16 de jul. de 2013

labirinto


O dia em que os dois gatinhos chegaram foi o pior dia da minha vida. Aquelas bolinhas de pêlo macias e medrosas.

A petite era magrinha, cheirosa e assustada como um esquilo no telhado. Tinha olhos agudos, miado sofrido, um corpinho tenso de surras. Podíamos dizer que ela havia apanhado. Mas não dissemos. Estávamos só preocupados em conquistá-la e em fazê-la acreditar que este era seu novo lar.

O petit tinha a barriguinha gorda, olhinhos gulosos, cheirava as pessoas e coisas e os sapatos. Tinha bigodes curtos e um focinho assez pequeno. Naquela época eu nao sabia muito bem nomear as coisas e, um pouco por negligência, seu nome ficou Chico. 

Como o avô. Meu avô.

Nao se tratava muito de uma homenagem. De fato, nem cheguei a conhecer esse avô. Tudo que sei é que ele era velho, bravo, um tanto rabugente e um tanto quanto mais ainda mulato. Diziam era ele neto de india. Tao brasileiro quanto o Macunaima.

Eu gostava so do som da palavra : chi-co. Como o picolé que minha mãe gosta : chicabon. (Confesso que até cogitei chamar o gatinho Chicabon, mas me parecia um pouco longo demais. Inevitavelmente, viraria apelido : Chica. E esse me soava moderno demais.)

E eu sou uma pessoa bem convencional.

Nasci e cresci na mesma cidade. Me casei e hoje cuido dos meus dois gatinhos. Faço a mamãe. Dona-de-casa, econômica e limpa. Um marido ótimo. Trabalha para o governo, joga bola às segundas-feiras. Não tem religião, mas também nao tem vícios. Veste-se decentemente e sou eu quem compra suas cuecas.

Não frequentamos bares, restaurantes ou shows de música. Somos pessoas caseiras. De bem com os outros. De bem com. oras.

***
Os gatinhos estavam lá. Fugindo de mim. Escondidos debaixo do sofá.

Meu marido ao meu lado, tinha os olhos mais assustados que eles.
E eu, eu tremia de emoção ao ver minha família margarina finalmente completa. Eu, meu marido, nossos gatos. O feijão cozinhando devagar no fogo.

Voltei para cozinha buscando um copo d’agua. Um refresco de limão de saquinho. Um copo com gelo. Meu corpo tremia. Eu tinha um orgasmo. Ou um ataque cardiaco.

Passando o gelo pela testa, molhei a nuca na pia e como um cena vomitada de um filme eu estava de novo na antiga casa da minha avó.

***

Meu avô viajava. Era caminhoneiro. Minha avó também não estava lá. Seu corpo estava, mas ela não. Ela nunca estava no lugar onde deveria estar. Desde aquela época ela estava sempre naquela lugar onde ninguém poderia ajudá-la, onde ninguém poderia salvá-la.  Limpava a casa como um robo, comia como as crianças, desdenhando das gostosuras do prato, tomava banho como os gatinhos. Quase sem água. Ela nunca suava.

Naquela tarde de poeira, ela corria contra ela mesma. Competitiva, devia sempre se superar a si mesma em quesitos como agilidade para limpar panelas, eficiência para enxugar pratos e muque para lustrar panelas.

Nesse instante, ela varria do quintal as folhas da mangueira. Os pequenos insetos e frutas caídas. Ao terminar o trabalho, entrou no quartinho dos fundos para guardar a vassoura no armário de vassouras (sempre de ponta cabeça, ao lado dos baldes e produtos de limpeza, e de maneira oposta à tábua de passar, e do ferro, e da pilha de roupas que.

A pilha de roupas. Que, de repente, inundada de sangue, pus e água. Os lençois brancos ,quase azuis. Seus lençois imaculados estavam embebidos em uma gosma nojenta que dava vida a uma pequena ninhada de filhotinhos de gatos. 5 ou 6 bolinhas sem pêlo de olhinhos fechados. Esperando o retorno da gata, que acabava de dar criar exatamente no quartinho dos fundos da minha avó. Precisamente em cima de sua pilha de roupas brancas à passar. Suas roupas brancas.

Com asco e um ódio crescente. Chorando palavras de desprezo, engolindo lágrimas à seco. Um por um, ela jogou os gatinhos recém-nascidos no bueiro.

A gata, como uma barata depois de receber uma esguichada de veneno, ficou vagando pelo quintal. Miando. Pela rua, pelos vizinhos. Semanas. Os gatinhos choraram durante três dias antes de morrerem. A gata nunca mais apareceu por lá.

No dia seguinte minha avó lavou novamente todos os lencois. Minha mãe diz que eles nunca estiveram tão limpos. Meu avô ainda viajava.

***

Agachada no chão da cozinha, eu me enchia de náuseas e meus olhos tombavam para trás como se fosse eu quem tivesse tomado uma porrada de veneno na cara.

Como se tivesse cheirado lança perfume e uma bateria de escola de samba passasse pelo meu fogão. Era a panela de pressao prestes a explodir, depois de mais de uma hora no fogo. O barulho de apitos e fumaça me guiou ate o botão para desligá-la.

Me levantei. Prendi os cabelos. Lavei o rosto. Acendi de novo o fogo pra fritar o alho. Minha avó. A filha mais nova de 18 irmãos. O alho dava pulinhos na gordura quente. O azul do gás subia quase gentilmente pelas laterais da panela.

***

O fogo. Mais ou menos como minha tia-avó morreu. Maria helena, com apenas 18 anos. Num dia à tarde, num desses de céus de poeira. Encheu uma bacia com álcool, entrou dentro e ateou fogo a si mesma, no mesmo quintal varrido da minha avó. Maria Helena, no desespero ao ver o corpo pegando fogo, correu até a rua gritando pelo nome da minha avózinha. Que atônita, nada pode fazer: nem sequer derramar uma lágrima. 

Isso se passou alguns anos antes dos gatinhos, ou depois, nunca saberei.

***

Desliguei o fogão. Essa noite não teve comida.  Os gatinhos se esconderam durante três dias até começarem a se habituar à nossa presença.

Nunca mais pensei sobre essa historia. Mas de tempos em tempos, acendia velas para a mãe que um dia eu seria, e para a mulher que eu gostaria de ser.



15 de jul. de 2013

mintirismos

se eu ainda fosse artista
não seria poeta
se fosse poeta, não seria um mal poeta
se fosse bom: seria homem

pourtant, se não fosse mulher seria estrela

pra morar à anos luz dessa cidade
dessa nossa falta de caridade e vontade e verdade

pourtant, nao veria nossos filhinhos
tão velhinhos, doentinhos
brincando de gatinhos

não daria tantos jeitinho
não cantaria devagarinho

no pé do seu ouvido
ouvindo o ronronar do seu peito

cansada de tanto.

eu só queria ser poeta.

8 de jul. de 2013

quebra cabeça

mais uma pecinha do quadrado
ser revolucionario é pensar numa bola e nascer um bicho pelado.





froliqui

Subo sofas, escalo cortinas
como raçao tomo aspirinas
ligo o radio e so ouço chiados
vozes do além?

pensei que subiria de vez na vida
todos os degraus no fim daquela avenida
você me empurrou do penhasco
e eu me salvei segurando na cauda do seu gato

nos dois nus à espera de uma epifania
quem de nos tera a coragem de salvar nossas vidas?


23 de mai. de 2013

aleijadinha

o sol brilha la fora, como uma maquina eletrica
eu me deito. sinto as costas que ardem, de repente, eu so sinto muito sono
tinha medo de escrever e que tudo que escrevesse se tornasse realidade
e eu tinha medo do moço porque ele era sincero demais e eles tinha as unhas limpas
e eu nao confio em homens com unhas bem feitas.

eu nao conseguia mais respirar, mas eu nao tinha mais medo de escrever sobre isso
eu nao sabia mais pensar.
e nem gostava mais do tarantino e achava que pra escrever poesia eu precisava de rimas
mas eu posso escrever como quiser, porque nem sou escritora e nem tenho contrato e nem tenho um editor que me diz que poesia nao vende, com excecao da angelica la e dos seus gatos

entao eu saio de casa com as unhas mal feitas porque nao sei colar as unhas falsas direito, e elas ficam gordas e todo mundo repara.

o cobrador do onibus, a moça do caixa do supermercado. ate o cachorro na coleira, antes de ter o pescoço engolido por uma gaivota do mal que passava.

eu jogo agua fria na dona do cachorro com a coleira na mao, ela estava mais roxa que seu chiuauwa com o pescoço pendurado na coleira.

a gaivota do mal, talvez fosse um gaviao, sobe ate a janela do segundo andar do predio mais proximo.
a moca que mora no segundo andar, de iPhone na mao. nao. nao era isso. ela tinha trocado, ela nao tem mais um iPhone, ela tem um sony. ela mudou tambem o corte de cabelo e o oculos de sol, ja que nao podia mudar o marido.  ela tem um ray ban agora. e ela nao gosta de sapatos apertados, mas ela usa porque isso faz ela classy.
a moça do segundo andar, essa mesma, posta no seu sony a photo do urubu com a cabeça do cachorro pendurado no bico. disse que ele ia pro sul, em direcao ao lixao da cidade, onde meninos de rua catavam lixo da rua e separavam para proxima exposicao de arte do vik muniz.

eu bem vi, depois de alguns anos, no sesc, uma escultura de autor desconhecido: menina de unhas gordas com cachorro decapitado. dizem que nao estava assinado e a toda a cena dava um ar meio barroco.


