6 de mar. de 2014

A bola do Chico


O Chico. Que quando tinha oito anos. Brincava de bola.

Goleiro na trave, menino do gol, pega toooodas chicoréu.

Bem no campinho de futebol, no aniversário do primo, em festinha de quem aluga quiosque e contrata churrasqueiro: guaraná quente, coca-cola, brigadeiro, cachorro-quente, (cachorro errante do vizinho), bolo-chocolate-granulado.

A tia suava o peito no sutiã, a blusa com estampa de flores, viscalycra, calça legging e saltinho. Comendo coxinha de guardanapo: eu também não gosto dessa Claudia Raia não. namorando aquele menino, como é ? não tem coca-zero, não?

O tio, alto de tanta latinha, só pensa na gerente nova na sua seção. ele fala fala, desgostoso da vida: uma biscate Valdir, biscate de puteiro de quinta, mas tem um 4x4, calça branca e calcinha vermelha e tudo, Valdir. Fala "metting" e manda email copiando o Seu Lourival, como se ele lêsse essas merdas, aquele lá não sabe nem quiqui é email não, Valdir, e eu que trabalho normal, faço minhas coisas...uma biscate.

Biscate, biscate, biscate! Chico segue gritando com a bola. Correndo pro campinho. Biscate, biscate ! E as meninas dando risada. Chico e a bola. Guaraná na mão, o canudinho molhado.

Come Chico, come a terra, a amiga da prima desafia : duvido ó. Chico come, come até grama. Faz graça pras meninas, mostra língua com formiga. E corre comendo brigadeiro do bolso.

O vô e a vó chegam com presente enrolado em papel de jornal, a mãe repara, mas finge que não viu. O Chico também quer presente.

O Chico não quer goiaba, o Chico não gosta da Bárbara, o Chico não é filho de Oxum.

O Chico é Chico por causa do bisavô: Francisco. A vó acha que foi milagre ter nome do papa e reza pra alma do neto abençoado

Chico dança funk, tem calça curta e colar de terra, a mãe limpa o suor, arruma o cabelo pro lado. No parabéns sopra as velas, canta com-quem-será e leva tapa na orelha do primo. Empurra o carrinho da irmã, quer servir salgadinhos, puxa cabelo da prima.

Com a bola, a sua bola. Ele dá chute, segura no braço. Só tem jogo se Chico tá no gol.

Chico é perna de pau, mas a bola é do Chico.

Ele leva gol até do perneta do Daniel. Ninguém quer ele no time, mas sem ele não tem jogo, sem ele não tem time, sem ele não tem bola. O Chico e a sua bola. Toma gol até da Paulinha, tem que comer feijão, Chico.

Mas ele tá de saco cheio. Ele é o rei da festa, oras bolas.

Ele sobe na trave, o símbolo dos seus fracassos, escalando os ganchinhos, grita lá de cima: eu sou o dono do mundo!

Mas o Chico perde equilíbrio, a bermuda enganchada na lateral da trave, o Chico despirocado de cabeça pra baixo, bala caindo do bolso, o sangue escorrendo na barriga, o primo chama a mãe, a mãe chama chama ambulância, ambulância vem os médicos. As tia chorando, as meninas suando.

Pois desse dia, ninguém nunca mais esqueceu foi do Chico, preso pelas bolas do seu saco, na trave do gol do campinho.

2 de mar. de 2014

O samba do caboclo doido


- Quê?
- O carnaval é francês.
- Tá doido, rapaiz?
- Tô doido não, fi. Diz qui começô na França e depois veio pra cá, diz que com a princesa Isabel, aquela lá da escravidão.
- Mai num é possível, bando di filho da puta, num basta querê pegá a fama pelo avião, qui a  gente sabe qui foi o Santos Dumont e agora o Carnaval?
-Mais é qui.
-Mais é nada, só faltava essa. Esses país aí di primeiro mundo tá sempre quereno tira vantagem pra cima da gente. Vê ai, ano de Copa, depois Olimpíada, a gente tá com a bola toda. Os cara faz isso pra desmoralizá a gente, porque a economia deles tá lá cheia de problema, cara, é a crise que chegô lá i agora que não tem mais como dominá a gente com dinheiro, qué dominá na tradição, na cultura. Curioso que esse assunto só saiu a  agora, né? Nesse momento aí, até esses dia aí, o Carnaval era du Brasil, a Amazônia era du Brasil, até o Neymar era du Brasil. Os gringo só vinha pra cá pra passeá i bebe umas caipirinha achano qui a gente era um povo legal e tal. Agora qui eles tão veno o poder qui nóis tem, fi. O Neymar já tá lá com eles, a Amazônia eles fica reclamano o tempo todo i agora u Carnaval, é u fim da picada. Cê viu aí as manifestação du ano passado, cê viu aí, u povo não tá parado não, e eles tão começano a invejá isso na gente. Gringo é gringo, num pode fazê confiança não qui senão eles munta em nóis. Já não bastava esses francês aí ficar com esses vinho aí, quereno mudá a gente, virem com essas baguete aí, é bonjour pra cá, abajur pra lá. Só faltava eles dizer qui foi eles que inventaram a mulata, nem tem isso lá na França.
-Não, negro tem, acho que tem sim…
-Negro não, tô falano a mulata. A mulata da escola de samba, a mulata que só o Brasil sabe fazê. Nossas meninas aí linda, qui nem a garota de Ipanema, Carmem Miranda.
-Mais nem a Carmem Miranda, nem a garota de Ipanema era mulata eu acho...
-Isso num interessa, num tinha aquele poeta lá que era branco, mas falava que era o branco mais preto do Brasil? O que importa é o espirito e isso  só o Brasil tem. Porque cê acha que o povo vem pro Brasil? É esse jeitinho nosso, nossas praia, nossos Carnaval, as mulher, caipirinha, é tudo nosso aí. O Brasil é o melhor país do mundo, que eu amo, num é que nem esses gringo aí  que só explora a gente, Deus me livre dum dia sair daqui, eu qui não sou besta diir pra um desses país aí de primeiro mundo, eles tão fudido, só sabem é explorar estrangeiro. A gente num faz isso, a gente é caloroso, a gente é irmão.
-Pois é..., mas i os boliviano que tão vino pra cá trabalhá na C&A, tem um monte em São Paulo já. Sabia qui na América Latina os caras chama a gente de imperialista?
-Os paraguaios eu sei, porque se fuderam aí  quando tentaram  invadi a gente, na Guerra do Paraguai, nunca engoliram o fumo. Mais além deles só pode ser os argentino qui fala mal da gente, aqueles metido a Europa lá, nunca vão aceitá qui a gente é melhor. E pior, tão numa pior….Nesse mundão aí fi, pode ir onde cê quisé, o melhor é u Brasil. Eu chorei, chorei mesmo quando tocou o Hino Nacional na final da Copa das Confederações i todo mundo cantano o Hino, dá maior orgulho di ser brasileiro.
-Mais bão, cê chorou também no fim de Coração Selvagem...
-Mais é qui é bonitu demais. E pro Brasil o futuro chegô pra nóis, olha aí, só não trabalha quem num qué! Todo mundo comprano carro, indo viajar fora du país, mesmo quem mora na favela tem orgulho de mora lá, eu vi uma reportagem na tv. Os frutos podres tão tudo caindo: Zé Dirceu, Roberto Jefferson. O futuro chegô e nóis tá na bola da vez.
-E si a gente não ganhá a Copa?
-Mais nóis vamo ganhá.
-Mais i se.
-Num tem mais i se não, nóis ganha neim si tivé que dá um jeitinho. A França num feiz isso com a gente lá na copa de 98, lembra? O jogo ruim do Ronaldinho? Pois damo um jeito de fazê um jogo ruim deles também, o Zidane ainda tá lá? Paga uns mané prá se infiltrá e colocá uns remédio de caganeira lá no copo dele e boa.
-Acho que o Zidane aposentô.
-Melhor, babaca du caralho.
- O melhor deles lá é u Ibrahimovic, mas ele nem é francês.
- Aí ó, tá vendo, a copa é nossa.
-E bão, largá de cunversa fiada, cê terminou tua cerveja aí? Vamo aí então que o OBA vai começá. Vamo chegá um pouco mais cedo prá estacioná num lugar bom e prepará o som. Cê pegô o isopor com as breja?
-Já é, nóis também é fi de Deus e mereçemo ai curtir esse carna. Tá quanto o ingresso memo?
-800 pilas.
-Só pra playba mesmo. Vô começá a juntá dinheiro pro ano que vem depois que terminá de pagá as prestação da moto.
-Vamo lá que as menina tão chegano.


23 de jan. de 2014

treininho

A menina me contava coisas da sua vida inteira
Com seu amigo mulato ela estava toda faceira

Ele nao tinha olhos, só dedos de amor inteiro

Ela gozava ao andar, ao pensar no seu traseiro.

hahahahahahaha

ai a poesia, é por isso que não sei faço isso.
digo, primeiro, não sei mais fazer rimas.
nem digo (2), não que soubesse, mas né?

Hoje eu estava na escola, acho que nunca mais vou sair de lá, vejam vocês.

eu sou a maria do bairro dublada em françês.

Me disseram: você dá bronca dando risada.

Mas porra amigo, é que isso tudo é tão babaca.
veja só você.
O que você aprendeu na escola?
Como você não pode me responder, eu afirmo: NADA.
gente, nada de nada. a escola é um saco.

a escola hoje não tá integrada à nada, a não ser à um sistema hieráquico e burocrático de pequenos poderes.


sabe, isso tudo aí de educação em sala de aula com professor em cima de palquinho, alunos soldados rasos sei não.


Quem vai fazer a escola bonita, com gente inteligente e esperta? Com alunos com coragem de propor coisas.

Quando a escola vai se abrir para ideias? Quando ela vai deixar de ser escola, que em grego deve significar tipo sei la o que.
Para virar uma coisa que faça sentido pra essa gente toda? Aluno, professor, pai, comunidade, eu e você?

Bom, talvez não pra você

Eu, que nem sei que você é.

PS: Hoje o menino me conta um segredo.

Gente, ele é doidinho de pedra. mas vamos falar baixo, ele não sabe ainda.
aí ele me contou um segredo e eu respondo (voz de marimar): gato, la communication est toujours raté.

reflitam.(nota mental a mim mesma)


o menino está parado até agora, mão no queixo, olhar no horizonte, refletindo sobre minha máxima filosófica.



eu rou as unhas.(vocês entendem, né?)

pacientemente espero.
o proximo vôo, o próximo show.

20 de jan. de 2014

Ernest Pignon Ernest


Sabe o Banksy? Pois é, bonitao. Podia ter feito escolinha com ele. O EPE (para os intimos) é de Nice. Mas ja teve projetos lançados na França, Italia, Argélia, Africa do Sul.

Gente, é demais. Ele é um senhorzinho hoje e começou a fazer arte urbana nos anos 70. A ideia é de arte efêmera: colar posters feitos de papel jornal (deve ter outro nome isso) durante a noite. Nas imagens, trabalhos seus ou reproducoes de outros artistas, como o Caravaggio.

A obra de arte colada nas paredes dura o tanto quanto o tempo ou os moradores permitirem. A obra de arte sai do museu e vai para a rua, mais do que isso, ela pertence a rua.



Parece um quadro, né? Mais é uma parede com uma imagem de um quadro colado.



Tem um trabalho também de colagens em cabines telefônicas. Acho que foi em Lyon e Paris isso.

http://www.pignon-ernest.com/ 

Marc Chagall


Na primeira vez que fui ao seu museu, fiquei decepcionada. Havia uma grande sala com imagens biblicas, famosas ilustracoes que ele fez a partir da Biblia.

Nao me tocou. Digo, muitos profetas. infernos, grandes quadros representandos grandes historias. Eu me perdia no rolo de informaçoes e me desinteressei.

Mas fui de novo esses dias e confesso, tive que dar a cara a tapa a mim mesma. Foi muito legal. Haviam quadros dele de sua infancia, seu atelier, declaracoes a sua segunda mulher. Gostei muito das ideias circenses, dos motivos infantis, o traco meio surrealista.

Fora os vitrais no auditorio. Tudo bem, eu gosto de vitrais, ja tinha ficado fascinada com Alphonse Mucha em Praga. Mas esses do Chagall dao um aspecto ludico, quase religioso. Encontrei o divino em sua obra mais nos vitrais do que na serie de imagens biblicas.

Realmente lindo. Infelizmente nao tenho fotos dos vitrais e, sinceramente, fotos nao fazem jus a beleza do negocio. Mas bom, pra quem tiver curioso, olha aqui.


L'atelier (1910)

La danse (1950)

Le songe de Jacob (1960-66)

L'Autoportrait en vert (1914)
Imagens: http://www.musees-nationaux-alpesmaritimes.fr/chagall/

O inferno é aqui


A gatinha apareceu primeiro, foi num sonho.
Depois que todo mundo ja tinha morrido.

E eu nao sabia, naquela época, como tinha ido parar ali. Me lembrava de ter subido as escadas, bebido a agua no chao como um cachorro, comido o pedaço de pao como um bicho, sem odio sem nada.

Nua, nua em pêlos. Com a buceta descoberta, os peitos roçando o asfalto. Quase mais viva em morte que na vida.

Me lembrava de voce. Docês, daquele sitio que minha avo tinha naquela estradinha de terra. Da casa mal assombrada, do pe de roma e da jabuticabeira com uma galinha sentada em cima do galho me olhando de um olho so, como se fosse um gato.

Tinha um pe de tamarindo perto da cerca no final do quintal, onde a gente quase nunca ia, porque era longe e depois tinham.e vacas, vacas sao mais perigosas que galinhas.

E eu tinha muito medo : de cobra, de galinha, de galo, tinha ganso, de quero-quero, do tio bia. Quer dizer.

Eu sonhei com esse lugar naquela noite. Mas nao me senti feliz. Crianças nao sao  felizes. E eu me dava conta disso justamente quando descobri que estava gravida.

Eu queria ter uma gravidez calma, com parto natural em casa, fazendo yoga de cabeça pra baixo.

Mas quem eu queria enganar : eu nao era essa pessoa. Eu nao sabia o que se passava, mas me agarrava ao mais novo fruto do meu ventre como tabua rasa de salvaçao. Meu filho semente era minha mae e meu pai, ele tinha mais autoridade sobre mim que eu sobre ele.

Mas eu nao disse nada. E eu fingia chorar, quando à noite chovia. Eu nao botava medo em ninguem. Mas também nao chorava.

Foi nessa época la que comecei a sentir raiva. E quando vieram falar comigo, joguei um estojo na cabeça deles igual quando a jeiuza tinha feito jogando a jarra na cabeça da minha irma.

Nao acertou, como nao tinha acertado com a Jeiuza. Mas la, eu nao podia mais ligar para a minha mae.

Sai correndo. De novo, aquelas escadas que eu veria mais pra frente.
O portao embaixo estava trancado e eu nao conseguia pular o muro.

O filho, que eu nunca teria, abanava com suas maozinhas do outro lado rua
Eu na frente do portao que nunca atravessaria em vida.

2 de jan. de 2014

quem tem um olho é rei

graças a Deus, a comunicaçao é um caso perdido.
nao suportaria poder dizer claramente tudo que pareço desejar.

ainda se alguem se importasse: tanta gente dizendo tanta  coisa sobre tantos assuntos que nao me interessam.
tanta gente tem tanta razao de ser.

prefiro nao dizer.

e ainda fingir que isso foi uma escolha, calo como forma de protesto. parece justo e poético.
como se o meu silencio me autorizasse e ainda me legitimasse.
veja, nao preciso de vocês.

tantan gente escrevendo bem e tanto e mal e pouco e sao tantos sorrisos e regras no mundo e nem adianta fugir.
é da natureza da vida ser uma prisao cheia de certezas.

ai que preguiça desse sol que amanha vai bater na minha janela.
ai que preguiça dessas vozes monotonas por toda parte.

e se você tiver algo pra dizer. bocejo.

16 de jul. de 2013

labirinto


O dia em que os dois gatinhos chegaram foi o pior dia da minha vida. Aquelas bolinhas de pêlo macias e medrosas.

A petite era magrinha, cheirosa e assustada como um esquilo no telhado. Tinha olhos agudos, miado sofrido, um corpinho tenso de surras. Podíamos dizer que ela havia apanhado. Mas não dissemos. Estávamos só preocupados em conquistá-la e em fazê-la acreditar que este era seu novo lar.

O petit tinha a barriguinha gorda, olhinhos gulosos, cheirava as pessoas e coisas e os sapatos. Tinha bigodes curtos e um focinho assez pequeno. Naquela época eu nao sabia muito bem nomear as coisas e, um pouco por negligência, seu nome ficou Chico. 

Como o avô. Meu avô.

Nao se tratava muito de uma homenagem. De fato, nem cheguei a conhecer esse avô. Tudo que sei é que ele era velho, bravo, um tanto rabugente e um tanto quanto mais ainda mulato. Diziam era ele neto de india. Tao brasileiro quanto o Macunaima.

Eu gostava so do som da palavra : chi-co. Como o picolé que minha mãe gosta : chicabon. (Confesso que até cogitei chamar o gatinho Chicabon, mas me parecia um pouco longo demais. Inevitavelmente, viraria apelido : Chica. E esse me soava moderno demais.)

E eu sou uma pessoa bem convencional.

Nasci e cresci na mesma cidade. Me casei e hoje cuido dos meus dois gatinhos. Faço a mamãe. Dona-de-casa, econômica e limpa. Um marido ótimo. Trabalha para o governo, joga bola às segundas-feiras. Não tem religião, mas também nao tem vícios. Veste-se decentemente e sou eu quem compra suas cuecas.

Não frequentamos bares, restaurantes ou shows de música. Somos pessoas caseiras. De bem com os outros. De bem com. oras.

***
Os gatinhos estavam lá. Fugindo de mim. Escondidos debaixo do sofá.

Meu marido ao meu lado, tinha os olhos mais assustados que eles.
E eu, eu tremia de emoção ao ver minha família margarina finalmente completa. Eu, meu marido, nossos gatos. O feijão cozinhando devagar no fogo.

Voltei para cozinha buscando um copo d’agua. Um refresco de limão de saquinho. Um copo com gelo. Meu corpo tremia. Eu tinha um orgasmo. Ou um ataque cardiaco.

Passando o gelo pela testa, molhei a nuca na pia e como um cena vomitada de um filme eu estava de novo na antiga casa da minha avó.

***

Meu avô viajava. Era caminhoneiro. Minha avó também não estava lá. Seu corpo estava, mas ela não. Ela nunca estava no lugar onde deveria estar. Desde aquela época ela estava sempre naquela lugar onde ninguém poderia ajudá-la, onde ninguém poderia salvá-la.  Limpava a casa como um robo, comia como as crianças, desdenhando das gostosuras do prato, tomava banho como os gatinhos. Quase sem água. Ela nunca suava.

Naquela tarde de poeira, ela corria contra ela mesma. Competitiva, devia sempre se superar a si mesma em quesitos como agilidade para limpar panelas, eficiência para enxugar pratos e muque para lustrar panelas.

Nesse instante, ela varria do quintal as folhas da mangueira. Os pequenos insetos e frutas caídas. Ao terminar o trabalho, entrou no quartinho dos fundos para guardar a vassoura no armário de vassouras (sempre de ponta cabeça, ao lado dos baldes e produtos de limpeza, e de maneira oposta à tábua de passar, e do ferro, e da pilha de roupas que.

A pilha de roupas. Que, de repente, inundada de sangue, pus e água. Os lençois brancos ,quase azuis. Seus lençois imaculados estavam embebidos em uma gosma nojenta que dava vida a uma pequena ninhada de filhotinhos de gatos. 5 ou 6 bolinhas sem pêlo de olhinhos fechados. Esperando o retorno da gata, que acabava de dar criar exatamente no quartinho dos fundos da minha avó. Precisamente em cima de sua pilha de roupas brancas à passar. Suas roupas brancas.

Com asco e um ódio crescente. Chorando palavras de desprezo, engolindo lágrimas à seco. Um por um, ela jogou os gatinhos recém-nascidos no bueiro.

