6 de mai. de 2012

Lucian Freud

Ele é neto do Freud, aquele que todo mundo conhece, e morreu ano passado.
Já li em algum lugar que o que ele faz não é arte, é só de mal gosto.

hehehe

Eu acho incômodo, vulgar, chocante, triste. Assim como a vida, se eu ficar olhando pra ela muito de perto. Mas quem disse existe beleza só no que é agradável ou bonito aos olhos? Ou ainda, que só nos interessamos pelo que é, em última instância, bom e justo e belo e agradável?

"Me lembra Dostoiévski em "Notas do subsolo"

Que faremos então desses milhões de fatos que atestam os homens, tendo embora perfeita consciência do seu interesse, o relegam a segundo plano e enveredam por um caminho totalmente diferente, cheio de riscos de acasos? Não são, entretanto, forçados a isso; mas parece que querem precisamente evitar a estrada que se lhes indicava, para traçar livremente, caprichosamente, uma outra, cheia de dificuldades, absurda, mal reconhecível, obscura. É que essa liberdade possui a seus olhos mais atrativos que seus próprios interesses… O interesse! Que é o interesse? Vós vos empenhais em me definir com toda a exatidão em que consiste o interesse do homem? Que direis vós se um belo dia se vem a descobrir que o interesse humano, em certos casos, pode ou mesmo deve consistir em desejar não uma vantagem, mas um mal? Se é assim, se esse caso se pode apresentar, então tudo desmorona. Que pensais disso? Tal caso pode se apresentar? "







PS: Ok, a imagem da rainha a Inglaterra só creeps me out.


Essa é uma foto dele pintando em seu atelier, tirada pelo seu assistente David Dawson.
Eu amo/sou. Acho absolutamente incrível e mesmo sexy. #quemnunca


Fonte das imagens aqui,  aqui e aqui.

4 de mai. de 2012

Brassai

Ele nasceu na Transilvânia, mas veio para Paris nos anos 30.
É realmente difícil escolher as fotos que gosto mais.
Os ângulos são geniais, ele brinca com a luz, reflexos, silêncio, noite.
Em todas as fotos tenho a impressão que a cidade é dos amantes. Da solidão vivida a dois.


gênio sim ou com certeza? Mais dele aqui.









Kevin Paulsen

Ahhh, claro, tem também o cara da pintura que eu escolhi pro head do blog.
Não sei muito dele não, nem como descobri, mas gosto de quase tudo.
Gosto da atmosfera meio lúgebre, meio dark,as pessoas em noir et marrom, meio tesão, aflição.
Só eu?

Reparem nos pássaros negros, que para mim são corvos.
só porque eu gosto muito da palavra corvo (mas qq dia aí eu explico).

http://www.kevinpaulsen.com/





Natasha Zupan

Gostei da maioria das coisas que vi, ok que rola uma obsessão com figuras femininas que cansa um pouco, mas de modo geral, gosto. Ainda do fato dela morar em Mallorca.

Não parece aí uma meta de vida ter um studio de arte num lugar assim? Só me falta saber pintar.
#eikeloka

Aqui tá o site dela, se alguém quiser saber mais: http://natashazupan.com/Natasha/Start.html





dadinho o caralho, por Franco Tettamanti

Taí uma das minha imagens favoritas da Índia.
Os moleques parecem muito estar tirando um sarro da gente. Gosto das cores, da atitude, dos pés descalços, da combinação tecnologia e tradição. 

Eu queria bem colocar a imagem aqui, mas o fotógrafo não cede a imagem.
Ok, vale a pena de qq jeito visitar o site dele. muita coisa legal.

Aqui ó. Página 6.




3 de mai. de 2012

Alphonse Mucha


Eu não sei se gosto mais dos vitrais, das ilustrações femininas ou dos mosaicos. O fato é que estou meio obcecada com a descoberta de Alphonse Mucha e da Art Noveau.

Para conhecer mais do trabalho dele é aqui ó. Adianto, ele é tcheco e quem for conhecer Praga vai ouvir falar muito dele.  Se você estiver de bobeira aí e for conhecer a cidade, tem que entrar no catedral do château, que todo mundo lá sabe onde é, pra ver ao vivo os vitrais. Depois pode ir tomar cerveja e comer goulash num dos milhares de bares da cidade. Mas só se você estiver de bobeira aí.

Se puder ser mulher de novo em outra vida, queria ser uma mistura dessas duas aí da foto: com força e delicadeza, sabedoria e sensibilidade. Eike, que Clarissa Pinkola eu to hoje.






Crédito imagens: http://www.abcgallery.com

Manual do viajante deprê


Mai taí umas verdades que a gente não encontra em nenhum manual de viajante. Igual a gente treina e faz prova pra tirar carta de motorista, tinha que ter treinamento antes de viajar, porque vou dizer.


Comida
Quando a gente viaja, a gente espera conhecer novas culturas, valores e hábitos, certo? Então não seja bobo, num outro país, tem que comer a comida de lá, claro. Ahhh, mas eu só tomo café-com-leite e pão com requeijão de manhã, que minha mãe fazia quando eu era criança. Vamos lá, faça um esforço, não mata ninguém comer bacon com açúcar nos EUA, nem que seja para falar mal depois.
Três exemplos de Praga, vamos falar de novo na cidade.


1. Eu estava um dia com americanos num restaurante tipicamente tcheco que encontramos, um self-service. Haviam várias mesas (normal) e uma parte só com balcões onde as pessoas deveriam comer de pé. Um dos meninos que estavam comigo (me sinto tão novinha falando menino) ficou bem irritado de comer de pé seu prato de purê de babatas e frango grelhado. Agora, você tá em Praga por três dias na sua vida inteira e você pede frango e batata? Pow. E o que custa comer de pé um dia na vida? E perder a oportunidade de imaginar como é ser como o senhorzinho que estava ao nosso lado lendo um jornal tcheco, tomando um copo gigante de cerveja (era terça-feira) e comendo carne?


Bem.


2. Último dia de viagem, procuro um restaurante barato e com comidas típicas, porque né?  Esbarro sem querer em um casal de brasileiros saindo de uma pizzeria e super me indicando o lugar, a esposa: “Olha, eles têm aqui uma pizza de queijo com peito de peru e champignons que é super saborosa”. O marido: “É, o vinho não estava essas coisas.”


Mai péra, eu como pizza saborossima de queijo e peito de peru por 10 reais na pizzeria na esquina de casa em SP, não dá pra viajar até Praga pra comer o que eu comi a vida toda. E vinho? Mais, pow, os caras são incríveis em cerveja, porque você vai tomar vinho aqui? Quer vinho de qualidade bora pra Toscana, Bordeaux. Se é o que você busca, bora fazer a coisa certa. Você vai se divertir mais.
Me parece, pelo menos.


3 - e esse pra mim é o mais grave. Conheço no hostel duas meninas que estão fazendo mochilão juntas pela Europa. Conversa vai conversa vem, uma delas me conta que passou por Paris “ai, mas sabe, as pessoas comem mal na França, né? Olha, todo o lugar que fomos, vinha um pouquinho de comida e uma porção gigante de batata frita...”
Cri cri cri
Então você foi pra Paris por dois dias, só comeu batata-frita (alguém me explica como isso é possível) e acha que os franceses comem mal?
(aline sai da sala)

Centros históricos e pontos turísticos
A maioria das cidades turísticas têm, dãn, seus pontos turísticos, suas lojas de souvenirs e aqueles dois ou três quarteirões frenquentados só por turistas.


Aqueles lugares divertidos onde todos os garçons falam inglês, onde as bebidas são mais caras, as filas maiores e que os locais simplesmente não frequentam. Sabe aquela história, festa pra gringo ver? Pow, você até pode se divertir, claro, claro.


Mas não parece que todas as viagens ficam mais ou menos parecidas assim? Falamos inglês (ou português, esse mundo ta moderno), compramos camisetas “Eu estive não-sei-onde e lembrei não-sei-de-quem”, tiramos fotos na frente de fontes que não sabemos o nome.


Foto
Todo mundo ama tirar fotos: pra mãe, pro namorado, pro fb, pro futuro. Nada-contra-mesmo. Mas se você não é um fotógrafo incrível, tem coisas que a lente simplesmente não capta. Não digo para não tirar fotos, mas (de novo, pra mim) vale mais vivenciar o momento que só tentar registrar.


No final, voltamos com 500 fotos digitais, sendo 350 de paisagem, e que ninguém mais vai ter paciência de ver.  A não ser que você seja desses que tira 500 fotos com você ao fundo. E nesse caso eu prefiro nem comentar.


Vamos fazer um esforço, antes de tirar uma foto, respire fundo. Hehe
Pra mim costuma funcionar.




20 de dez. de 2011

noturnos

1. eu que me perdi pelas noites do seu querer
entregue na hora incerta
ao acaso das lembrancas, da memória do seu peito

e eu que estive sempre perto
tão certa das minhas partidas
ahh, por quantas saídas não parti de mim mesma.


abri meu peito
entregue maternalmente ao teu desejo
travestida de objeto teu: brinquedinho sorridente do absurdo

pelo espelho, sua mão projetada modela meus seios.


