A lambreta muda de cor
A dor muda de amor
A casa muda de feira.
Tem quarto e nova janela
Panela
Banguela
amarela
Não há ninguém na cancela
pra dividir a panela
pra esperar na janela
Na porta da casa
a lambreta amarela
voa, voa
Amor não muda a dor.
30 de mai. de 2011
feirafeirafeirafeirafeira
desejo. sobrevivo
não leio, não te vejo.
eita falta de amor
cadê a dor, meu Deus?
é vazia a respiração
o suor na palma da mão
giro, giro, giro
permaneço.
tudo aí tá igual?
A vida é uma bola.
não leio, não te vejo.
eita falta de amor
cadê a dor, meu Deus?
é vazia a respiração
o suor na palma da mão
giro, giro, giro
permaneço.
tudo aí tá igual?
A vida é uma bola.
25 de mai. de 2011
mulheres e lobos
Curiosa sua letra redonda na capa do livro.
Nuvenzinha, florzinhas tímidas.
Triste gente que escreve com letra de criança, sua letra é de menina. Moça de 18 anos, que ouve disco sozinha no quarto.
Como a Lorena, bailarina na janela. Inventando cheiro de pêssego na rua.
Mas você nunca leu as meninas. Me emprestou a disciplina do amor, e marcou com xizinhos as páginas que mais gostava. De preto, azul, vermelho.
ingênua, não cometeria a indelizadeza de corações cor-de-rosa. Acho que rosa nunca foi a sua cor.
Eu gostei muito do texto do sonho também. Te disse aquele dia no quarto que você arrumou. Eu reparei. Te disse, não?
Ainde não terminei o livro, estou em novembro, quando moço da TV falada faz denúncias na TV. Você fez um xizinho ao lado. Eu também fiz. Vou escrever um A em volta do que gostar, combinado?
você faz xizinhos políticos, xizinhos sobre o amor, xizinhos sobre o fazer literário, sobre o processo de criar.
Eu fiz um A em um texto sobre a morte (você não sabe como é difícil pra mim escrever sobre isso), sobre as mentiras. Sobre as dificuldades, sobre Álvares de Azevedo.
Eu compartilho da angústia: da tua, da Lygia, da minha.
Compartilho a sua crença no amor. No interesse pelo noticiário político. Nas dificuldades sociais. Eu escrevo. Porque você parou, mãe?
Eu resgatei a menina que ficou presa no livro. E aquela menina, mãe, se parece muito com a mulher que sou hoje.
Eu te vi traduzindo Lygia Fagundes Telles em xizinhos discretos na beirada das páginas. Eu vi o livro escrevendo as verdades da minha mãe.
Eu vi minha história sendo contada.
Nuvenzinha, florzinhas tímidas.
Triste gente que escreve com letra de criança, sua letra é de menina. Moça de 18 anos, que ouve disco sozinha no quarto.
Como a Lorena, bailarina na janela. Inventando cheiro de pêssego na rua.
Mas você nunca leu as meninas. Me emprestou a disciplina do amor, e marcou com xizinhos as páginas que mais gostava. De preto, azul, vermelho.
ingênua, não cometeria a indelizadeza de corações cor-de-rosa. Acho que rosa nunca foi a sua cor.
Eu gostei muito do texto do sonho também. Te disse aquele dia no quarto que você arrumou. Eu reparei. Te disse, não?
Ainde não terminei o livro, estou em novembro, quando moço da TV falada faz denúncias na TV. Você fez um xizinho ao lado. Eu também fiz. Vou escrever um A em volta do que gostar, combinado?
você faz xizinhos políticos, xizinhos sobre o amor, xizinhos sobre o fazer literário, sobre o processo de criar.
Eu fiz um A em um texto sobre a morte (você não sabe como é difícil pra mim escrever sobre isso), sobre as mentiras. Sobre as dificuldades, sobre Álvares de Azevedo.
Eu compartilho da angústia: da tua, da Lygia, da minha.
Compartilho a sua crença no amor. No interesse pelo noticiário político. Nas dificuldades sociais. Eu escrevo. Porque você parou, mãe?
Eu resgatei a menina que ficou presa no livro. E aquela menina, mãe, se parece muito com a mulher que sou hoje.
Eu te vi traduzindo Lygia Fagundes Telles em xizinhos discretos na beirada das páginas. Eu vi o livro escrevendo as verdades da minha mãe.
Eu vi minha história sendo contada.
20 de mai. de 2011
wesak
oi mãe.
Hoje fui aceita para o voluntariado no hospital. Te disse. Dar comida pros velhinhos.
A média de idade é 70 anos. A mais nova, é uma mulher, claro, e tem 50.
A solidão. Quem garante que estamos salvas?
Pensei enquanto voltava pela calcada da Coronel Lisboa.
Lembra da Coronel Spinola? Acho que nunca vou me esquecer.
Hoje esteve frio, pouco sol, muita luz. Compreende?
Hoje o amigo de uma amigo pulou da janela. 16 andar.
Meu amigo continuou trabalhando. A tarde toda.
Quando ouvi, pensei que ele fosse chorar. Desabar a qualquer momento.
Quando dei por mim, eram meus olhos que estavam lacrimejantes.
Eu senti vontade de abraça-lo. Deveria? Um abraço e algo só oferecido? ou recebido?
Penso.
vc me acha criativa? Talvez eu seja, só preciso avisar ao mundo.
Cansei de ser correta, essa fantasia não tem me caido bem.
Vamos inventar um prêmio, mãe? Você me premia, eu premio você.
A gente pode fazer um cerimonial. Um carnaval.
Eu não quero mais ter medo, mãe.
Hoje fui aceita para o voluntariado no hospital. Te disse. Dar comida pros velhinhos.
A média de idade é 70 anos. A mais nova, é uma mulher, claro, e tem 50.
A solidão. Quem garante que estamos salvas?
Pensei enquanto voltava pela calcada da Coronel Lisboa.
Lembra da Coronel Spinola? Acho que nunca vou me esquecer.
Hoje esteve frio, pouco sol, muita luz. Compreende?
Hoje o amigo de uma amigo pulou da janela. 16 andar.
Meu amigo continuou trabalhando. A tarde toda.
Quando ouvi, pensei que ele fosse chorar. Desabar a qualquer momento.
Quando dei por mim, eram meus olhos que estavam lacrimejantes.
Eu senti vontade de abraça-lo. Deveria? Um abraço e algo só oferecido? ou recebido?
Penso.
vc me acha criativa? Talvez eu seja, só preciso avisar ao mundo.
Cansei de ser correta, essa fantasia não tem me caido bem.
Vamos inventar um prêmio, mãe? Você me premia, eu premio você.
