16 de mai de 2014

Da série: cartas que nunca serão enviadas

Essa calça tá muito quente.
Bom. short de dormir.
Prender o cabelo? Porra, cabelo curto. Só se eu tomasse banho.
Mas quero falar, quero falar com você.
Sei, sei bem. Falo sobre você.

No bar.
Na Bela Cintra.
Falei mal de você. Como falo sempre. Me sinto bem melhor.
Mas aí minha amiga tava cansada, meu amigo ia pra outro bar.
E aquele papo todo sobre....você vai rir, nem vou te contar.
Você ia ficar puto.

Mas é que sonhei com você essa noite. Sonhei que alguém tentava suicídio, primeiro, no sonho, achei que era você. Mas não, não era. E fiquei desesperada.
Quase te liguei, mandei uma mensagem. Porque no meu sonho, tinha essa amiga minha que você não conhece. E ela não conseguia ver sua imagem refletida no espelho.
E eu fiquei assustada porque tinha havia um precipício, eu não queria um precipício, queria uma estrada segura, mas eu descia o precipício sem saber porque o fazia.

Acordei e pensei em te ligar. Escrevi uma mensagem sincera e apaixonada,
Mas não mandei. Pensei em mandar hoje de manhã, mas analisei bem, valia a pena? Conjecturando : não.
Porra, mas fiquei pensando nisso. Aí li meu horóscopo que é igual ao seu. Para me lembrar na sequência: não acredito em horóscopos em 2009.

Aí pensei em ganhar o dobro que ganho hoje. E isso seria perfeito, porque se eu tiver muito dinheiro não penso em você. E pensei o quanto seria feliz.

Mas eu queria fazer algo, porque estava sozinha naquele bar. Sozinha sem vontade. Pensando no poodle branco preso na coleira à mesa do outro lado da rua com seu dono velho e gordo.
Pensei na minha amiga que havia me convidado para ir ao Ibirapuera correr.
Ai, esqueci a roupa de ginastica. Ai.

Olhei minha bolsa, talvez você tivesse ligado, mas eu não ouviria. Porque não me importo! É, foda-se. Aí veio toda aquela conversa. Você não ia se importar, então nem vou te falar porque te respeito. 

Mas seu signo é igual ao meu.
O que eu senti, você sentiu?
Diz que sim, não conto pra ninguém.

Mas minha amiga tava mal e eu sei o que é sentir isso, então comprei uma coca e um chocolate vermelho.

Bode.
Ovelha.
Churrasco e cuca.
É, vou pro Sul viajar. Você gostaria de saber? Pareceria sofisticado?
Todos os meus planos pra te impressionar.
E almoços sozinha.
Olhando paredes e ventiladores.
Olhando pessoas e suas mentiras. Maiores que as minhas.

Preciso tomar um banho, lavar esse cabelo. Organizar tudo e te ligar antes que.
Não tenho nem o que te dizer. Mal controlo meus sonhos e eles não me dizem coisas boas. Quando eu estava com você meus sonhos era bons, mas sem você não consigo ver minha imagem refletida no espelho do banheiro, tem alguém se enforcando. Um homem.

Sei que minha vida é melhor sem você, caralho.
Você não me fazia bem, meu inconsciente deveria entender.
Porra.

Tudo bem, sem palavrões. Sei bem o que você gosta, e eu gosta de ser o que você gosta. Porque sou índio.
É preciso discordar em algum momento, falar de índios e alemães e qualquer coisa só pra te mostrar: não faço as coisas só pra te agradar.
Eu só não me importo.

Mas sentei aqui, com calor, com sono pra conversar com você.
Mesmo porque, eu vou falar isso bem devagar, com muita calma, pra você prestar atenção, vou contra tudo que você é, pra te convencer mais uma vez, não vai dar certo, porque insistir?

Porque continuo aqui ouvindo música francesa e falando de coisas que não te fazem nenhum sentido? Pra te convencer pelo avesso que não sirvo pra você?  
Retórica sofística, entende?


Nenhum comentário: