanálise, Cristóvam Buarque. Não, não. Não era nada daquilo. Pensava naquilo que haviam dito, que ele havia contado. Tentava resgatá-lo, sua imagem.
Dialética, pais, sonhos, carros, projetos. Nada existe e tudo é possível.

A cidade engolia seus sonhos.
Seu instinto criativo.

Porque não existe beleza, epifanias, digressões possíveis que caibam em uma sala dessas tipo aquário. Nem que você tente decorá-la com luzes e lousas e até cores, pra ser bem esforçado...

Estava dentro de seu quarto. E ele era tão macio e suas paredes eram tão flácidas. Podiam cair a cada suspiro seu. E ela podia pintá-lo com guache e as pontas dos dedos, desenhá-lo com a força de um sopro.

E tinha essa colcha colorida, que lembrava a Winona Ryder em um filme que tinha esses retalhos.
Aí pensou em café da manhã. Muitos cafés da manhã, e essa imagem era tão, mas tão, mas tão chata que ela se arrependeu de pensá-la antes mesmo que a imagem pudesse ser formada em sua cabeça.

Porque seu pensamento nesse momento era uma caixa, uma espécie de caixa de televisão. Pra gente e pra cachorro. Ou uma tv de cachorros. Uma tv de cachorros que era um colosso.
Mas cachorros são chatos. Sushis são legais (pegou?)

Não tinha como escapar.Estava em uma prisão. E nenhum ônibus poderia levá-la dali.

#ashes#

18 de ago de 2009

Fotografia

Ela me olhou fixamente. Por um instante pensei que fosse chorar.
Ela queria falar, dizer,
Por um instante quase me identifiquei com ela, mas recuei com a mesma força que seus olhos me possuiam.

Fui ao banheiro. Podia sentir suas mãos. E ri sozinha olhando minha imagem torpe no espelho. Ajeitei os cabelos para trás e sorri ao me lembrar de você.

E suspirei contente em pensar que estava fechada naquele banheiro silencioso. Pelas janelas só o dia escuro e o barulho imperceptível do asfalto-molhado-do-peso-de-tantos-anos.

Agora, imagine você, dias cinzentos são tão lindos. Tão quase mórbidos.

...

Se giro na cama você me segura e, ainda dormindo, sinto sua respiração na minha boca.E suspiro ofegante de alívio.

Sabe, contei pra ela. Não sei se deveria...me sinto tão fora de mim, digo, uma angústia quente que me escorre pelas pernas.

Nesse mundinho particular, cada vez mais humano, menos articulado, idéias soltas e até um forçadinha grosseira de parecer menos obstinada.

Digo obrigada.