A gente pode fazer um cerimonial. Um carnaval.
Eu não quero mais ter medo, mãe.
6 de mai. de 2011
5 de mai. de 2011
send
Ai, já vou comecar me desculpando, queria te escrever, sei, sei bem, não devia.
Queria te ver, sabe, dizer.
eu acho que nao te amo mais.
Pode rir, você sabe que eu não faria, mesmo se fosse verdade.
Tua lembrança é imagem congelada na janela do teu prédio.
Como pode, eu perguntaria, você viver com uma pessoa, achar que conhece suas verdades, seus trajetos, trejeitos e.
que importa, não é?
Você se muda.
desculpa de novo. você está louco?
Digo:
Você não vai ajudar ninguém, cada um vive o que precisa viver.
Penso roendo as unhas.
Você só vai se afundar em neuroses que não são suas, continuo, todas as coisas que você criticava.
porra.
Pensa, eu argumentaria, como estará seu cérebro no final do ano? Derretido, por mil sentidos.
***
Sua marca indelével na minha pele.
A saudade engolindo meus dias.
Só amor.
Minha cabeca dói.
meu peito afunda em si mesmo. As costas grudadas na cama. O buraco na garganta.
Minha cabeca doi.
é dolorido aceitar suas partidas.
o amargo claro assim: você só não me ama. mais.
***
Passo a mão no telefone.
- Oi, tudo bem? Você sente minha falta? Desculpe, eu ainda te amo.
O amor é frágil como uma folha de papel. Acho que não estou bem.
Queria te ver, sabe, dizer.
eu acho que nao te amo mais.
Pode rir, você sabe que eu não faria, mesmo se fosse verdade.
Tua lembrança é imagem congelada na janela do teu prédio.
Como pode, eu perguntaria, você viver com uma pessoa, achar que conhece suas verdades, seus trajetos, trejeitos e.
que importa, não é?
Você se muda.
desculpa de novo. você está louco?
Digo:
Você não vai ajudar ninguém, cada um vive o que precisa viver.
Penso roendo as unhas.
Você só vai se afundar em neuroses que não são suas, continuo, todas as coisas que você criticava.
porra.
Pensa, eu argumentaria, como estará seu cérebro no final do ano? Derretido, por mil sentidos.
***
Sua marca indelével na minha pele.
A saudade engolindo meus dias.
Só amor.
Minha cabeca dói.
meu peito afunda em si mesmo. As costas grudadas na cama. O buraco na garganta.
Minha cabeca doi.
é dolorido aceitar suas partidas.
o amargo claro assim: você só não me ama. mais.
***
Passo a mão no telefone.
- Oi, tudo bem? Você sente minha falta? Desculpe, eu ainda te amo.
O amor é frágil como uma folha de papel. Acho que não estou bem.
2 de mai. de 2011
O dia em que a terra parou (estépeum)
Eu sei, mãezinha, você pediu para eu escrever.
Mas todos os dias eu me pego prostrada no meu quarto, ou correndo ruas sem fim, nesse pequeno espaço que eu inventei ser meu mundo.
Penso agora: perdi minha fé em alguma esquina.
Você tem a solução, mamãe? A formula mágica que resolve todos os problemas que a gente inventa?
Eu sonhei com você ontem. Eu brigava com a prima. Eu furiosa, verde de despeito, seca de angústia. Chorava.
E você aparecia: vai minha filha, responde pra ela, levante-se. Eu que sempre quis você assim.
ai.
Eu fui no médico: meu colesterol está alto. Eu tenho sardinhas de sol no rosto, eu nunca vou aprender, mãe?
Eu estive atolada na lama construindo casas em uma comunidade sem saneamento básico, mas ainda fico nervosa porque a água quente de casa não funciona.
Eu não escrevo, eu não medito, eu mal saio de casa.
Tenho dor de cabeça.
E colesterol alto.
Eu não quero ser melhor que ninguém, mãe. Às vezes, eu só preciso me suportar.
Hoje faz sol. Um céu está laranja, rosa e azul. Aí também é assim?
Penso que podia ficar em casa, mas a minha casa não é minha.
Podia parar para chorar, podia ficar, podia voltar.
Minha cabeça não para de doer, meus pés não param de arder.
Insisto.
Mas todos os dias eu me pego prostrada no meu quarto, ou correndo ruas sem fim, nesse pequeno espaço que eu inventei ser meu mundo.
Penso agora: perdi minha fé em alguma esquina.
Você tem a solução, mamãe? A formula mágica que resolve todos os problemas que a gente inventa?
Eu sonhei com você ontem. Eu brigava com a prima. Eu furiosa, verde de despeito, seca de angústia. Chorava.
E você aparecia: vai minha filha, responde pra ela, levante-se. Eu que sempre quis você assim.
ai.
Eu fui no médico: meu colesterol está alto. Eu tenho sardinhas de sol no rosto, eu nunca vou aprender, mãe?
Eu estive atolada na lama construindo casas em uma comunidade sem saneamento básico, mas ainda fico nervosa porque a água quente de casa não funciona.
Eu não escrevo, eu não medito, eu mal saio de casa.
Tenho dor de cabeça.
E colesterol alto.
Eu não quero ser melhor que ninguém, mãe. Às vezes, eu só preciso me suportar.
Hoje faz sol. Um céu está laranja, rosa e azul. Aí também é assim?
Penso que podia ficar em casa, mas a minha casa não é minha.
Podia parar para chorar, podia ficar, podia voltar.
Minha cabeça não para de doer, meus pés não param de arder.
Insisto.
28 de mar. de 2011
a.m.o.r
Eu não me lembro se havia sol da ultima vez que nos vimos. Eu não me lembro da sua roupa.
Eu posso ver seu cigarro apagado no cinzeiro, eu posso sentir minhas mãos atravessadas no meu rosto. A solidão ao seu lado. O meu desespero.
Chorei no Metro Ana Rosa. Todo trem que passava, todo trem que saia.
Hoje fez sol. Meu brinco de princesa abriu, os lírios floriram, mais um brotinho nasceu na Espada de São Jorge.
Hoje eu vesti a sua camiseta. Eu acendi um incenso. Eu vim de metro.
E vi o Ana Rosa passar.
Uma estação que ficava, outra que vinha.
Eu me movia.
7 de fev. de 2011
um.
Tudo bom, mãe? Aqui tá tudo certo, graças a Deus. Fui no hospital hoje visitar o tio, ele tá magro, amarelo cor de sabão, mas os médicos tão confiantes, né? O noivo da minha amiga teve a mesma coisa e hoje tá ó. Vai casar e tudo mais.
