4 de ago. de 2010
Deslumbre
— Por um tempo alimentei a ilusão de ter uma banheira. Mas a ideia de taças de champagne durante meus banhos de imersão me parecia vulgar, ao pensar nos copos de cristal que não tenho e nas banheiras antigas em que teria que me deitar. Isto é, se levasse este sonho adiante.
— Eu também gostava muito de manter trancada porta do meu quarto. Nas tardes infinitas de incensos, livros vomitados, um copo d'água, lapiseira 0.7, grafite HB. Chinelos, shorts, blusas de barriga-de-fora esperando.
Um eterno cruzar de pernas.
— Sabe, veja como é engraçado. Eu poderia me lembrar de muitas casas, mas me lembro especialmente desta. Na verdade, não era casa, lembro-me com carinho somente do meu quarto. As paredes eram tão minhas, a imobilidade dos móveis parecia tanto com a minha visão da vida. Talvez nem tenha durado tanto tempo assim.
— Talvez todas estas imagens tenham existido, de fato, somente durante uma única tarde. Talvez eu gostasse das expectativas positivas que a ideia daquela casa encerrava. Um grande jardim, uma banheira, o futuro em suspensão.
— A casa nunca mudou, as paredes só foram pintadas de branco durante uma única vez, após o conserto da infiltração de invadia a cozinha. A reforma durou meses.
— Ao entrar eu podia sentir o cheiro de óleo da moto que ficava guardada na sala de estar, os sacos de cimentos e cal pelo corredor cheirando a cachorro, a cortina que mantinha a cozinha abafada, os inúmeros papéis que eu escondia reiteradamente embaixo da travessa do café. O cheiro das caixas de papelão repletas de mais plástico e papel. O eterno estado de transição.
— Eu gostava muito de deitar-me no quintal, tomando sol sem filtro solar, ouvindo música alto, segurando o jornal desajeitada, observando o movimento das nuvens. Como era sedutor sentir-se triste naquela época. De tempos em tempos eu caminhava a passos curtos até o banheiro do fundo. Afastava as vassouras, a pilha de roupa para lavar e subia em cima do vaso para conferir a marca de biquíni recém-adquirida.
— Eu gostava também de me deitar na cama dos pais para assistir TV durante a tarde, apesar de não gostar da textura da colcha e dos abajures, que quase nunca funcionavam. Eu gostava do cheiro dos travesseiros.
— Depois de um tempo consegui retornar, até com certa frequencia, para meu antigo quarto. Mas algo me parecia tão estranho que nunca mais consegui dormir sozinha por lá. As estantes pareciam confusamente organizadas, as caixas vazias de CDs que eu nunca havia ouvido, as peças de roupas antigas, o computador que não funcionava, as gavetas que não se encaixavam mais, o mundo que eu deixei para trás me encarando silenciosamente ao longo da noite.
— Há muito tempo não passo mais por aquela rua. Eu nunca chequei se a árvore que meu pai plantou na calçada cresceu. Eu nunca conferi se os novos moradores ainda deixam a porta de vidro aberta, com a chave enterrada no vaso com as espadas de São Jorge. Aposto muito que eles têm um portão elétrico no lugar do portão que minha mãe pintou de branco.
— Talvez eles até tenham reformado o banheiro de azulejos cor de creme que fica no corredor, que nós nunca utilizamos.
28 de jul. de 2010
Sujeito oculto
Um denso poema de sálvia e saliva.
Queria falar da saudade do teu beijo, do cheiro dos ventos e das flores.
Queria falar das tristezas permanentes, das promessas indizíveis, de meus acordos tácitos.
Na verdade, falava de mim, não de você.
Na verdade, acho que nunca soube separar muito bem você de mim. O meu corpo do teu, tuas verdades na minha nova sombra. Eu inventava.
E dizia para você como se isso fosse algo muito peculiar. Bobagens. Alguma vez você acreditou? Sinto tanto por tê-lo envolvido nas sutilezas da minha fragilidade.
Eu não posso te dizer com precisão se eu realmente disse a verdade em algum momento, exceto nos momentos em que te amei. Eu nunca precisei dizê-lo, eu pudia sentir como todos os meus sentidos o meu amor por você.
Todavia, além disso, não sei se soube,
Talvez tenha sido este o problema. Talvez tenha sido exatamente este o ponto em que me perdi. Eu não transpareci. Eu esmoeci. Eu mantive-me resoluta. Sofrendo uma dor de cal. Vivendo tanto concreto. eu não soube.
Por um instante, penso em pedir desculpas, para logo perceber: foi este o meu erro.
Preciso me amar tão apavoradamente como te amo.
E isso soa quase tão artificial. Tão eu quero engolir a frase de volta para que não seja verdade.