7 de mai. de 2013

Faltam 10 minutos para o fim da vida

Para mim mesma eu posso dizer: mas escrevo, e escrever nao é dizer, é marcar para os outros é ficar para a posteridade das minhas memorias inconnues.

Entao o texto é meu, dizendo para mim mesma: o que so eu sei. A dor que so eu conheço, e a faca no peito nao fura o papel.

So a minha dor que ninguém mais sentira, ninguém mais sabera. pois o toque da mao sobre a folha é maquina de impressao de faz de conta. O meu mundo inenomado.
indecifravel.

Faltam dez minutos para o fim da vida.

Uma francesa vestida de vermelho. Ela tem um filho, um patinete e quatro  vasos de flores. Ela briga com alguém no telefone. Ela ja gritou com o filho. eu nao sei se ela esta nervosa ou se é so o jeito normal dela.

Acho que a raiva dela é a minha.

ps: eu também achei ela um pouco feia.

faltam sete minutos.

o trem vem e passa por cima da menina.
a dor aparece e senta em cima da ferida.
a ferida é sangue sangrando, o sangue é vermelho amor.
o amor nao existe, minha dor é um buraco com vida.

faltam quatro minutos.

as meninas-fancy-bitchs-americanas usam perfumes baratos e se sentem muito finas por estarem na França.

Mas a França nao é fina.
A França é uma invençao do inconsciente coletivo.

Eles nem bebem vinho!

Eles sao piores do que eu.

faltam dois minutos.

o trem adiantado, ele ja vem lotado.



21 de abr. de 2013

sobre a nao-desistencia

Tem coisas que a gente demora um pouco pra entender

Como ir em restaurante nem sempre é um programa legal
Como visitar Paris com um caderninho na mao procurando um cafe é cafona

Como comprar chapeu panama em lojinha de souvenir é babaca

Como um estado paternalista nem sempre significa um pais de primeiro mundo

Como é chato discutir na internet

Como é chato querer ter sempre razao, sobretudo quando cada um tem sua propria razao


e na vida, as vezes so temos que ser ativos

quer dizer, na minha vida, eu so tenho é que ser ativa


me defendo dizendo que sou contemplativa

mas na verdade acho acontece mesmo é uma lentidao e preguiça de pensar
e um rebuscamento da linguagem
e a revelacao:
so escrevo coisas mela-cuecas


pois é, caiu. eu tenho controle da linguagem, na maioria das vezes, ao menos

precisava mesmo era limpar o texto

trabalhar ativamente cada poeminha


mas tenho essa coisa, de achar que um talento vem assim
pronto

um dia alguem vai reconhecer

mas tem tanta gente dizendo tanta coisa por ai
tanta tanta

que eu to é cansada de tanta democracia a favor da burrice


que to cansada de tambem de ter algo a dizer sobre isso

e, veja, demorei pra entender

apesar de ja ter parado de escrever

   Tudo o que eu faço
alguém em mim que eu desprezo
      sempre acha o máximo.

      Mal rabisco,
não dá mais para mudar nada.
      Já é um clássico.

[do livro Distraídos Venceremos]




12 de mar. de 2013

âncora

Na cidade tem um porto
Cujos benefícios desconheço
Culpa do espírito torto
é pelo chão o meu apreço

Talvez seja à cause do pai
que por reticência e outras manias
ao visitar a praia, com essa sempre saia:
menina gosta do mar. mas respeita sua grandeza.
senão acaba sozinha:
a boca cheia de areia

Vejo as águas indo e vindo
a espuma na clareira
Beijo branco-borbulhante
nas ondas azuis-sereia

passarinhos todos voando
com a boca e alma seca
no porto permaneço olhando
quais são as margens que me incendeiam.




16 de fev. de 2013

poeminha de amor inteiro

e da noite é saint valentin
meu santo de cabeceira
na fé que eu nem conhecia
a vida é profecia da alegria

e ainda santo antonio
que me importa ser santo casamenteiro
prefiro saint valentin
que conhece já meus desejos

quanto amor e confiança
tesão, respeito ai lambança
mas vai vendo meu santinho quase nada de abonança

e quem disse que de riqueza
é que bate o meu peito estreito
mas vale um amor inteiro
que mundos de ouro e dinheiro

meu amor cabe nos seus olhos
no seu peito e tem seu cheiro
sua risada escancarada no meio dos meus cabelos

obrigada saint valentin
pela graça de um ano inteiro
que os dias 14 de todos os anos
sejam ao lado do meu companheiro