Eu levei chocolate e um cartão. Achei que você ia gostar. Se vier me visitar a gente vai lá tomar café e comer chocolate, não no hospital, no shopping. Você sabe, programa de paulista é ir no shopping. Olha eu cheia de clichê, mãe.
Sabe eu falei com o pai hoje também. Eu fiquei chateada, né? Eu falei pra ele tudo isso que eu acho e você já sabe: a vida não é só sofrimento não. Mas papai não entende, você também não. E eu fico chateada porque eu queria era ver vocês de marajá, top top andando por aí de iate, de praia em praia. Sem stress, sem problemas mil na cabeça. Mas papai fica todo encolhido, acha que é desmerecimento meu. Você sabe, né mãe..
Eu tenho pensado, sabe mamãe, em mudar de casa, estudar na França, trabalhar com comunidades indigenas no Pará, casar e ter filhos,virar celebridade, adotar um gatinho.
(Mas calma, pode ficar tranquila, eu já pensei em tudo: depois que eu tiver minha casa, meu gatinho vai chamar Sushi e, quando você vier me visitar, eu prendo ele em jaulinhas de gatinhos, sabe? Você nem vai conhecer ele se não quiser. E quando eu for te visitar ele não vai junto, porque gatos não gostam muito de mudanças, viagens e, especialmente, cachorros.)
Aqui tá sol e muito calor, mas eu tenho um ventilador. Eu to ouvindo no rádio um cara que se chama Bevendra Banhart. Eu acendi um incenso de flor de laranjeira e fiz um chá de morango, hibiscus e gengibre. Qual será que foi o caminho que nos escolheu? A vida pode ser boa, não pode, mãe?
Eu levei chocolate e um cartão. Achei que você ia gostar. Se vier me visitar a gente vai lá tomar café e comer chocolate, não no hospital, no shopping. Você sabe, programa de paulista é ir no shopping. Olha eu cheia de clichê, mãe.
Sabe eu falei com o pai hoje também. Eu fiquei chateada, né? Eu falei pra ele tudo isso que eu acho e você já sabe: a vida não é só sofrimento não. Mas papai não entende, você também não. E eu fico chateada porque eu queria era ver vocês de marajá, top top andando por aí de iate, de praia em praia. Sem stress, sem problemas mil na cabeça. Mas papai fica todo encolhido, acha que é desmerecimento meu. Você sabe, né mãe..
Eu tenho pensado, sabe mamãe, em mudar de casa, estudar na França, trabalhar com comunidades indigenas no Pará, casar e ter filhos,virar celebridade, adotar um gatinho.
(Mas calma, pode ficar tranquila, eu já pensei em tudo: depois que eu tiver minha casa, meu gatinho vai chamar Sushi e, quando você vier me visitar, eu prendo ele em jaulinhas de gatinhos, sabe? Você nem vai conhecer ele se não quiser. E quando eu for te visitar ele não vai junto, porque gatos não gostam muito de mudanças, viagens e, especialmente, cachorros.)
Aqui tá sol e muito calor, mas eu tenho um ventilador. Eu to ouvindo no rádio um cara que se chama Bevendra Banhart. Eu acendi um incenso de flor de laranjeira e fiz um chá de morango, hibiscus e gengibre. Qual será que foi o caminho que nos escolheu? A vida pode ser boa, não pode, mãe?
20 de jan. de 2011
para roberta
Talvez o melhor seja mesmo o desapego: nas crenças, nos medos, nas certezas. Nos babaquismos. A gente inventando arame farpado.
O que salva é sempre o imprevisto. Decreto hoje o fim da masturbação mental.
Tai um cego a te ensinar a enxergar as coisas de um jeito diferente, talvez não. Que os olhos não sejam azuis, mas que ainda sim haja blues.
30 de nov. de 2010
quando o carnaval passar
Eu disse pra ele que tinha saudades, com bastante s no final.
Ixi, ele ficou bravo-disse: Chega!, mas disse pra mim que não tinha ficado bravo não:
— Faz bem o que quiser, não tenho nada pra te dizer não. Só não suma não, mande notícias, ligue vez em quando, quem sabe para um jantar ou sexo.
— Mas benzinho, eu amo você.
— Não quero mais ouvir isso.
— Mas eu não consigo ser amiga, quero ser namorada: assim, beijada, abraçada.
Ele não quer, não quer nada.
Sem mim, ele fica mais calmo. Mais calmo? Ai.
Agora você só quer ser só amigo.
Mas fechei os olhos e quase escapou a lágrima que tava guardada pra você lá dentro.
Eu vi meu ódio quase nascer.
Mas então: acho melhor a gente não se ver. Posso ser amiga não. Tenho mágoa da separação.
Ele diz: mas a gente não terminou por falta de amor.
Não?
Não, você concordou comigo que era melhor.
Uai, mas você disse: nem quero mais, não consigo me empolgar nesse amor não. Eu obedeci. E passei bem quietinha pela porta, como o Chico já tinha me ensinado a fazer há muitos anos.
Fui falar sobre o fim da gente junto, bom é relembrar quando a gente ainda era um.
Ele demora pra responder: então tá bom, apareça quando puder, se quiser.
Eu fiquei sozinha do outro lado da linha, olhando os carros passando na janela, pensando naquela rua da sua casa e da vida calma sem mim.
Quem sabe não é assim que se pareça um fim?
Ixi, ele ficou bravo-disse: Chega!, mas disse pra mim que não tinha ficado bravo não:
— Faz bem o que quiser, não tenho nada pra te dizer não. Só não suma não, mande notícias, ligue vez em quando, quem sabe para um jantar ou sexo.
— Mas benzinho, eu amo você.
— Não quero mais ouvir isso.
— Mas eu não consigo ser amiga, quero ser namorada: assim, beijada, abraçada.
Ele não quer, não quer nada.
Sem mim, ele fica mais calmo. Mais calmo? Ai.
Agora você só quer ser só amigo.
Mas fechei os olhos e quase escapou a lágrima que tava guardada pra você lá dentro.
Eu vi meu ódio quase nascer.
Mas então: acho melhor a gente não se ver. Posso ser amiga não. Tenho mágoa da separação.
Ele diz: mas a gente não terminou por falta de amor.
Não?
Não, você concordou comigo que era melhor.
Uai, mas você disse: nem quero mais, não consigo me empolgar nesse amor não. Eu obedeci. E passei bem quietinha pela porta, como o Chico já tinha me ensinado a fazer há muitos anos.
Fui falar sobre o fim da gente junto, bom é relembrar quando a gente ainda era um.
Ele demora pra responder: então tá bom, apareça quando puder, se quiser.