Eu não quero mais arrancar pedaços da minha pele. Eu não quero me rasgar pelo avesso. Eu passo incólume por cercas-arame farpado.
Eu te amo como uma extensão do meu desejo por mim mesma, que resplandece tão lentamente que mal posso dizer que, de fato, posso vê-lo.
só sinto, e isso basta.
2 de jul. de 2010
Para Caio Fernando. sua criança.seu velho.
E existe também esse vidro.
Durante o dia, quando a luz da manhã escorre pelo lado interno, eu sinto o cheiro quente do vento que desliza ao lado de fora.
Eu, aqui de dentro, fico sempre em busca de um passarinho, mas na maior parte do tempo só vejo aviões.
Eu olho muito por esse vidro durante o dia. Eu acho ele muito bonito. Acho bonita também a cidade que ele traduz.
É uma cidade distante, silenciosa, cheia de pequenas pessoinhas. Às vezes com pequenos coraçõezinhos, às vezes não.
Eu vejo muitos carros, e eles parecem tão lentos que eu até bocejo. Mas eu gosto desses carros. Daqui eu não vejo sua fumaça. Daqui, quase nada é real.
Tudo é explicado para mim pelo vidro que não fala.
Eu gosto de me divertir enconstando no vidro quando ninguém vê. Eu encosto de costas e,—, as mãos, os cabelos, com muita sorte o rosto.
Eu tenho vontade de abraçar essa cidade escondida debaixo do vento.
Para ser honesta, acho mais poético (pelo perdão de mais um clichê) quando chove, porque a gente não tem obrigação de ser feliz, fazer algo muito genial ou achar a vida muito linda nesses dias.
— Apesar de considerar o vidro que me conta sobre a cidade muito gracioso —
Imagino, a chuva, como um corte na mecanicidade da cidade. Um céu cinzento me parece uma sombra acima de todos, um reflexo pelo avesso das pessoinhas com pequenos e grandes corações.
Afinal, ainda não encontrei alguém com uma pequena nuvem somente sobre a sua própria cabeça. Fato que seria até bem conveniente, pensando um pouquinho.
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Agora não é mais dia. Agora já é noite lá fora, mas não aqui dentro.
Estou protegida pelo vidro. Lá fora é breu.
As luzes dos carros são brilhantes mas, através do vidro, elas são só lanterninhas cabeças-de-fósforo.
E durante a noite me vejo refletida no vidro. per-fei-ta-men-te.
É uma sensação quase estranha.
Para onde quer que eu olhe, lá estão meus olhinhos soltando gritinhos de sedução, tentando me abraçar.
Os peitinhos ficam mais cheios, os lábios mais juntinhos. Porque, a minha imagem que existe no espelho, acha tudo isso muito sedutor.
A que existe presa dentro do vidro é uma pessoinha que vive só do próprio reflexo. E ela sempre olha para os lados, pensando se alguma outra sombra do espelho irá lhe sorrir de volta um sorriso refletido de vidro.
Ela não se cansa.
Eu já tentei avisá-la. — Benzinho, você é feita de vento e breu da noite. O calor da tua mão, não é do teu coraçãozinho, é resquício do dia que ainda está impregnado no vidro-que-eu-gosto. Você é uma folhinha de papel.
Mas essa imagem silenciosa de vidro, não pode me dizer nada. Sua voz é fraquinha, suas mãos não foram feitas de pegar.
Eu queria abraçá-la. Quem sabe, sentá-la em meu colo e embalar a criança e o velho escondida em sua imagem de ar.
S'ao muitos os desejos de espuma.
23 de jun. de 2010
Entardecer
Fechava os olhos e tentava capturar, em minhas mãos molhadas, o aroma do teu sexo.
Eu negava minha condição.
Seguia inebriada pelas ruas, caminhando a passos curtos, buscando as falhas do asfalto e considerando muito cafona a arquitetura das árvores.
A logística dos pássaros, os movimentos da minha sombra.
Tentava, recorrentemente, preencher o vazio dos meus seios com a espuma da lembrança da tua voz, que escorria lenta, fria, improvável.
Todas as tecnologias me pareciam antiquadas e, vez ou outra, me pegava procurando por cartões telefônicos na carteira para ligar na sua rua.
Eu conseguia me imaginar em uma grande calçada, de uma grande avenida, sozinha, com o coração em paralisado ao bater de cada ponto que diminuia.
Até hoje considero este fato um grande mistério.
Eu nunca consegui, e hoje tenho quase certeza, exprimir em palavras o que aquela sensação de abandono significou.
Tampouco, consegui diminuir sua intensidade a cada vez que retornava. Sempre me pareceu, e isso é naturalmente estético, como um grande bicho disforme e sem cor que corroía minha carne peito adentro.