1 de jan. de 2013

sex pistol


Se eu pudesse escolher, queria você, todinho assim
Lindinho pra mim.
Na curva da estrada meu braço no seu abraço
eu já cai totalmente no seu papo

Você me amando por todas as estradas menos a de Santos
Fazendo amor e me fazendo feliz
Descobrindo seus encantos
Brincando de ser sua e ter seu pinto só pra mim

Você me chupa e eu suada seguro o quadril
Só pra você me mostrar o quanto é viril
Sua mão na minha bunda
sua língua molhando minha nuca
nunca diga nunca

A gente se olha pelo retrovisor
Embaçado do nosso desembaraço
Você diria: Que barato
Um último beijo, te deixo a pé e roubo seu carro

31 de dez. de 2012

Meilleurs voeux


Resolvi começar a escrever no final do ano
Recomeçar aquilo tudo que deixei de fazer antes dos fatos
O nó da sua gravata gravado no que, 5 minutos depois, já é passado

Ai o ritmo inexorável dos chichês dos meus sonhos
Eu correndo nua nas páginas de um livro publicado
O que seria de nós, adão, se cada um não carregasse seus próprios pomos?

Digo, maçãs na oferenda pra Iemanjá, uva em cacho
Vestido brocado, batom vermelho e salto alto
365 me tornaram tanto dislexa, apaixonada e distraída
Ao menos, aí vem você segurando minha mão e apontando a saída.

30 de out. de 2012

Le Scaphandre et le Papillon



O filme quase todo mundo conhece, o escafandro e a borboleta. O cara em coma e tals.

Comecei a assistir alguns anos atrás e desisti no começo. Muito pesado pra uma sexta-feira à noite.
O cara, ex redator da Elle francesa, sofre um AVC, fica em coma durante 3 semanas e quando acorda, absolutamente lúcido, não consegue mexer nem um músculo do corpo, esboçar nenhuma reação, comer, ir ao banheiro. O caso é chamado de “locked in syndrome”.

Aterrorizante. Pelo menos pra mim.
(Deus me dê forças para não falar em nome dos outros. Ou assumir meus medos como coletivos para minimizar minhas dificuldades.)

Bem, assisti novamente o filme na semana passada e fiquei mais chocada ainda ao saber que foi baseado no livro escrito pelo protagonista, Jean-Dominique Bauby.

Bem, durante esse período pós-coma, ele se comunicava com os outros somente piscando o olho esquerdo: uma piscadinha para sim, duas para não. Então uma das médicas que se ocupava dele apresenta um alfabeto diferente, por ordem de uso das letras.

Assim, ao invés de a, b, c, d, e, f....seria e, s, a, r, i, n, t, u, l... (O e seria a letra mais utilizada para se comunicar na língua francesa, pois ela aparece em mais palavras.)

A partir disso, os dois começam um trabalho de formiguinha que resulta no livro: a médica dita cada uma das letras e quando a letra que ele busca aparece ele pisca o olho.
E assim ele escreveu um livro de mais de 100 páginas.

!

O livro foi sucesso mundial com mais de 20 milhões de cópias vendidas e acabou virando um filme.
Jean-Dominique morreu algum tempo depois da publicação.

***

Os atores e a equipe técnica do filme é francesa, mas o diretor é americano. E o que é interessante (além do trabalho bem curioso que ele faz com a câmera desfocada durante o filme) é que ele é conhecido também como pintor neo-expressionista. E sabe? C’est pas mal.

Olha que moderninho:





Essa é uma das minhas favoritas:



Morte e vida severina, não?

http://www.julianschnabel.com/

Nobuyoshi Araki


Troquei a foto do header. Todo mundo percebeu?
Chocante eu acho. To apaixonada pela imagem.

Acabo de descobrir o Nobuyoshi Araki. Ele é japonês, 72 anos e considera suas fotos seu diário íntimo, toda sua vida registrada em imagens.

Vida e morte são seus temas preferidos. Mantendo a liaison entre os dois, sexo. Acho que são os temas preferidos de todo mundo, certo? De maneiras mais ou menos sutis.

Meninas podem achar grosseiro, agressivo e machista. Eu também deveria achar, mas o bom de não ter padrões morais muito rígidos é achar não ofensivo esse tipo de imagem.




Nem é a que eu mais gosto, coloquei só pra chocar mesmo. Prefiro as flores.


Porém, gosto dessa.


Me lembra a descrição de um curso na Casa do Saber que falava sobre a relação humana com o capitalismo.