Eu fiquei sozinha do outro lado da linha, olhando os carros passando na janela, pensando naquela rua da sua casa e da vida calma sem mim.
Quem sabe não é assim que se pareça um fim?
26 de nov. de 2010
Margens
Os textos mais fáceis são aqueles que não devem ser escritos.
As melhores histórias são aquelas que queremos esquecer.
O presente de aniversário que não veio.
O telefone de madrugada que não tocou.
Você chorando à noite sem saber se as lágrimas eram reais ou só existiram no sonho.
Talvez exista uma beleza nas coisas que você deseja e nunca se realizam
Talvez exista um abismo entre os planos que faz e a vida que se desenrola
E eu me pego, às vezes, lápis em punho. A voz embargada. o peito fechado.
Pronta para escrever.
às vezes, posso me sentir pronta para ser feliz.
As melhores histórias são aquelas que queremos esquecer.
O presente de aniversário que não veio.
O telefone de madrugada que não tocou.
Você chorando à noite sem saber se as lágrimas eram reais ou só existiram no sonho.
Talvez exista uma beleza nas coisas que você deseja e nunca se realizam
Talvez exista um abismo entre os planos que faz e a vida que se desenrola
E eu me pego, às vezes, lápis em punho. A voz embargada. o peito fechado.
Pronta para escrever.
às vezes, posso me sentir pronta para ser feliz.
10 de nov. de 2010
Poetinha vagabundo
Eu subi a ladeira que leva até a sua casa
Percorri os caminhos, ancorando-me nos muros de terrenos vazios
Eu sentia que deveria te contar a verdade
Você correu quando viu minha sombra circulando a lateral do cemitério da Vila. Jesus, você correu.
Eu segui pela calçada disforme, com minha garrafa de vinho, com os cabelos presos e as mãos sujas.
Eu te disse, lembra, do apartamento, com vista para o cemitério da Consolação? Eu gostaria de passar por lá qualquer dia, sabe? Acho que devem ter esses escritores enterrados lá, naqueles jazigos de casa, que parecem pequenas igrejas.
A moça me disse, não te contei? Pô, você tem maior cara de quem era gótica na adolescência, curtia beber vodca entre os túmulos.
Pô, pensei, bem queria ter sido gótica. Mas tudo que consegui foi terminar uma vez, com um namoradinho skatista, recitando Vinicius de Moraes.
Ele ia na minha casa de mobilete (né?), ele era fofo, sabe? Loiro. coisa só.
Chegou em casa a tarde, um suor doce. Eu desci bêbada de Vinicius, livro debaixo do braço. De todos os poemas que havia decorado naquela tarde, o mais adequado parecia ser o soneto da separaçao.
Eu não sabia ser sutil naquela época, uma pena que só.
Eu carregava um grande sorriso de satisfação aquele dia. Aquele poema era mais do que algo bonito, era a tradução do que eu queria ser. Veja bem, a tradução do que eu queria ser, não dizer.
Mas eu disse, repeti palavra-por-palavra: sabe? tava lendo um poema hoje a tarde: De repente do riso fez-se o pranto / Silencioso e branco como a bruma / E das bocas unidas fez-se a espuma / E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
Hoje eu não me lembro muito bem do poema, a ordem das estrofes, o sentido. Mas eu lembro do menino que era skatista. Nunca mais conheci alguém que tivesse uma mobilete.
Mas acho que foi aí que comecei a gostar dos loiros.
Percorri os caminhos, ancorando-me nos muros de terrenos vazios
Eu sentia que deveria te contar a verdade
Você correu quando viu minha sombra circulando a lateral do cemitério da Vila. Jesus, você correu.
Eu segui pela calçada disforme, com minha garrafa de vinho, com os cabelos presos e as mãos sujas.
Eu te disse, lembra, do apartamento, com vista para o cemitério da Consolação? Eu gostaria de passar por lá qualquer dia, sabe? Acho que devem ter esses escritores enterrados lá, naqueles jazigos de casa, que parecem pequenas igrejas.
A moça me disse, não te contei? Pô, você tem maior cara de quem era gótica na adolescência, curtia beber vodca entre os túmulos.
Pô, pensei, bem queria ter sido gótica. Mas tudo que consegui foi terminar uma vez, com um namoradinho skatista, recitando Vinicius de Moraes.
Ele ia na minha casa de mobilete (né?), ele era fofo, sabe? Loiro. coisa só.
Chegou em casa a tarde, um suor doce. Eu desci bêbada de Vinicius, livro debaixo do braço. De todos os poemas que havia decorado naquela tarde, o mais adequado parecia ser o soneto da separaçao.
Eu não sabia ser sutil naquela época, uma pena que só.
Eu carregava um grande sorriso de satisfação aquele dia. Aquele poema era mais do que algo bonito, era a tradução do que eu queria ser. Veja bem, a tradução do que eu queria ser, não dizer.
Mas eu disse, repeti palavra-por-palavra: sabe? tava lendo um poema hoje a tarde: De repente do riso fez-se o pranto / Silencioso e branco como a bruma / E das bocas unidas fez-se a espuma / E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
Hoje eu não me lembro muito bem do poema, a ordem das estrofes, o sentido. Mas eu lembro do menino que era skatista. Nunca mais conheci alguém que tivesse uma mobilete.
Mas acho que foi aí que comecei a gostar dos loiros.
5 de nov. de 2010
O lobo e mar
Eu construi minha casa.
Você não pode entrar.
Eu cuspi em nosso caminho.
Você sequer pode notar.
Estamos cegos.
Engasgados das histórias que inventamos.
Sigo altiva.
Você não conseguirá me decifrar.
*
ô seu pedro, que peixe tem ai bom pra sashimi?
shashimi? Ahh, tem o piáu, o tucunaré, né? Qualqué um dos dois fica bão.
Vo levá o tucunaré.
*
Eu tirei uma foto na cachoeira.
Eu fiquei comendo um monte de acerola com a Ariane debaixo do pé.
Eu recolhi todo o lixo com o Oswaldo. O seu Oswaldo é porco.
*
Eu moro num apartamento de 50 metros quadrados.
Eu não beijo a boca de poodle nenhum, ainda.
*
Eu não tenho pudor. A moça me disse e pediu desculpas.
Eu queria beijar as mãos dela: ai, quem me dera você tivesse razão.
Eu tomei uma caipirinha de manjericão. Eu sonhei com você.
Eu podia ter beijado a foto do meu passaporte na hora que vi minha foto estampada na marca d'água.
*
Eu almocei assistindo um jogo de futebol.
Eu vi a chuva chegar.
Eu vi a tarde passar. Eu sorri.
*
Eu queria muito poder te salvar de você, baby.