2. o vento plácido pela janela cobre a púbis desperta
a alma despida, a flor semi-aberta

imóvel, a abelha vermelha em meu antebraço
observo inerte, [quem sabe, afinal] ao grande segredo da vida
nada disso é real.

8 de dez. de 2011

naîve

E se eu soubesse o momento de te amar
O instante em que minha vida pudesse parar

E te dizer por onde andar
e os caminhos onde pudéssemos nos encontrar

Eu te concederia a rotina do meu seio
a verdade do meu peito
[jolie] seu par mais-que-perfeito

: Eu suspenderia minha vida
por duas mil noites a mais você me amaria

Só se eu soubesse a razão
da ironia fria da vida / do delírio da noite fina
em letras miúdas no bolso da sua camisa
[te amo todos os dias [enquanto você puder] que sua noite seja minha]

9 de nov. de 2011

cansaço

"Por onde erraria a verdadeira Cecília, que, respondendo à indagação de um curioso, admitiu ser seu principal defeito 'uma certa ausência do mundo'"?

- E escrever tornava-se menos uma tradução do mundo, que sua maneira de se relacionar com ele


- Um segundo em silêncio e podia se ver a tensão do meu gesto, teu movimento nervoso. Nossa insegurança articulada.

Toda essa conversinha porque eu estava apaixonada.
e ele não me queria.
humpf.

todos os dias, a espreita de qualquer coisa que denunciasse um receio em seu olhar, um interesse em me notar. e entregas a que se submete um apaixonado tímido.

porque você só pode ser tímido. e isso alivia a angústia dos meus dias em lidar com sua rejeição, em cronometrar sutilmente todas as palavras, em criar o cenário improvável, onde sei agir perfeitamente para te conquistar.

zuuuummmmm
a delicadeza de meus medos/tão evidente minha fuga/tão assustado meu passo/ 
correndo escada abaixo do fantasma do amor que você encarna

vem, pequena, vem.
e eu, poeira de sonho, naufragando em teu abraço inacessível.

Empolada: conheco as linguagens que unem nossos destinos, mas não as histórias que desenham nosso caminho.

Pela próxima entrada à direita.
saio à francesa.

7 de out. de 2011

criolinismo

Sabe aquela dor que eu sentia?
Sumiu. Assim, como cisco. No momento que ele entrou por aquela porta ali.
Sabe, daquele jeito, reclamando, chato, nossa, vontade de gritar.
Mas eu fiquei, ali, fingindo bem: não era comigo.

Ele ligou uma música baixinho, ficou rindo era da minha cara.
você não sabe coisa de nada.

Agora eu te pergunto, porque é que me apaixono por esse tipo de você?
Que ri de mim e não entra nesse continho do vigário que eu vendo a bem pouco custo, quase, quase sem efeitos colaterais.

pra você, claro.
Meu benzinho.


Era fim de tarde, bola de sol brilhando bem na nossa cara.

E você olhou a janela paralisada e falou que queria comer milho com manteiga e sal, como se fosse uma dessas coisas sofisticadas e carééésimas, que você acha fino e tal.

Olhando no espelho, eu pensava era só no meu cabelo, olhava era só a minha bunda no espelho, pensando se você pensava nela. Milho, milho. Aquela matéria sobre a perseguição dos tiozinhos quem vendem comida na rua, sim, milho! Não, nunca comi, só iákissôba na Paulista. Bem pra te acompanhar, vejo hoje, vejo bem.

Desci.
fucking elevador, todo dia, o mesmo elevador que corta minha bunda pela metade, que eu nunca me vejo inteira. Aquela luz do banheiro que sempre me deixa amarela, bonita, um tanto que eu nunca me vejo.

Mas você me viu, de relance, enquanto a porta com mola fechava devagar.

Aquela dor. A nossa dor. Vamos sentir saudade de nos mesmos quando não formos o reflexo um do outro no espelho? 

27 de set. de 2011

The singer's name was Alice

Acho que agora entendi
A engrenagem da vida
Os desencontros dos amores
Os desencantos das tuas dores

Tanto esforço em vão
Pra espantar a solidão
Pra inventar essa história
E só caber eu e você

Ahh, os nós que a vida não desfaz
A volta que se refaz
O torto do caminho
Os retornos e aqueles carinhos

Eu podia me apaixonar
Aí você iria me amar
Pra até, de novo,
O destino: obstinado carrapato
Pular no teu retrato
Apagar a tua imagem
Aliviar minha saudade
E , de novo,
Ser obrigada a recomeçar.