"A lógica do discurso capitalista é fálica e masculina (falocentrismo). O agente capitalista se endereça ao consumidor por meio da oferta de objetos que prometem a felicidade e a plenitude. Ao mesmo tempo, o objeto capitalista é, por definição, provisório e traz em si a insatisfação: é, portanto, um discurso dialético. A função da propaganda e do marketing seria fazer com que os produtos fossem aceitos socialmente enquanto objeto fálico, ou seja, enquanto objeto que vem para preencher uma falta original. No capitalismo, a lógica do Ter é a lógica do Ser. Refletindo sobre o capitalismo, Freud cogitou a possibilidade de ele ser não meramente um sistema inventado pelo homem, mas, mais do que isso, um reflexo do próprio modo de operar da psique humana." (Welson Barbato, em relatório do curso "O Gozo Feminino", aula de 8/11/2011)

Sei bem que capitalismo e fotografia japonesa são dois temas que não conversam muito, né? Mas pensando em Freud e sexo até dá pra segurar o gancho.

Ou não.

Pra fechar, citação do próprio Araki, em francês porque peguei no Le Monde:

"La photographie est l'obscénité par excellence, un acte d'amour furtif, une histoire, un roman à la première personne."




1 de out. de 2012

Só na resenha


Era pra ser uma resenha de livro, mas eu estou com preguiça. Ou não sei fazer direito a coisa toda.

Digo, podia começar assim: “Terminei essa semana de ler o engraçadíssimo livro...” ou “Aurélie Boullet, ou melhor Zoé Shepard é a francesa por trás do....” ainda, “Com milhares de cópias vendidas...” (isso eu inventei, nem tenho os dados de venda do livro).

E isso é também uma das coisas que me impedem de ser jornalista, tudo tem que ser comprovado com números, especialistas, baseado em pesquisas - de preferência inéditas.
Não quero ser jornalista nada, quero escrever bobagem em uma coluna, novela, roteiro de filme b ou ser poeta surrealista - caminho que seguem todos aqueles que não sabem escrever com métrica e rima.

Bom, digressões passadas não movem moinhos e eu volto à minha incrível dica de livro de hoje, que é só pra você, querido leitor, que lê francês. Na verdade, não precisa leeeeer, leeeer, pode ser estudante intermediário e tals, porque o livro é fácil. Tem um monte de gíria, mas é fácil. Talvez tenha a versão em inglês, mas tem que procurar, né? Pode ir lá no Google que eu te espero.

Ai que grande resenhadora de livros eu sou, melhor dar o nome do livro antes, pelo menos.

O título é "Absolument de-bor-dée", que significa algo como o nosso, "super f*-di-da de trabalho".*

Aí a coisa é assim: uma francesa, com um supercurrículo (oito anos de estudo em uma das melhores universidades de Paris), começa a trabalhar como funcionária pública e acaba tendo seu potencial subaproveitado (se você não sabe, a França é um dos países com o maior número de funcionários públicos no mundo*).

Bem, acontece que o serviço público na França, se parece com a imagem que temos do serviço público no Brasil: ineficiente, burocrático, reuniões sem foco, funcionários desmotivados e, às vezes, incompetentes.

E a autora denuncia tudo isso de uma maneira irônica, engraçada e, em última instância, constrangedora - apesar de nunca ter sido funcionária pública, pude observar várias das situações que ela descreve nas empresas onde já trabalhei.

Sem falso moralismo, já vi (e já fui) muitas vezes, a funcionária desmotivada que faz perguntas idiotas ou finge trabalhar. Ou aquela excessivamente preparada para o cargo. Acontece.

No começo do livro, ela afirma que para conseguir um bom emprego, antes de tudo, é preciso saber blefar. Os entrevistadores não estão interessados em saber se você é exatamente adequado para o cargo, e é ai que começa o problema.
Eles esperam que você diga o que eles querem ouvir: ideias em voga, expressões da moda, o mínimo conhecimento do negócio (que pode ser adquirido via Wikipedia), teste escrito modelo-Fuvest (introdução, dois argumentos e conclusão em 25 linhas). Quem nunca?

Por exemplo.

Não se alguma vez você, sem nada pra fazer, resolveu procurar emprego em shopping. Sabe, tô ai de bobeira, vou fazer umas entrevistas pra ser vendedor. Ops, quer dizer, entrevista não, processo seletivo.

Pois pra ser vendedor em shopping hoje em dia, primeiro você precisa escrever uma redação com o tema: “Por que eu sempre quiser vendedor de shopping”, brinks, não é isso, mas algo como, “Por que eu sou adequado ao cargo”. Texto que você começar assim (seja qual for a vaga): Competente, motivado, responsável e com bom relacionamento interpessoal..

Você também precisa participar de dinâmicas de grupo e responder questões altamente relevantes, como: "Se pudesse escolher, que bicho você seria?".
Em uma dinâmica para trabalhar em uma livraria que participei, metade das pessoas respondeu: "leão, pois ele tem garra" (mais jura?), "cachorro, pois ele é fiel" (inovador, uhm?) e, por fim, uma gênia que respondeu: “uma formiga, porque eu adoro trabalhar em equipe”. HAHAHAHAHAHAHA morri.