*
Eu vejo a noite entrando na minha parede invisível. Oito horas, pisca nervoso o reloginho do meu desktop: noite de sexta de verão.
Penso em ficar com pena de mim e penso a tristeza de passar a noite sozinha.
Ai quero muito alguém e um jantar.
Pego o Terminal Pirituba e olho a noite úmida: pode ter trânsito, vai. To com pressa nem nada.
Desço na Faria Lima. Ai, se eu tivesse alguém e um jantar. Caminho até a Rebouças (por que esse cara caminha tão perto assim? melhor não olhar) Tenho nada não, né mesmo? Nem um filme bom no cinema, nem uma peça de teatro.
Parque D. Pedro. Desce a Consolação, cobrador? Penso no jantar, no vinho, na musica. E, de repente, tá tudo tão bem desenvolvido na minha cabeça, né? Vou desperdiçar isso não.
Vou até o Pão de Acucar da D. Veridiana, subo a Maria Antonia. Paro na banca de jornal, procuro os peitos da moça da capa de revista que parecem os meus. A revista com a capa do Paul. 15 contos. pô, vai se ferrar.
Saio pela calçada abarrotada de histórias. Ai, podia encontrar alguém bem ali pra me salvar da minha estupida ideia de levar minha sexta-feira sozinha adiante.
Desvio da fumaça do cigarro do menino, das amigas bebendo cerveja na escada do sesc, como tem bares novos que eu nunca conheci.
Quero comprar um vaso de flores, umas velas aromáticas. Fecho a fatura um gnocchi semi-pronto, um molho de tomate de microondas e um vinho de 22 contos.
É o prato da noite.
Vou logo ali matar a curiosidade de saber o que é um date comigo mesma. Vamos ver, se eu for muito legal, e desconfio que eu seja, te passo me telefone. Quem sabe você não me leva pra conhecer uns desses barzinhos novos da Maria Antonia?
*
Eu sinto muito por todos nós.
Você não pode entrar.
Eu cuspi em nosso caminho.
Você sequer pode notar.
Estamos cegos.
Engasgados das histórias que inventamos.
Sigo altiva.
Você não conseguirá me decifrar.
*
ô seu pedro, que peixe tem ai bom pra sashimi?
shashimi? Ahh, tem o piáu, o tucunaré, né? Qualqué um dos dois fica bão.
Vo levá o tucunaré.
*
Eu tirei uma foto na cachoeira.
Eu fiquei comendo um monte de acerola com a Ariane debaixo do pé.
Eu recolhi todo o lixo com o Oswaldo. O seu Oswaldo é porco.
*
Eu moro num apartamento de 50 metros quadrados.
Eu não beijo a boca de poodle nenhum, ainda.
*
Eu não tenho pudor. A moça me disse e pediu desculpas.
Eu queria beijar as mãos dela: ai, quem me dera você tivesse razão.
Eu tomei uma caipirinha de manjericão. Eu sonhei com você.
Eu podia ter beijado a foto do meu passaporte na hora que vi minha foto estampada na marca d'água.
*
Eu almocei assistindo um jogo de futebol.
Eu vi a chuva chegar.
Eu vi a tarde passar. Eu sorri.
*
Eu queria muito poder te salvar de você, baby.
*
Eu vejo a noite entrando na minha parede invisível. Oito horas, pisca nervoso o reloginho do meu desktop: noite de sexta de verão.
Penso em ficar com pena de mim e penso a tristeza de passar a noite sozinha.
Ai quero muito alguém e um jantar.
Pego o Terminal Pirituba e olho a noite úmida: pode ter trânsito, vai. To com pressa nem nada.
Desço na Faria Lima. Ai, se eu tivesse alguém e um jantar. Caminho até a Rebouças (por que esse cara caminha tão perto assim? melhor não olhar) Tenho nada não, né mesmo? Nem um filme bom no cinema, nem uma peça de teatro.
Parque D. Pedro. Desce a Consolação, cobrador? Penso no jantar, no vinho, na musica. E, de repente, tá tudo tão bem desenvolvido na minha cabeça, né? Vou desperdiçar isso não.
Vou até o Pão de Acucar da D. Veridiana, subo a Maria Antonia. Paro na banca de jornal, procuro os peitos da moça da capa de revista que parecem os meus. A revista com a capa do Paul. 15 contos. pô, vai se ferrar.
Saio pela calçada abarrotada de histórias. Ai, podia encontrar alguém bem ali pra me salvar da minha estupida ideia de levar minha sexta-feira sozinha adiante.
Desvio da fumaça do cigarro do menino, das amigas bebendo cerveja na escada do sesc, como tem bares novos que eu nunca conheci.
Quero comprar um vaso de flores, umas velas aromáticas. Fecho a fatura um gnocchi semi-pronto, um molho de tomate de microondas e um vinho de 22 contos.
É o prato da noite.
Vou logo ali matar a curiosidade de saber o que é um date comigo mesma. Vamos ver, se eu for muito legal, e desconfio que eu seja, te passo me telefone. Quem sabe você não me leva pra conhecer uns desses barzinhos novos da Maria Antonia?
*
Eu sinto muito por todos nós.
2 de nov. de 2010
Sobras
Acordei de sobressalto
Escrevi, de sobreaviso, meu nome na parede do teu quarto
Sobrexaltei tuas verdades
Cometi, sobretudo, a indelicadeza de te amar.
Sobrevivo.
Escrevi, de sobreaviso, meu nome na parede do teu quarto
Sobrexaltei tuas verdades
Cometi, sobretudo, a indelicadeza de te amar.
Sobrevivo.
8 de out. de 2010
Michel Torino
Fazia tanto tempo que eu não tomava uma taça de vinho sozinha.
Fazia tanto tempo que eu não me permitia ser tão cafona.
Eu queria sentir raiva. Mas eu não queria te perder.
Isso era um problema.
Con-tra-di-tó-rio
(E pensando bem, você tinha gostado do texto do Brecht)
Foda-se.
Deitada na cama, tomando vinho.
Não é um vinho barato, pelo menos não na minha concepção.
Para você, que não comprava nenhum que custasse menos de 35 reais, talvez fosse. Será que 35 era o limite? Nem me lembro mais.
Taí uma coisa boa do vinho: nada fica evidente demais.
Eu gostei muito de ter dividido com você o blog do Felipe. Eu sinto como se ele fosse tão meu amigo.
Estive até pensando: o Felipe, do blog, é amigo do meu outro amigo, Felipe. (assumindo que eu tenho dois amigos Felipes) (além de um ex-primeiro amor) (não era amor, sualoka)
Bem, eu gostei que você gostou. Foi legal, né?
