2 de mai de 2014

O amor é velho, menina

Foi pensando no Tom Zé que eu entrei naquele ônibus. Alguns quilômetros ao Norte de Lisboa, eu deixava a rodoviária fantasma da pequena cidadela à bord de mer. O vento gelado do Atlântico assoviava a primavera que começava. O terreno plano e verdejante me lembrava vagamente Recife ou Fortaleza: a estrada margeada por dunas de areia clara, o céu de nuvens apagadas.

Eu tinha as mãos frias, uns poucos vestidos na mala e só um casaco. Minhas roupas me apertavam: anéis, meias, presilhas de cabelo. Tudo que eu queria era poder chegar em casa: ahhhh, a minha grande casa imaginária. 

Eu já sabia como ela seria: às vezes na beira de um rio, cheio de largos peixes que eu não comeria.  Com uma grande varanda, janelas azuis no interior de Minas ou Petrópolis (meus amores platônicos sem fim) . Teria uma cerca baixa, uma varanda com cadeiras, uma roseira e um pé de morango, que daria pequenos, pequenos moranguinhos a cada dois anos. Que eu comeria lambendo beiços e dedos.

Dei a passagem para a senhora entrar no ônibus antes de mim. A miúda senhora de 70 anos, com saia marrom de bainha feita, colar de pérolas, duas malas de couro e um guarda-chuva azul. A musa da história que eu escreveria: a Mary Poppins lusitana. (Compreendam, eu ainda estava inflamada pelos versos do “Canto 1” dos “Lusíadas”, que eu havia descoberto cravados numa fonte de um jardim chamado Macau, em Lisboa.)

“Cessem do sábio Grego e do Troiano

As navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandro e de Trajano

A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A quem Neptuno e Marte obedeceram.

Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.”

(É de brilhar os olhos a megalomania portuguesa.)

Minha musa lusitana mal falava português, conversávamos em francês embolado. Sua vida em Paris no bairro ao lado de algum monumento importante.
- “Sabes onde ficas, senhorita?” E eu respondia sim à todas as suas perguntas com medo de desapontá-la.

Era viúva ha 22 anos, morava com o filho de 50 anos. Voltava à Portugal de tempos em tempos, havia mantido uma casa, um casal de tios e desusadas memórias. Sua vida balançava na ponte aérea que separava os dois países. Nunca poderemos pertencer a um só lugar, afinal.

O senhor que a acompanhava era o tio. Estacionava o carro perto da entrada da rodoviária. Uma grande barriga de bola-do-Kiko, olhos molhados, uma boina cinza clara, ouvidos ruins. Ele tem 90 anos.

Mora com a esposa, também 90 anos. Uma das filhas mora em Lisboa, a outra em New York. E foi New York que ele pronunciou. Admiti que ela morasse em New Jersey e tivesse filhos, uma grande TV e dois labradores num quintal de subúrbio. (Eu costumo ter muito tempo para elucubrações.)

O senhor tem 90 anos, eu pensava aflita.

Ele reclama da crise, a fome não chegou na sua rua, mas ele afirma saber que a vida não anda fácil. Eu pergunto se ele gosta de sardinhas assadas. Sua sobrinha Poppins de 70 anos se aproxima de seu ouvido e repete de supetão: “Queres saber se gostas de sardinha”.
- És surdo como um vaso, ela diz ajeitando a alça das malas.

Quando ele era jovem tinha o hábito de percorrer os rios de Portugal, viajar pelo interior, hoje fica só dando voltas em círculos dos mesmos bairros conhecidos.

Sua filha nos Estados Unidos, a sobrinha na França. Me pergunto porque saíram de casa. Porque a filha deixou esse paizinho de boina e barriga-de-Kiko? Porque ela não voltou nem quando ele se aposentou, aos 84 anos, do comércio de modas que tocava. Porque foi se aventurar nessas amargas terras americanas, onde não o vento não chega gelado cheirando a sardinha grelhada. Porque abandonamos as casas imaginárias de nossa infância em busca de sonhos tão vagos quanto fronteiras entre territórios e  distância entre países?  Bebo um gole da água irrisória que carrego nas mãos.

Dou passagem para a senhora entrar no ônibus antes de mim. Ela sobe sozinha o primeiro degrau do autocarro. O tio a chama de volta:
Vem aqui, minha menina.  E pega suas duas mãos para desejar boa viagem.


Eu seguro minhas malas contra o peito e subo os degraus atrás dela. Os caminhos da vida são todos de brinquedo.

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