24 de set. de 2011

Mano velho

O tempo.

1 . Antes só do que…com alguem sem estar apaixonada.
2. Minha casa em três palavras: planta, cama, manta.
3. O melhor de morar só: metodo
4. O pior de morar só: contas.
5. O que não falta na minha geladeira: nunsa...falta tudo.
6. Antídotos contra a solidão : sexo descompromissado (desculpa, mae)
7. As três últimas coisas que comprei: leite, queijo, biscoito.
8. Quem eu adoraria levar para casa: Emilie Hirsch, Sean Penn, Marlon Teixeira (comedora de criancinhas)
9. Quem jamais vai sentar no meu sofá: tenho mais sofa nao.
10. O que ando lendo: Piaui, livro sobre o holocausto
11. A trilha sonora do momento: Alice in chains
12. Uma receitinha esperta: creme de abobora.
13. Mania assumida: limpeza
14. Uma frase que me move: Confio, entrego, aceito, agradeco.

15 de ago. de 2011

Poema casual da moça oblíqua

Tentei te encontrar de incontáveis maneiras
Me perdi de inúmeras formas

Me amarrei à minha culpa / me abandonei
Achando que você é que tinha ido embora

Ninguém nunca esteve aqui
E eu rezando, bebendo, amando, jogando.
Me esquivando.
Você nunca esteve aqui.

Há tanta vida na morte.
Se eu ainda tivesse todas as respostas, você estaria aqui?

Não tenho medo dos seus erros.
Só da minha falta de coragem
De assumir minha responsabilidade com essa vida clichê e babaca da gente.

Falta aí um tanto de vontade

Ainda se eu soubesse de quais piadas devo rir.
a hora de ir.
sorrindo indefinidamente no infinitivo.

essa vida anda muito à minha revelia.
faço votos de que eu ainda vá encontrar essa saída de mim mesma.
E te encontrar na próxima esquina.

sem lágrimas.amarras.cachaças.máscaras.

eta diabo.

10 de ago. de 2011

filha de oxum

O peito furou
a mão recuou
o salto quebrou
a voz.

o problema da solidão é que ela tem que ser encarada sozinha
eu te disse um dia
você ouviu? Você já estava aí?

eu nao te vejo mais.
enquanto passeio invisível pelas ruas

e eu, achando que vida era superação
boba eu, pobre de mim

vida é sombra
não tenho nenhuma resposta

nem passado

a epifania de um momento sem fim
a vida em suspensão
a trajetória, o caminho
exausta de tanta razão


8 de ago. de 2011

voluntária de mim

Ela senta
com seus olhos de profundidade
me engolindo

Ela senta
com suas mãos contorcidas
me empurrando

bolas de fogo d'água
me consumindo

Seu fantasma
em sua carne flácida
Seus finos cabelos brancos
em sua cabeça rala

Perdeu o marido para a irmã
A filha para a morte
O apartamento para as netas

Seus olhos me possuindo
Londres, Paris, Berlim

nossos destinos assim cruzados
justamente no seu fim.

5 de ago. de 2011

toros

Sonhei

Você me salvava
me amava
a gente se roía

Eu te vi no meu sonho, a gente era igual
Genial

To cansada
In
Benjamin
Beijo
Em mim

Saturno, eu nunca mais vou me apaixonar

Bebi todos os vinhos da noite
Os copos dos outros
As taças,  adágas
Minha filha, Ágata.

A gente se encontrava
Eu me perdia
A gente sorria

Adormece, benzinho. te nino em meu colo.
Em seu sonho: meu ombro.

19 de jul. de 2011

chantal

Olha eu te digo, eu peço pra Deus, pra Deus, sabe como que é?
Que me mande um homem desse.

Assim lindo,
devagar,
dormindo atravessado no meio das minhas pernas.

Ai, morro. Vida fácil não. Medo de tanta coisa.

Queria era só deixar.  

Ai tristeza,
coisa linda é estar apaixonado.
Coisa linda é ficar pensando em você,
 que eu nem sei por onde anda.

Ai, a saudade. Sabe nada do tanto que eu poderia te querer.
Ainda, se pelo menos, eu  pudesse morrer de amores por você.

13 de jul. de 2011

A janela de dentro

Eliana, minha filha, sai dessa janela.
Entra pra casa, vai pegar friagem. Tá nem de meia. Coisa feia. Pula já pra cá. Quero nem saber se é tarde, se é dia.