Acho que nem existe coisa melhor no mundo que dividir uma coisa que você gosta e acha a cara de um amigo. Amei que você gostou.
E amigo, miha filha, ... Eu quero agarrar os meus pelas pernas.
Ás vezes eu minto. e sou dissimulada.
O Felipe, do blog, disse: às vezes você é vítima, às vezes filha da puta.
Meu, total entendo o que você diz: eu acho que eu não quero nada.
Eu não consigo nem mais assistir "That's 70's show". isso é triste.
tipo, o ultimo capitulo de Lost.
Eu posso encher meus olhos de lágrimas neste instante, se isso fizesse alguma diferença.
Fazia tanto tempo que eu não me permitia ser tão cafona.
Eu queria sentir raiva. Mas eu não queria te perder.
Isso era um problema.
Con-tra-di-tó-rio
(E pensando bem, você tinha gostado do texto do Brecht)
Foda-se.
Deitada na cama, tomando vinho.
Não é um vinho barato, pelo menos não na minha concepção.
Para você, que não comprava nenhum que custasse menos de 35 reais, talvez fosse. Será que 35 era o limite? Nem me lembro mais.
Taí uma coisa boa do vinho: nada fica evidente demais.
Eu gostei muito de ter dividido com você o blog do Felipe. Eu sinto como se ele fosse tão meu amigo.
Estive até pensando: o Felipe, do blog, é amigo do meu outro amigo, Felipe. (assumindo que eu tenho dois amigos Felipes) (além de um ex-primeiro amor) (não era amor, sualoka)
Bem, eu gostei que você gostou. Foi legal, né?
Acho que nem existe coisa melhor no mundo que dividir uma coisa que você gosta e acha a cara de um amigo. Amei que você gostou.
E amigo, miha filha, ... Eu quero agarrar os meus pelas pernas.
Ás vezes eu minto. e sou dissimulada.
O Felipe, do blog, disse: às vezes você é vítima, às vezes filha da puta.
Meu, total entendo o que você diz: eu acho que eu não quero nada.
Eu não consigo nem mais assistir "That's 70's show". isso é triste.
tipo, o ultimo capitulo de Lost.
Eu posso encher meus olhos de lágrimas neste instante, se isso fizesse alguma diferença.
eu acho que vou ser muito feliz bebendo vinho por essa noite.
30 de set. de 2010
576M/10 Vila Clara
O silêncio não existe.
Eu pensava enquanto escovava meus dentes pela manhã.
— As mulheres só usam chapinha no salão.
Dizia o motorista enquanto dirigia o ônibus pelo caminho.
— Todas têm chapinha em casa agora.
Corrigia o cobrador, enquanto atravessava o corredor.
O silêncio realmente não existe.
Reiterei baixinho pra mim mesma, enquanto me concentrava na paisagem do Clube Pinheiros. Todos os dias, os mesmos muros altos orientando a calçada. É bonito de fazer chorar.
Coisa mais feliz que existe é levar comida pra criança que brincou a tarde inteira e nem consegue falar nada com nada e nem presta atenção na comida, olhando pra mãe e falando que nadô sozinho até o fundo e depois qué i no Parquinho. Vai, mãe, pô favor, (Mastiga primeiro, menino) só 15 minutinhos.
Mas a dor não existe.
As lágrimas secaram.
Passado e futuro são o presente.
Deitada na esteira, nenhum ruído pela rua ou pela sala. Só o zumbido contínuo do nada. O som da vida.
Eu gosto muito das árvores da Rebouças. Gosto da República do Líbano: a sonoridade do nome, as árvores do Ibirapuera, o trajeto contínuo, a pequena entrada na Canário para Moema. ibirápûéra.
Meu passado é meu presente, não separo mais o que era do que será.
Meu amor segue inabalado. Sem paredes, sem distâncias, sem precisar de palavras pra se expressar.
Deito no chão, braços estirados, céu azul que eu inventei.
Meu amor é maior que o nosso silêncio.
— Maior até do que cabe daqui até o terminal Pirituba, corrige o cobrador, que hoje não estava a fim de trabalhar.
Eu pensava enquanto escovava meus dentes pela manhã.
— As mulheres só usam chapinha no salão.
Dizia o motorista enquanto dirigia o ônibus pelo caminho.
— Todas têm chapinha em casa agora.
Corrigia o cobrador, enquanto atravessava o corredor.
O silêncio realmente não existe.
Reiterei baixinho pra mim mesma, enquanto me concentrava na paisagem do Clube Pinheiros. Todos os dias, os mesmos muros altos orientando a calçada. É bonito de fazer chorar.
Precisa-se de garçonete. Lanchonete do Clube Pinheiros.
Então foi assim o restante do percurso: pensando em servir lanches e refrigerantes para velhinhas e crianças. Coisa mais feliz que existe é levar comida pra criança que brincou a tarde inteira e nem consegue falar nada com nada e nem presta atenção na comida, olhando pra mãe e falando que nadô sozinho até o fundo e depois qué i no Parquinho. Vai, mãe, pô favor, (Mastiga primeiro, menino) só 15 minutinhos.
Mas a dor não existe.
As lágrimas secaram.
Passado e futuro são o presente.
Deitada na esteira, nenhum ruído pela rua ou pela sala. Só o zumbido contínuo do nada. O som da vida.
Eu gosto muito das árvores da Rebouças. Gosto da República do Líbano: a sonoridade do nome, as árvores do Ibirapuera, o trajeto contínuo, a pequena entrada na Canário para Moema. ibirápûéra.
Meu passado é meu presente, não separo mais o que era do que será.
Meu amor segue inabalado. Sem paredes, sem distâncias, sem precisar de palavras pra se expressar.
Deito no chão, braços estirados, céu azul que eu inventei.
Meu amor é maior que o nosso silêncio.
— Maior até do que cabe daqui até o terminal Pirituba, corrige o cobrador, que hoje não estava a fim de trabalhar.
13 de set. de 2010
Voa
— Ela virou passarinho.
Foi o que a mãe disse, pouco antes da morte da tia. Ela quase não comia, não falava, só sorria. Uma coisa tão linda. Não foi nunca ao hospital, morreu em casa dormindo.
Eu também queria virar passarinho antes de morrer. Era um desejo de uma vida inteira.
Mas naquele dia, eu nem cheguei a pensar nisso. Queria mesmo, pelo menos, era lembrar da tia. A mãe dizia que quando nasci ela ficou bastante tempo comigo, embalava minhas tardes enquanto a mãe estudava.
Mas eu não consegui me lembrar dela. Nem do seu rostinho sorridente ou de sua presença silenciosa pelos natais.