A gata, como uma barata depois de receber uma esguichada de veneno, ficou vagando pelo quintal. Miando. Pela rua, pelos vizinhos. Semanas. Os gatinhos choraram durante três dias antes de morrerem. A gata nunca mais apareceu por lá.

No dia seguinte minha avó lavou novamente todos os lencois. Minha mãe diz que eles nunca estiveram tão limpos. Meu avô ainda viajava.

***

Agachada no chão da cozinha, eu me enchia de náuseas e meus olhos tombavam para trás como se fosse eu quem tivesse tomado uma porrada de veneno na cara.

Como se tivesse cheirado lança perfume e uma bateria de escola de samba passasse pelo meu fogão. Era a panela de pressao prestes a explodir, depois de mais de uma hora no fogo. O barulho de apitos e fumaça me guiou ate o botão para desligá-la.

Me levantei. Prendi os cabelos. Lavei o rosto. Acendi de novo o fogo pra fritar o alho. Minha avó. A filha mais nova de 18 irmãos. O alho dava pulinhos na gordura quente. O azul do gás subia quase gentilmente pelas laterais da panela.

***

O fogo. Mais ou menos como minha tia-avó morreu. Maria helena, com apenas 18 anos. Num dia à tarde, num desses de céus de poeira. Encheu uma bacia com álcool, entrou dentro e ateou fogo a si mesma, no mesmo quintal varrido da minha avó. Maria Helena, no desespero ao ver o corpo pegando fogo, correu até a rua gritando pelo nome da minha avózinha. Que atônita, nada pode fazer: nem sequer derramar uma lágrima. 

Isso se passou alguns anos antes dos gatinhos, ou depois, nunca saberei.

***

Desliguei o fogão. Essa noite não teve comida.  Os gatinhos se esconderam durante três dias até começarem a se habituar à nossa presença.

Nunca mais pensei sobre essa historia. Mas de tempos em tempos, acendia velas para a mãe que um dia eu seria, e para a mulher que eu gostaria de ser.



15 de jul. de 2013

mintirismos

se eu ainda fosse artista
não seria poeta
se fosse poeta, não seria um mal poeta
se fosse bom: seria homem

pourtant, se não fosse mulher seria estrela

pra morar à anos luz dessa cidade
dessa nossa falta de caridade e vontade e verdade

pourtant, nao veria nossos filhinhos
tão velhinhos, doentinhos
brincando de gatinhos

não daria tantos jeitinho
não cantaria devagarinho

no pé do seu ouvido
ouvindo o ronronar do seu peito

cansada de tanto.

eu só queria ser poeta.

8 de jul. de 2013

quebra cabeça

mais uma pecinha do quadrado
ser revolucionario é pensar numa bola e nascer um bicho pelado.





froliqui

Subo sofas, escalo cortinas
como raçao tomo aspirinas
ligo o radio e so ouço chiados
vozes do além?

pensei que subiria de vez na vida
todos os degraus no fim daquela avenida
você me empurrou do penhasco
e eu me salvei segurando na cauda do seu gato

nos dois nus à espera de uma epifania
quem de nos tera a coragem de salvar nossas vidas?


23 de mai. de 2013

aleijadinha

o sol brilha la fora, como uma maquina eletrica
eu me deito. sinto as costas que ardem, de repente, eu so sinto muito sono
tinha medo de escrever e que tudo que escrevesse se tornasse realidade
e eu tinha medo do moço porque ele era sincero demais e eles tinha as unhas limpas
e eu nao confio em homens com unhas bem feitas.

eu nao conseguia mais respirar, mas eu nao tinha mais medo de escrever sobre isso
eu nao sabia mais pensar.
e nem gostava mais do tarantino e achava que pra escrever poesia eu precisava de rimas
mas eu posso escrever como quiser, porque nem sou escritora e nem tenho contrato e nem tenho um editor que me diz que poesia nao vende, com excecao da angelica la e dos seus gatos

entao eu saio de casa com as unhas mal feitas porque nao sei colar as unhas falsas direito, e elas ficam gordas e todo mundo repara.

o cobrador do onibus, a moça do caixa do supermercado. ate o cachorro na coleira, antes de ter o pescoço engolido por uma gaivota do mal que passava.

eu jogo agua fria na dona do cachorro com a coleira na mao, ela estava mais roxa que seu chiuauwa com o pescoço pendurado na coleira.

a gaivota do mal, talvez fosse um gaviao, sobe ate a janela do segundo andar do predio mais proximo.
a moca que mora no segundo andar, de iPhone na mao. nao. nao era isso. ela tinha trocado, ela nao tem mais um iPhone, ela tem um sony. ela mudou tambem o corte de cabelo e o oculos de sol, ja que nao podia mudar o marido.  ela tem um ray ban agora. e ela nao gosta de sapatos apertados, mas ela usa porque isso faz ela classy.
a moça do segundo andar, essa mesma, posta no seu sony a photo do urubu com a cabeça do cachorro pendurado no bico. disse que ele ia pro sul, em direcao ao lixao da cidade, onde meninos de rua catavam lixo da rua e separavam para proxima exposicao de arte do vik muniz.

eu bem vi, depois de alguns anos, no sesc, uma escultura de autor desconhecido: menina de unhas gordas com cachorro decapitado. dizem que nao estava assinado e a toda a cena dava um ar meio barroco.


7 de mai. de 2013

Faltam 10 minutos para o fim da vida

Para mim mesma eu posso dizer: mas escrevo, e escrever nao é dizer, é marcar para os outros é ficar para a posteridade das minhas memorias inconnues.

Entao o texto é meu, dizendo para mim mesma: o que so eu sei. A dor que so eu conheço, e a faca no peito nao fura o papel.

So a minha dor que ninguém mais sentira, ninguém mais sabera. pois o toque da mao sobre a folha é maquina de impressao de faz de conta. O meu mundo inenomado.
indecifravel.

Faltam dez minutos para o fim da vida.

Uma francesa vestida de vermelho. Ela tem um filho, um patinete e quatro  vasos de flores. Ela briga com alguém no telefone. Ela ja gritou com o filho. eu nao sei se ela esta nervosa ou se é so o jeito normal dela.

Acho que a raiva dela é a minha.

ps: eu também achei ela um pouco feia.

faltam sete minutos.

o trem vem e passa por cima da menina.
a dor aparece e senta em cima da ferida.
a ferida é sangue sangrando, o sangue é vermelho amor.
o amor nao existe, minha dor é um buraco com vida.

faltam quatro minutos.

as meninas-fancy-bitchs-americanas usam perfumes baratos e se sentem muito finas por estarem na França.

Mas a França nao é fina.
A França é uma invençao do inconsciente coletivo.

Eles nem bebem vinho!

Eles sao piores do que eu.

faltam dois minutos.

o trem adiantado, ele ja vem lotado.



21 de abr. de 2013

sobre a nao-desistencia

Tem coisas que a gente demora um pouco pra entender

Como ir em restaurante nem sempre é um programa legal
Como visitar Paris com um caderninho na mao procurando um cafe é cafona

Como comprar chapeu panama em lojinha de souvenir é babaca

Como um estado paternalista nem sempre significa um pais de primeiro mundo

Como é chato discutir na internet

Como é chato querer ter sempre razao, sobretudo quando cada um tem sua propria razao


e na vida, as vezes so temos que ser ativos

quer dizer, na minha vida, eu so tenho é que ser ativa


me defendo dizendo que sou contemplativa

mas na verdade acho acontece mesmo é uma lentidao e preguiça de pensar
e um rebuscamento da linguagem
e a revelacao:
so escrevo coisas mela-cuecas


pois é, caiu. eu tenho controle da linguagem, na maioria das vezes, ao menos

precisava mesmo era limpar o texto

trabalhar ativamente cada poeminha


mas tenho essa coisa, de achar que um talento vem assim
pronto

um dia alguem vai reconhecer

mas tem tanta gente dizendo tanta coisa por ai
tanta tanta

que eu to é cansada de tanta democracia a favor da burrice


que to cansada de tambem de ter algo a dizer sobre isso

e, veja, demorei pra entender

apesar de ja ter parado de escrever

   Tudo o que eu faço
alguém em mim que eu desprezo
      sempre acha o máximo.

      Mal rabisco,
não dá mais para mudar nada.
      Já é um clássico.

[do livro Distraídos Venceremos]