Reparei bem nos entrevistadores nesse momento e vi todos marcando pontinhos positivos para ela na folha de avaliação.

Em outra oportunidade, para uma vaga de vendedora de padaria vi um anúncio que pedia envio de CV e carta de motivação. (!)

Caros recrutadores, meu objetivo sempre foi trabalhar em padaria. Não pra fazer o pão, pois não sei cozinhar hehe :), mas pra vender mesmo. Desde criança eu dizia em casa: olha quando eu crescer, quero vender pão, leite de saquinho, pãozinho de queijo, presunto, croissant, queijo prato. É meu sonho. Imaginar aquela fila de gente de manhã, cada um com 50 centavos no bolso, e eu realizando o sonho das pessoas de ter o próprio pão quentinho todas as manhãs! Não há dinheiro que pague a sensação!

E isso também é muito importante, nunca diga que você precisa do trabalho pela grana. Pega muito mal: então, eu quero vender pão mesmo porque tô desempregado, tenho conta pra pagar/ no final do ano queria ir pra praia com a família/ tô no primeiro ano de faculdade e juntando dinheiro pro Oba no carnaval / minha mulher não me aguenta em casa.

***

Bom, é claro que esse formato de recrutamento deve ter sido desenvolvido por profissionais altamente qualificados, psicólogos, pedagogos, grandes executivos, mas isso não significa que ele sirva para contratar todo tipo de profissional, para qualquer tipo de cargo.

O saldo são equipes desmotivadas, funcionários inadequados para cargos de liderança ou operacionais, desperdício de dinheiro, cansaço, insegurança generalizada.

Milhares de funcionários são contratados todos os dias, com base em critérios mal formulados e, às vezes, não devidamente discutidos em cada uma das empresas (fórmulas prontas raramente funcionam ao lidar com pessoas). Parece-me que o formato de recrutamento hoje em dia (de modo geral) esta equivocado, e isso não é mérito só do Brasil, como pude notar ao ler o livro da francesa Aurelie Boullet.

Portanto, investir em gestão de pessoas pode ser o pulo do gato para firmar cada vez mais o nosso país entre as nações mais influentes economicamente do mundo futuro, dividindo com países de primeiro mundo mais os acertos que as falhas.

Voilà minha conclusão, Sr. avaliador.

Na saideira, fica a dica de um livro brazuca sobre gestão de empresas e, consequentemente, de pessoas. Chama-se "Você está louco", da Ed. Rocco. O autor se chama Ricardo Semler que, para quem lembra, foi o mesmo autor do sucesso "Virando a própria mesa", no final da década de 80. Vale a leitura.

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG75126-5856-432,00.html

* tradução mais do que livre.
* dados, claro, não comprovados.

Olha uma entrevista com a autora do livro "Absolument de-bor-dée", se interessar:


22 de ago. de 2012

sortie


subi a brigadeiro.

o mesmo arroxo no pescoço de anteontem, quando você te vi subindo a escadaria da cardeal de braço dado com ela.

peguei o onibus roxinho que vai até a berrini, desci na frente da etna, onde a gente tinha comprado o jogo de jantar e o aparelho de fondue. seus pais comprando cortinas. nosso amor parecia tão sólido.

que nem o bolo que tentei fazer e enfarinhou antes de você chegar do trabalho.
eu passei aspirador na sala, lustrei seu sapato marrom.
comprei flores amarelas e verdes no pão de açucar.
bobagem minha. queria mesmo era um gatinho. tava cedo, né amor?
gatinho é passo de noivado e anel de brilho no dedo. não, benzinho, quero não, quero não anel. sou moderna, você sabe.

mas a saia dela parecia de tule e ela tinha flor no cabelo e parecia bem uma gabriela dessas da calixto. sujinhas e esmalte descascado.
minha manicure já sabe que você gosta de florzinha.

provei bem de novo foi aquela calcinha que você me deu e pensei que podia te receber com sonho da padaria e tortinha de morango.
ai, fiquei duas horas na frente do balcão de congelados pensando na carne que você gostava.
e tinha pato, avetruz, galinha d'angola, ganso, pintinho congelado.
eu não escolhi nada. contei moedinhas em cima do balcão da balança. olhando a senhorinha de 40 quilos pesando brocolis. brocolis-tomate.
pepino-pimentao. ai como vc gosta de pimentão.

peguei o celular do bolso disposta a ligar pra sua mãe.
como é mesmo aquela receita? mas lembrei, oi, nunca soube mais da sua mãe.
Na minha bolsa tinha mesmo só a bateria vencida da maquina fotografica. a moça me disse: dá cancer.

doença é coleira no pescoço, sua dona.

Angélica. Talvez ela seja Angélica ou Maria Antonia. Talvez ela seja puta. Você gosta de puta e puxava meu cabelo enquanto eu lavava louça, era assim que você gostava de me pegar.
Mas você era amorzinho e deixava eu lavar seu cabelo na pia, fazendo carinho na nuca enquanto você fumava o cigarro que eu acendia.

O cabelo dela era loiro. loiro.
devia ter olho castanho claro. peito murcho. barriguinha e perna raspada com gilette.

Peguei a Rio Branco.
Subi uma arvore. Olhei a cidade. cof cof.
mundo cinza e sépia. marrom de terra como a sujeira debaixo das minhas unhas.

Ela não era legal. merecia soco na cara.
merecia ser puta.
não passear de braço dado e sonhar com gatinho.

fui me enervando até explodir de dor.

na barra funda, vi a saia de tule dela comprando passagem pro interior.
segui bem quietinha escada rolante, corredor, pula mala, pula criança, pula coxinha.
até janela do onibus.
subi no pneu.

olhei bem pra cara cheia de bochecha dela sentada na poltrona.
o olhar vidrado na poltrona da frente.
bati, bati até ela olhar.
e foi quando, vi eu mesma sentada de vestido de flor.
só eu, de passagem, sem destino, indo embora sem mim.


4 de jun. de 2012

civilidade

Então, de repente. E sim, eu posso usar de repente, de novo, se eu quiser.
Eu tive certeza de que os efeitos do eclipse lunar em sagitário, devastadores evidemment, chegariam por e-mail.

Claro, para todos os efeitos, crises astrológicas seriam deflagradas no meu correio eletrônico. Parfois, elas poderiam ser enviadas via sms.

Ou um número desconhecido me ligaria domingo à noite e seria meu fim. Afinal o peso de uma ligação desconhecida segunda de manhã e domingo à noite difere selon a imaginação do sujeito. E conhecendo o sujeito que antecede o verbo, criador e criatura, já era de se esperar a tormenta.

Bem, esperando minha carta bomba via gmail, cogitei que as notícias pudessem ser positivas. Uma proposta de emprego de uma empresa para a qual eu nunca havia enviado meu cv. Uma declaração de amor de um ex-amor que nunca me amou.

Podia ser também a morte de um conhecido ou o aviso da minha própria morte formalizada: cara mademoiselle alinê, É com muito pesar que lhes informamos que sua estadia entre nós chegou ao fim. Obrigada pela atenção e esforços empreendidos a fim de....

Eu não tinha essa resposta. Afim de que, afinal?

Aí pensei em pegar uma bike, dar uma volta na orla, mas ei orlinha escrota, cheia de turistas escrotos e gente meio doidinha. Dei uma mordida no meu chocolate, botei meus ears plugs, ei lugar barulhento. Ei essa minha mania de viver na periferia.

Olhei bem a parede salmão mesclado, olhei o quadro de um senhor de barba que não significa nada para mim, o armário velho, o computador sujo, o chão sujo, o armário sujo, as roupas no balde para lavar, a mala sem rodinhas, os livros não lidos, minha cara no espelho.

Mentira. O espelho estava longe e eu não tive motivação para me levantar.

Resolvi lavar as roupas que estavam no balde. Tive semi-nojo da pia, mas fiquei com preguiça de lavar, ahhh mas foda-se.
Lavei, pendurei no varal mais sujo que o chão.

Sabe, podia fazer o caminho de santiago. Podia sei la, trabalhar na Unipaz. E ter uma casa. E se tivesse, que quadros penduraria na parede?

Tais reflexões me tomaram em torno de 10 minutos, que pareceram eternos. Ainda se eu não tivesse parado de fumar, poderia ter pensado nisso em três ou quatro tragadas, mas né? Eu e essa mania de mudar de ideia.

Isso me lembra aquela professora, aquela que disse que eu não poderia terminar um texto daquela maneira, sem conclusão, que não fazia sentido. E do francês ofendido porque o convidamos para beber 7 da noite e não tinha comida. E ele disse que isso era uma gafe porque 7hrs é hora de jantar na França.

Então porque você não enfia o dedo no cu e cheira? Pensei sorrindo e lhe passando gentilmente o pratinho de nuts que vinha junto com nosso vinho rose escroto. Tomei mais uma taça com uma pedra de gelo, que une copine tinha sugerido, pois o vinho estava muito forte. Uhmmm, claro, um vinho muito forte para mim, sim coloque uma pedrinha também, Sandy.

