30 de mai de 2011

Os insetos comedores

A lambreta muda de cor
A dor muda de amor
A casa muda de feira.
Tem quarto e nova janela
Panela
Banguela
amarela

Não há ninguém na cancela
pra dividir a panela
pra esperar na janela
Na porta da casa
a lambreta amarela
voa, voa

Amor não muda a dor.

feirafeirafeirafeirafeira

desejo. sobrevivo
não leio, não te vejo.

eita falta de amor
cadê a dor, meu Deus?

é vazia a respiração
o suor na palma da mão

giro, giro, giro
permaneço.

tudo aí tá igual?

A vida é uma bola.

25 de mai de 2011

mulheres e lobos

Curiosa sua letra redonda na capa do livro.
Nuvenzinha, florzinhas tímidas.
Triste gente que escreve com letra de criança, sua letra é de menina. Moça de 18 anos, que ouve disco sozinha no quarto.
Como a Lorena, bailarina na janela. Inventando cheiro de pêssego na rua.

Mas você nunca leu as meninas. Me emprestou a disciplina do amor, e marcou com xizinhos as páginas que mais gostava. De preto, azul, vermelho.

ingênua, não cometeria a indelizadeza de corações cor-de-rosa. Acho que rosa nunca foi a sua cor.

Eu gostei muito do texto do sonho também. Te disse aquele dia no quarto que você arrumou. Eu reparei. Te disse, não?

Ainde não terminei o livro, estou em novembro, quando moço da TV falada faz denúncias na TV. Você fez um xizinho ao lado. Eu também fiz. Vou escrever um A em volta do que gostar, combinado?

 você faz xizinhos políticos, xizinhos sobre o amor, xizinhos sobre o fazer literário, sobre o processo de criar.

Eu fiz um A em um texto sobre a morte (você não sabe como é difícil pra mim escrever sobre isso), sobre as mentiras. Sobre as dificuldades, sobre Álvares de Azevedo.

Eu compartilho da angústia: da tua, da Lygia, da minha.
Compartilho a sua crença no amor. No interesse pelo noticiário político. Nas dificuldades sociais. Eu escrevo. Porque você parou, mãe?

Eu resgatei a menina que ficou presa no livro. E aquela menina, mãe, se parece muito com a mulher que sou hoje.

Eu te vi traduzindo Lygia Fagundes Telles em xizinhos discretos na beirada das páginas. Eu vi o livro escrevendo as verdades da minha mãe.

Eu vi minha história sendo contada.

20 de mai de 2011

wesak

oi mãe.

Hoje fui aceita para o voluntariado no hospital. Te disse. Dar comida pros velhinhos.

A média de idade é 70 anos. A mais nova, é uma mulher, claro, e tem 50.

A solidão. Quem garante que estamos salvas?
Pensei enquanto voltava pela calcada da Coronel Lisboa.
Lembra da Coronel Spinola? Acho que nunca vou me esquecer.

Hoje esteve frio, pouco sol, muita luz. Compreende?

Hoje o amigo de uma amigo pulou da janela. 16 andar.
Meu amigo continuou trabalhando. A tarde toda.
Quando ouvi, pensei que ele fosse chorar. Desabar a qualquer momento.
Quando dei por mim, eram meus olhos que estavam lacrimejantes.

Eu senti vontade de abraça-lo. Deveria? Um abraço e algo só oferecido? ou recebido?

Penso.
vc me acha criativa? Talvez eu seja, só preciso avisar ao mundo.
Cansei de ser correta, essa fantasia não tem me caido bem.
Vamos inventar um prêmio, mãe? Você me premia, eu premio você.
A gente pode fazer um cerimonial. Um carnaval.

Eu não quero mais ter medo, mãe.

6 de mai de 2011

5 de mai de 2011

send

Ai, já vou comecar me desculpando, queria te escrever, sei, sei bem, não devia.
Queria te ver, sabe, dizer.
eu acho que nao te amo mais.

Pode rir, você sabe que eu não faria, mesmo se fosse verdade.
Tua lembrança é imagem congelada na janela do teu prédio.

Como pode, eu perguntaria, você viver com uma pessoa, achar que conhece suas verdades, seus trajetos, trejeitos e.


que importa, não é?
Você se muda.


desculpa de novo. você está louco?

Digo:
Você não vai ajudar ninguém, cada um vive o que precisa viver.
Penso roendo as unhas.

Você só vai se afundar em neuroses que não são suas, continuo, todas as coisas que você criticava.
porra.
Pensa, eu argumentaria, como estará seu cérebro no final do ano? Derretido, por mil sentidos.


***


Sua marca indelével na minha pele.
A saudade engolindo meus dias.
Só amor.

Minha cabeca dói.
meu peito afunda em si mesmo. As costas grudadas na cama. O buraco na garganta.
Minha cabeca doi.


é dolorido aceitar suas partidas.
o amargo claro assim: você só não me ama. mais.


***

Passo a mão no telefone.

- Oi, tudo bem? Você sente minha falta? Desculpe, eu ainda te amo.
O amor é frágil como uma folha de papel. Acho que não estou bem.

2 de mai de 2011

O dia em que a terra parou (estépeum)

Eu sei, mãezinha, você pediu para eu escrever.

Mas todos os dias eu me pego prostrada no meu quarto, ou correndo ruas sem fim, nesse pequeno espaço que eu inventei ser meu mundo.
Penso agora:  perdi minha fé em alguma esquina.

Você tem a solução, mamãe? A formula mágica que resolve todos os problemas que a gente inventa?

Eu sonhei com você ontem. Eu brigava com a prima. Eu furiosa, verde de despeito, seca de angústia. Chorava.
E você aparecia: vai minha filha, responde pra ela, levante-se. Eu que sempre quis você assim.
ai.

Eu fui no médico:  meu colesterol está alto. Eu tenho sardinhas de sol no rosto, eu nunca vou aprender, mãe?

Eu estive atolada na lama construindo casas em uma comunidade sem saneamento básico, mas ainda fico nervosa porque a água quente de casa não funciona.
Eu não escrevo, eu não medito, eu mal saio de casa.

Tenho dor de cabeça.
E colesterol alto.

Eu não quero ser melhor que ninguém, mãe. Às vezes, eu só preciso me suportar.

Hoje faz sol. Um céu está laranja, rosa e azul. Aí também é assim?

Penso que podia ficar em casa, mas a minha casa não é minha.
Podia parar para chorar, podia ficar, podia voltar.

Minha cabeça não para de doer, meus pés não param de arder.
Insisto.