A mãe se ofendeu. Disse que era uma falta de consideração eu dizer isso. Disse que não tinha respeito pelos mortos, disse que eu tinha que rezar pela tia.
Naquela noite eu ajoelhei na cama. E pedi, com as mãos unidas na frente do rosto e de olhos fechados, que sonhasse com a tia. E no sonho, ela se lembrasse de mim e eu pudesse me lembrar dela. Como acontece com a vó que já tinha morrido.
Mas eu não consegui sonhar com ela. E, no dia seguinte, fiquei bem quieta enquanto tomava café pra mãe não desconfiar. Lavei minha louça, coloquei minha roupa de tristeza, os sapatos velhos e fui seguir a procissão no cemitério com os primos que lembravam da tia.
Ninguém chorava alto, só a vó que tava viva. Mas eu acho (e também nem falei pra ninguém) que a vó chorava mesmo era por causa do vô, que ainda não tinha voltado.
A mãe chorava também, mas a mãe chora por qualquer coisa. Ela acha a vida coisa bonita demais, por isso ela chora. Foi o que ela me disse quando vi ela com olhos encharcados na janela.
Eu não tinha marido pra voltar e também não lembrava não de tanta felicidade assim. Olhei a tia durinha no caixão, branquinha, com o nariz pequeno e, então, fiquei esperando um passarinho vir pousar na testa dela dando beijo. Isso não me fez chorar, nem me fez lembrar da tia, mas eu fiquei bem quietinha, segurando a mão da mãe e da vó, que se lembravam de coisas demais.
Foi o que a mãe disse, pouco antes da morte da tia. Ela quase não comia, não falava, só sorria. Uma coisa tão linda. Não foi nunca ao hospital, morreu em casa dormindo.
Eu também queria virar passarinho antes de morrer. Era um desejo de uma vida inteira.
Mas naquele dia, eu nem cheguei a pensar nisso. Queria mesmo, pelo menos, era lembrar da tia. A mãe dizia que quando nasci ela ficou bastante tempo comigo, embalava minhas tardes enquanto a mãe estudava.
Mas eu não consegui me lembrar dela. Nem do seu rostinho sorridente ou de sua presença silenciosa pelos natais.
A mãe se ofendeu. Disse que era uma falta de consideração eu dizer isso. Disse que não tinha respeito pelos mortos, disse que eu tinha que rezar pela tia.
Naquela noite eu ajoelhei na cama. E pedi, com as mãos unidas na frente do rosto e de olhos fechados, que sonhasse com a tia. E no sonho, ela se lembrasse de mim e eu pudesse me lembrar dela. Como acontece com a vó que já tinha morrido.
Mas eu não consegui sonhar com ela. E, no dia seguinte, fiquei bem quieta enquanto tomava café pra mãe não desconfiar. Lavei minha louça, coloquei minha roupa de tristeza, os sapatos velhos e fui seguir a procissão no cemitério com os primos que lembravam da tia.
Ninguém chorava alto, só a vó que tava viva. Mas eu acho (e também nem falei pra ninguém) que a vó chorava mesmo era por causa do vô, que ainda não tinha voltado.
A mãe chorava também, mas a mãe chora por qualquer coisa. Ela acha a vida coisa bonita demais, por isso ela chora. Foi o que ela me disse quando vi ela com olhos encharcados na janela.
Eu não tinha marido pra voltar e também não lembrava não de tanta felicidade assim. Olhei a tia durinha no caixão, branquinha, com o nariz pequeno e, então, fiquei esperando um passarinho vir pousar na testa dela dando beijo. Isso não me fez chorar, nem me fez lembrar da tia, mas eu fiquei bem quietinha, segurando a mão da mãe e da vó, que se lembravam de coisas demais.
2 de set. de 2010
Snow Globe
A bailarina tinha pés finos e dedos compridos. Ela vestia-se de rosa e carmim.
Tinha meia-calça e saias de tule. Os cabelos presos por tranças.
Ela colecionava papéis de carta.
Bailarina cantava.
Bailarina comia com as pontas dos dedos.
Bailarina dançava em círculos.
Ela tinha olhos doces e um pompom no bumbum
A bailarina girava.
O dia dormiu. A bailarina, que sonhava existir, sorriu.
Os cabelos sedosos contornavam a cintura de moça. A meia já não servia mais / A boca molhada. Os pés marcados. As unhas cravadas. A pele ensanguentada. Ninguém vai notar.
A chuva de neve contornava seu corpo.
A bailarina girava. Bailarina chorava.
O sorriso permanecia. As mãos na cintura.
A bailarina girava. Bailarina dançava.
Os seios fora da camisa. As mãos permaneciam.
Na ponta dos pés. Na ponta dos pés.
Bailarina chorava. Bailarina dançava. Bailarina em silêncio.
Cabelos na cintura. Mãos seguras. Pezinhos fincados.
A bailarina chorava.
Eu me aproximei do vidro. Minha respiração. A bailarina que queria existir. Meu peito eu queria te dar. Minhas mãos emprestar, o suor enxugar.
Bailarina não chore. Bailarina-boneca. Bailarina sorria.
****
Eu levanto sua casinha e agito com toda minha força.
— Dance, dance, dance, sua putinha.
Eu sorrio. Você não pode existir.
Tinha meia-calça e saias de tule. Os cabelos presos por tranças.
Ela colecionava papéis de carta.
Bailarina cantava.
Bailarina comia com as pontas dos dedos.
Bailarina dançava em círculos.
Ela tinha olhos doces e um pompom no bumbum
A bailarina girava.
O dia dormiu. A bailarina, que sonhava existir, sorriu.
Os cabelos sedosos contornavam a cintura de moça. A meia já não servia mais / A boca molhada. Os pés marcados. As unhas cravadas. A pele ensanguentada. Ninguém vai notar.
A chuva de neve contornava seu corpo.
A bailarina girava. Bailarina chorava.
O sorriso permanecia. As mãos na cintura.
A bailarina girava. Bailarina dançava.
Os seios fora da camisa. As mãos permaneciam.
Na ponta dos pés. Na ponta dos pés.
Bailarina chorava. Bailarina dançava. Bailarina em silêncio.
Cabelos na cintura. Mãos seguras. Pezinhos fincados.
A bailarina chorava.
Eu me aproximei do vidro. Minha respiração. A bailarina que queria existir. Meu peito eu queria te dar. Minhas mãos emprestar, o suor enxugar.
Bailarina não chore. Bailarina-boneca. Bailarina sorria.
****
Eu levanto sua casinha e agito com toda minha força.
— Dance, dance, dance, sua putinha.
Eu sorrio. Você não pode existir.