As vezes eu sou tão patética. Podia fazer teatro. Se isso não implicasse em ficar nua num palco ou beijar mulheres ou olhar a propria buceta em espelhos em círculos. Ta bom, sei lá se atores fazem isso. Mas não a fim de fazer esse bagulho todo ai. Desde pequena, eu era diretora das peças de teatro, nunca atriz. Eu quero é mandar. E tai o primeiro pre-requisito para o meu novo emprego. Ser bossy.

O segundo é escrever e ter leitores.

O terceiro é a oitava do amor, a carta do rei de copas, os nossos corpos desengonçados em tranches na sua cama. Você dizendo em ré menor, eu te amo enquanto on fait l'amour,
dis-moi, car je ne sais plus.

Je t'aime, sua pequena vadia suja.

30 de mai. de 2012

Jeff Koons

E pra não dizer que não falei de flores, algumas do americano Jeef Koons.
Flores de plástico, porquinhos, ursinhos. Todos assustadoramente infantis. Quase um clichê de filme de terror.

Não sei se teria alguma dessas peças na sala da minha casa (o dia em que tiver uma casa). Mas desde quando o valor de uma obra de arte pode ser medido em dinheiros? Ainda, pode-se  (deve-se?) comprar arte para exibir aos amigos, como uma nova TV? Só é arte se estiver em uma galeria ou museu?

(exibem-se novas tvs aos amigos?)
(ainda se discute arte dentro e fora de museus?)

Bom, ao kitsch de Jeef Koons:

Amo/sou a flor de plástica murcha. Óbvia e genial.. Colorida e, à princípio infantil, quando murcha traz uma sensação de desamparo, de verdade dissimulada.

Na mesma florzinha inofensiva e vibrante de plástico, a vida e a morte.
 É uma pintura? Um jogo de espelhos? Um buque? Elas se dissolvem?


Beijo grego no porquinho?


Filme de terror. sem mais.
saltimbancos. nessa versão o jumento não pode participar pois tinha contrato exclusivo com uma marca de cerveja e foi substituído pelo porco e pelo bode.
a gata, que tinha acabado de sair na Playboy, foi substituída por outro cachorro, que era amigo do diretor. a  galinha tá com essa cara de menina porque tinha acabado de fazer botox.

eu conversando com o guarda.

Um sorvete ou um cocô? É de comer, de ver, alguém se excita?
Ou sou eu que nunca sai da fase oral?


gris

Aí hoje fiquei com vontade de postar alguns vídeos.
Então tem George Brassens e Jeanne Moreau, que eu posso ouvir em looping pro resto da vida, junto com Cartola e Los Hermanos. 

Gosto de música triste e de menina, como diz minha irmã. 









Aí isso me lembra esse post sobre esse livro que eu tenho até vontade de estar triste só pra ler. É um livro de receitas para mulheres tristes, mas é tão lindo, tão lindo.
Digo aí, morar em cidade que faz sempre sol nos faz perder muito a sensibilidade. Ser feliz o tempo todo emburrece.


http://noz-moscada.com/livro-de-receitas-para-mulheres-tristes/

6 de mai. de 2012

Lucian Freud

Ele é neto do Freud, aquele que todo mundo conhece, e morreu ano passado.
Já li em algum lugar que o que ele faz não é arte, é só de mal gosto.

hehehe

Eu acho incômodo, vulgar, chocante, triste. Assim como a vida, se eu ficar olhando pra ela muito de perto. Mas quem disse existe beleza só no que é agradável ou bonito aos olhos? Ou ainda, que só nos interessamos pelo que é, em última instância, bom e justo e belo e agradável?

"Me lembra Dostoiévski em "Notas do subsolo"

Que faremos então desses milhões de fatos que atestam os homens, tendo embora perfeita consciência do seu interesse, o relegam a segundo plano e enveredam por um caminho totalmente diferente, cheio de riscos de acasos? Não são, entretanto, forçados a isso; mas parece que querem precisamente evitar a estrada que se lhes indicava, para traçar livremente, caprichosamente, uma outra, cheia de dificuldades, absurda, mal reconhecível, obscura. É que essa liberdade possui a seus olhos mais atrativos que seus próprios interesses… O interesse! Que é o interesse? Vós vos empenhais em me definir com toda a exatidão em que consiste o interesse do homem? Que direis vós se um belo dia se vem a descobrir que o interesse humano, em certos casos, pode ou mesmo deve consistir em desejar não uma vantagem, mas um mal? Se é assim, se esse caso se pode apresentar, então tudo desmorona. Que pensais disso? Tal caso pode se apresentar? "







PS: Ok, a imagem da rainha a Inglaterra só creeps me out.


Essa é uma foto dele pintando em seu atelier, tirada pelo seu assistente David Dawson.
Eu amo/sou. Acho absolutamente incrível e mesmo sexy. #quemnunca


Fonte das imagens aqui,  aqui e aqui.