Já não importava muito por qual caminho eu deveria seguir, ou qual passo deveria ser o próximo.
Ainda, manter a respiração segundo após segundo, tornava todo o processo dilacerante, lento, sem vida.
A possibilidade, ainda que remota, de poder resgatá-lo novamente, era o combustível de meu andar.
A sensação de vida, que persistia no canto da minha boca, só se tornava real ao pensar que ainda haveria um momento de redenção.
Eu não sabia escrever o fim.
13 de jun. de 2010
por falar em paixão, em razão de viver.
Rir de sua mao em meu braco, das suas caretas, das coisas que você inventava pra me ver sorrir. Assistir todas as séries de TV do mundo, passar madrugadas inteiras ao lado de sua cadeira, aprender todos os jogos de tabuleiro, cantar sobre feras desgovernadas, esfregar suas costas, baguncar seu cabelo que é todo lindo-lindo-sarará, roubar suas cobertas a noite, esperar você fumar seus cigarros, ouvir você me contando sobre as últimas novidades no modo, me enchendo de orgulho das suas últimas criacoes no 3d, ficar sentindo o cheiro do seu peito e rindo de doer a barriga até você parar de me fazer cócegas.
Mensagens pra desejar bom dia, relembrar mil vezes a noite que nos conhecemos, trocar olhares e piadas que só nos dois entendemos. Tomar seus cafés. xicaras de chá de madrugada. Cuidado ao falar, atencão a sua respiracao, sorrir ao te ver levantar, dormir enroscada no teu amor. O meu amor por você. Namorado. graca. Toda tua.
Feliz Dia dos Namorados.
10 de mai. de 2010
Tradução
Da falta latente no meu peito, que só o seu olhar aquece.
Do silêncio entre as minhas respirações, que você decifra-e-devora.
Os seus olhos brilhantes nas minhas manhãs.
Seus cabelos perdidos nas minhas blusas.
Seu jeito delicado de pedir desculpas respirando entre meus dedos.
Fiquei te olhando sob seus ombros, ouvindo você lamuriando baixinho enquanto suspirava a cada curva de todas estradas.
Pausei minha respiração por alguns instantes ao sentir suas hesitações. A fala ritmada. O vento que entrava pelas janelas, o cheiro de suas mãos no meu colo. Meus dedos tocando levemente a pele do seu pescoço.
O meu desejo resplandecia. Suspirava todas as pequenas alegrias diárias que só o teu desejo maciço e permanente (sic) permite.
Eu pude, finalmente, sonhar.
23 de abr. de 2010
swallow
Com toda a minha força peito adentro
Garganta afora, conduzo a flora.
Indizível, sensível, cheia de dores de sabores passados
E delírios visíveis.
Enchia muitos corpos de beijos e suspiros repletos de meias-verdades na luas que nunca se aqueciam.
Saudade das páginas cinzas, dos cinzeiros sempre limpos, dos sorrisos.
Meu bem, volte. A rua incedeia lá fora, você nem imagina.
Não, graça, a gente incedeia é por dentro. Pelas ruas nós flutuamos.
Mas volte, diga que me ama baixinho.
Não amo.
Repare então a sua volta, você consegue sentir?
Só o som das minha própria respiração paralisada. E todo esse processo garganta-adentro-garganta-afora do peito de engolir o impulso irrefreável de ser o que é mais conveniente.
Precisão.
15 de mar. de 2010
Insensatez
Então eu te disse, à meia luz, do meu amor sem pudores, sem remorsos, afogada em tantas lágrimas que eu poderia chorar, porque meu amor é bonito demais.
Mas você achou aquilo tudo muito triste e chorou também, porque você não sabia me amar.
Então você permaneceu. E ficou me olhando com seus antigos olhos facetados e analisando todos os meus vícios passados, meus destemperos. Medindo nossos espaços vazios.
E assim se passou nossa noite, cheia de abraços partidos, acuados, lambendo nossas feridas.
25 de fev. de 2010
Watch out
Na verdade, ele não sabia muito sobre as idiossincracias de relacionamentos.
Além de feio, e coxo, repetia o tempo todo que sabia escrever. Pior, acreditava que isto podia ser argumento de conquista barata.
O fato de ser bêbado pouco importava a essa altura, doses homeopáticas de Viagra e isso era até uma qualidade.
Ele me fazia arder os dentes.
Afinal, competir com mulheres parecia bem óbvio, mas com homens? Algo não parecia certo.
O perfume de chá de frutas secas invadia seus pensamentos. Não, ele não cheivara a frutas frescas.
Parecia cada vez mais difícil me tornar essa mulher gostosa que ele buscava.
Resolvi fazer clareamento nos dentes, alisamento nos cabelos. Estorei a fatura do cartão de crédito comprando roupas em busca de seu desejo fálico.