***

Minha mãe repetia sua ladainha. Minha mãe sempre dizia: o amor é coisa tão tola. Olha lá seu pai, seu avô, sua tia, sua prima. Nessa família, ninguém merece amar. Ninguém sabe se doar.

Como um mantra inconsciente, eu repetia a oração de dor da minha mãe.

***

Quando conheci o Leandro ele era tolo, pelo menos eu achei, sabe, à primeira vista. Ele tinha uns olhos esbugalhados um tanto. A boca flácida, os dedos finos. Uma beleza escondida, sei lá.

Eu via ele todo dia.
Porteiro do prédio. Comia sempre uma quentinha. Chegava às sete, saia às três.
Tinha dois pares de calca azul, um casaco marrom, um sapato social, um tênis de ginástica.

Nunca saia da cabine para ajudar as senhoras de bochechas caídas, cigarro numa mão, coleirinha de cachorro na outra, sacola com ração e revistas de novela.

Eu bem gostava de ficar olhando elas passar, perto dos taxistas, ou na entrada da loja. Desfilando suas grandes calçolas de leite de rosas e xixi.

***

No primeiro dia o Leandro comprou um chocolate. No segundo, um biscoito de polvilho (acho que não devia ter tomado café), no terceiro, pedi para ele esperar enquanto terminava meu cigarro. Era um completo idiota.

Perguntei seu nome, o que ele fazia.

Passei a ir mais na portaria do predio. Um dia deixava uma bananinha, no outro uma barra de chocolate, no outro um chiclete bem doce. Seu paladar era  pobre. Gostava do barato.

Eu usava saia, sandália, roupa colorida. Parava lá e ficava de conversa pro ar. Horas, dias, dias. Pensava bem nele, bem bobinho, enfiando as mãos dentro das minhas pernas. Aquela língua mole na minha boca afoita.

Visceral. isso permanecia dias na minha cabeça. E eu nem sabia que essa palavra existia.

***

O primeiro beijo foi escondido atrás do banheiro da piscina.  Eu  abracei ele, passei os dedos na nuca, respirei baixinho na sua boca. Envolvi meu corpo no dele, como cobra subindo em círculos infinitos.

Posso ainda sentir seu bafo frio de café mal passado.

***

Então ele vinha me ver. Levava a quentinha, dividia comigo o feijão, separava o ovo, a melhor parte do bife. A coca quente. A língua de sobremesa, os braços, pernas.

Idiota, nem uma mão na minha bundinha.

***

Eu digo, repito, reafirmo, não foi premeditado.

Foi depois do cinema. O ponto de ônibus logo em frente. Fomos por dentro do parque.

Eu dizia, vem vem comigo.

Eu via vultos, via o silêncio da noite. Mas só dizia vem. Como se eu conhecesse alguma porta secreta naquele lugar, que pudesse nos levar a qualquer outro lugar.

Venha, venha, seu lindinho.

Ele tirava a roupa aos poucos. Eu ainda não tinha tesão, mas sentia um vontade insuportável de arrancar a sua roupa, de lamber aquela pele branca.

Eu tirei minha blusa, meus pequenos peitos, minha barriga de fora. Pensei que podia pegar friagem. Mas só dizia, tira, tira essa roupa. Vamos quero te ver. Ele me abraçava.

Braços, pernas, bafo frio. Idiota.

Eu queria cada vez mais forte. Cada vez mais, arranca essa roupa, deixa eu ver esse pinto. Deixa, deixa. E eu quase gritava e minha voz me sufocava.

Ele me comeu.

Meu sangue esquentou. O seu olho se fechou. Eu sentada como sapo no colo dele. Eu dançava, ele gemia. Eu pulava, ele contorcia, aquela baba saindo de sua boca. Minhas mãos na sua nuca, minha língua em seu rosto. Minhas mãos no seu pescoço, minha língua em sua boca. Força, força, eu deitada em cima dele. Cobra, serpente, víbora, visceral. Cada vez mais forte, seu pinto, sua garganta, minha língua. Ele me batia, ele se debatia, ele sufocava. Força, força, eu metia a língua a fundo, os dedos roxos, a garganta endurecida. Ele vomitou na minha boca. Eu não abri meus dedos. Não abri, mantive, num ritmo crescente enquanto me movimentava. Sua pele azul, senti seu último suspiro na minha respiração, gozei por muito tempo, sozinha, com seu pinto rígido e morto dentro de mim.

To be continued

3 de jul. de 2011

mantra


aceito a oracao
confio em tuas crenças
entrego minhas mentiras
agradeço tua ausência.