29 de jan de 2010

A incrível história do menino que não gostava de carinho VOL.1

Bem, pra começo de conversa, ele não era menino. Digo, estava mais para adulto, um jovem.

Mas a palavra jovem parecia tão cafona...algo como falar noivo, ou esposa, ele e eu pensávamos.


— Ai, então, sábado eu vou no chá de bebê da prima da minha esposa.
— Ahn?

É, ele não gostava dessas coisas antiquadas. Não gostava do que era comum, do que era imposto.

— Você precisa estudar, se formar, trabalhar, se casar, ter filhos, ir à missa aos domingos. Você pre-ci-sa.

Ele nunca faria nada disso. Quer dizer, até faria. Mas só se essa ideia viesse dele mesmo. O que não era o caso no momento.

Neste instante, o que ele queria era...

Uhmmm...
Estranho....
Sabe que eu não sei?

Porque assim, outra coisa que você deve saber sobre ele: ele fala pouco.

Fala pouco sobre ele mesmo, que isto fique bem claro. Porque ele é até falante, sabe?

Às vezes, hihihi, vou te contar: ele acorda no meio da noite assim todo agitadinho, e fala, fala, fala. Conta todas essas histórias e dá risadas e fuma cigarros. Ou, às vezes, ele nem quer dormir.
Assim: ele tá quase dormindo. Olhinhos semi-cerrados, de bermudas xadrez, já fumou um cigarro, já entrou na internet, já tomou água, já foi ao banheiro, já escovou os den..zzzzzz

Er-ra-do.

Ele não dorme. E fica só falando, falando sem parar, e todo cheio de beijos e abraços e muitas historinhas divertidas.
Preciso te dizer: é tãaao lindo.

Mas, aí, né, ele não fala dele.

Ahhh, e isso até me lembrou outra coisa. Outro dia desses eu estava lá. E tava semi-de-costas-para-ele, eu estava deitada na cama e quando olhei para trás, ele tinha aqueles olhinhos distantes, multicoloridos, fracionados tão quietinhos, que eu disse:

— O que há?

E ele me responde coisas como, "sempre, mãe, não, se quisesse, saco".

Então eu olho com cara-de-peixe-morto, que eu uso sempre quando fico sem graça e digo: Ui.

***

Mas aí vem a parte do carinho, vou te contar:

Sabe, ele gosta de gatinhos, e gatinhos, você sabe, né? Não gostam muito de carinho. Quer dizer, só gostam quando tem vontade, isto é, de um jeito muito específico.

E, esperta que sou, pensei: gatinhos...

Aí, né, descobri que gatinhos gostam de carinho na barbicha. E eu, veja só você, adoro carinho em barbicha de gatinho.
Então, pensei: que gostoso, Até dá pra ron-ro-nar.

Bem, ele disse: "Não. Quer dizer, de vez em quando, bem de vez em quando".

Aí, teoricamente a história termina por aqui.

Pluft!

Nisso, minha irmã entra. E diz, coçando a nuca com a ponta dos dedos:

— Mas que palhaçada é essa?

— Que palhaçada digo eu. O que você tá fazendo aqui? Esse texto não é seu não ô. Volta lá pro seu dragão!

— Quer dizer, o seu dragão...

— Uhmmm... é, tá, vai, volta lá. Este texto nem é seu. É meu e do terriv...

— Por isso mesmo eu vim, onde já se viu terminar texto pro terriv.... assim? Que coisa bizarra. "Teoricamente acaba assim" hahahahahaha

E ela ri gargalhadas de segurar a barriga e torce os dedinhos. E juro, até vi ela dando tapinhas na mesa, apesar dela negar veementemente que tenha feito algo assim. Tá bom...

Pluft!

Acordo deitada no chão frio da minha sala. Paredes amarelas, teto branco. Pés gelados.
Dou uma giradinha, encosto as buchechas no piso, sinto os fios caindo pelos olhos, testas, orelhas.

Levanto-me, esfrego os olhos, saio andando na ponta dos pés. Te encontro na esquina do corredor. Um beijo e um sorriso.

Porque, mesmo incrível, mesmo menino, assim eu sei que ele gosta.