4 de ago. de 2010
Deslumbre
— Eu gostava muito do seu banheiro. Do banheiro da sua casa. Gostava da solidão que transpirava dos azulejos frios durante nossos banhos longos.
— Por um tempo alimentei a ilusão de ter uma banheira. Mas a ideia de taças de champagne durante meus banhos de imersão me parecia vulgar, ao pensar nos copos de cristal que não tenho e nas banheiras antigas em que teria que me deitar. Isto é, se levasse este sonho adiante.
— Eu também gostava muito de manter trancada porta do meu quarto. Nas tardes infinitas de incensos, livros vomitados, um copo d'água, lapiseira 0.7, grafite HB. Chinelos, shorts, blusas de barriga-de-fora esperando.
Um eterno cruzar de pernas.
— Sabe, veja como é engraçado. Eu poderia me lembrar de muitas casas, mas me lembro especialmente desta. Na verdade, não era casa, lembro-me com carinho somente do meu quarto. As paredes eram tão minhas, a imobilidade dos móveis parecia tanto com a minha visão da vida. Talvez nem tenha durado tanto tempo assim.
— Talvez todas estas imagens tenham existido, de fato, somente durante uma única tarde. Talvez eu gostasse das expectativas positivas que a ideia daquela casa encerrava. Um grande jardim, uma banheira, o futuro em suspensão.
— A casa nunca mudou, as paredes só foram pintadas de branco durante uma única vez, após o conserto da infiltração de invadia a cozinha. A reforma durou meses.
— Ao entrar eu podia sentir o cheiro de óleo da moto que ficava guardada na sala de estar, os sacos de cimentos e cal pelo corredor cheirando a cachorro, a cortina que mantinha a cozinha abafada, os inúmeros papéis que eu escondia reiteradamente embaixo da travessa do café. O cheiro das caixas de papelão repletas de mais plástico e papel. O eterno estado de transição.
— Eu gostava muito de deitar-me no quintal, tomando sol sem filtro solar, ouvindo música alto, segurando o jornal desajeitada, observando o movimento das nuvens. Como era sedutor sentir-se triste naquela época. De tempos em tempos eu caminhava a passos curtos até o banheiro do fundo. Afastava as vassouras, a pilha de roupa para lavar e subia em cima do vaso para conferir a marca de biquíni recém-adquirida.
— Eu gostava também de me deitar na cama dos pais para assistir TV durante a tarde, apesar de não gostar da textura da colcha e dos abajures, que quase nunca funcionavam. Eu gostava do cheiro dos travesseiros.
— Depois de um tempo consegui retornar, até com certa frequencia, para meu antigo quarto. Mas algo me parecia tão estranho que nunca mais consegui dormir sozinha por lá. As estantes pareciam confusamente organizadas, as caixas vazias de CDs que eu nunca havia ouvido, as peças de roupas antigas, o computador que não funcionava, as gavetas que não se encaixavam mais, o mundo que eu deixei para trás me encarando silenciosamente ao longo da noite.
— Há muito tempo não passo mais por aquela rua. Eu nunca chequei se a árvore que meu pai plantou na calçada cresceu. Eu nunca conferi se os novos moradores ainda deixam a porta de vidro aberta, com a chave enterrada no vaso com as espadas de São Jorge. Aposto muito que eles têm um portão elétrico no lugar do portão que minha mãe pintou de branco.
— Talvez eles até tenham reformado o banheiro de azulejos cor de creme que fica no corredor, que nós nunca utilizamos.
— Por um tempo alimentei a ilusão de ter uma banheira. Mas a ideia de taças de champagne durante meus banhos de imersão me parecia vulgar, ao pensar nos copos de cristal que não tenho e nas banheiras antigas em que teria que me deitar. Isto é, se levasse este sonho adiante.
— Eu também gostava muito de manter trancada porta do meu quarto. Nas tardes infinitas de incensos, livros vomitados, um copo d'água, lapiseira 0.7, grafite HB. Chinelos, shorts, blusas de barriga-de-fora esperando.
Um eterno cruzar de pernas.
— Sabe, veja como é engraçado. Eu poderia me lembrar de muitas casas, mas me lembro especialmente desta. Na verdade, não era casa, lembro-me com carinho somente do meu quarto. As paredes eram tão minhas, a imobilidade dos móveis parecia tanto com a minha visão da vida. Talvez nem tenha durado tanto tempo assim.
— Talvez todas estas imagens tenham existido, de fato, somente durante uma única tarde. Talvez eu gostasse das expectativas positivas que a ideia daquela casa encerrava. Um grande jardim, uma banheira, o futuro em suspensão.
— A casa nunca mudou, as paredes só foram pintadas de branco durante uma única vez, após o conserto da infiltração de invadia a cozinha. A reforma durou meses.
— Ao entrar eu podia sentir o cheiro de óleo da moto que ficava guardada na sala de estar, os sacos de cimentos e cal pelo corredor cheirando a cachorro, a cortina que mantinha a cozinha abafada, os inúmeros papéis que eu escondia reiteradamente embaixo da travessa do café. O cheiro das caixas de papelão repletas de mais plástico e papel. O eterno estado de transição.
— Eu gostava muito de deitar-me no quintal, tomando sol sem filtro solar, ouvindo música alto, segurando o jornal desajeitada, observando o movimento das nuvens. Como era sedutor sentir-se triste naquela época. De tempos em tempos eu caminhava a passos curtos até o banheiro do fundo. Afastava as vassouras, a pilha de roupa para lavar e subia em cima do vaso para conferir a marca de biquíni recém-adquirida.
— Eu gostava também de me deitar na cama dos pais para assistir TV durante a tarde, apesar de não gostar da textura da colcha e dos abajures, que quase nunca funcionavam. Eu gostava do cheiro dos travesseiros.
— Depois de um tempo consegui retornar, até com certa frequencia, para meu antigo quarto. Mas algo me parecia tão estranho que nunca mais consegui dormir sozinha por lá. As estantes pareciam confusamente organizadas, as caixas vazias de CDs que eu nunca havia ouvido, as peças de roupas antigas, o computador que não funcionava, as gavetas que não se encaixavam mais, o mundo que eu deixei para trás me encarando silenciosamente ao longo da noite.
— Há muito tempo não passo mais por aquela rua. Eu nunca chequei se a árvore que meu pai plantou na calçada cresceu. Eu nunca conferi se os novos moradores ainda deixam a porta de vidro aberta, com a chave enterrada no vaso com as espadas de São Jorge. Aposto muito que eles têm um portão elétrico no lugar do portão que minha mãe pintou de branco.
— Talvez eles até tenham reformado o banheiro de azulejos cor de creme que fica no corredor, que nós nunca utilizamos.
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