Me perfumava com gotas de almíscar, lambuzava os cabelos com serum para cabelos secos. Lixava as unhas e tirava as próprias cutículas em casa. Afinal, porque pagaria por isso?
Até decidi correr, pre-ci-sa-va emagrecer.
Saia todos os dias de manhã sentindo muitas felicidades ao mesmo tempo. Eu queria ser muito o amor da vida dele. Naquela época, meus únicos vícios eram os cigarros de filtro branco.
Mas isso foi antes.
Eu o conhecia de um tempo em que os Carnavais não eram como os de hoje. Eram cheios de máscaras, desejos, álcool, salões cheirando a éter.
Ele dormia no meio da pista.
Durante uns dois dias, eu o encontrei dormindo no meio da pista. E me apaixonei por aquele sujeito semi-morto, semi-deus deitado em toda sua delicadeza no meio do salão.
E o sol era uma cascata laranja em tons neóns. Naquela época eu ainda não entendia a psicodelia. Eu nunca entendi.
Corria pelas ruas insuspeita, inflamada de ego por todos os poros. Blasfemando minha imoralidade, verborrágica charlatonice com os dentes cerrados.
As pessoas suspiravam pavor e seus discursos sempre atingiam meu peito em cheio.
Eu não conseguia mais encontrá-lo. Sua imagem torpe, vil, promíscua e baixa.
Desfilei meu veneno ao redor de tantas mesas de sinuca em madrugadas frias. Sofria dores indizíveis e muito profundas. Não precisava compartilhar minhas alucinações.
Por isso, todas as noites tomava uma garrafa de vinho barato e nunca dormia.
O que ele não entendia, quando o reencontrei com esta nova fantasia (um pouco mais gordo, um pouco mais vazio), é que aquelas cenas de olhos lacrimenjantes, cheirando a álcool e com um cigarro em punho, eu já tinha visto.
Agora que eu passava meus carnavais vestida de branco, pedindo bênçãos e acendendo velas, seus convites pérfidos, suas dissimulações me pareciam tão amadoras.
Eu precisava competir. Ele não sabia. Eu nunca diria, apesar da minha nova máscara me cair tão bem todos os dias.
Humf (fazendo biquinho de leão) Muito bravo.
10 de fev. de 2010
Presente
Lábios semi-cerrados que nunca se fechavam e muito silêncio em suas pausas.
Sobrevivia com os dedos lânguidos e uma respiração sempre suspensa em busca do inefável.
Dizia meias verdades em noites claras e ameaçava a utopia do mundo com seus cabelos quase antigos.
Nos acordes de seu violão cantava os amores de todos os dias.
Não tinha suspiros, tampouco calafrios. desejos
Epifanias inconscientes.
Sabia os momentos em que deveria parar, sabia os momentos em que deveria partir.
Tinha um universo inteiro a desvendar e pouca pressa no passo.
Não gostava dos mistérios que envolviam suas noites, da objetividade que pautava suas manhãs.
Suas pequenas movimentações, a delicadeza de seu toque
O vigor de sua entrega, a paixão em sua respiração, o desejo em sua saliva.
As palavras escorriam pelo vento musicalizadas, repletas de amores não escritos.
O ritmo de suas descobertas cabia em seu peito.
A profundidade de sua rotina. Os sorrisos de tantas saudades.
E como era lindo ao acordar.
Amor.
9 de fev. de 2010
sublime
Uma entrega discreta, um sorriso de canto de lábios.
29 de jan. de 2010
A incrível história do menino que não gostava de carinho VOL.1
Mas a palavra jovem parecia tão cafona...algo como falar noivo, ou esposa, ele e eu pensávamos.
— Ai, então, sábado eu vou no chá de bebê da prima da minha esposa.
— Ahn?
É, ele não gostava dessas coisas antiquadas. Não gostava do que era comum, do que era imposto.
— Você precisa estudar, se formar, trabalhar, se casar, ter filhos, ir à missa aos domingos. Você pre-ci-sa.
Ele nunca faria nada disso. Quer dizer, até faria. Mas só se essa ideia viesse dele mesmo. O que não era o caso no momento.
Neste instante, o que ele queria era...
Uhmmm...
Estranho....
Sabe que eu não sei?
Porque assim, outra coisa que você deve saber sobre ele: ele fala pouco.
Fala pouco sobre ele mesmo, que isto fique bem claro. Porque ele é até falante, sabe?
Às vezes, hihihi, vou te contar: ele acorda no meio da noite assim todo agitadinho, e fala, fala, fala. Conta todas essas histórias e dá risadas e fuma cigarros. Ou, às vezes, ele nem quer dormir.
Assim: ele tá quase dormindo. Olhinhos semi-cerrados, de bermudas xadrez, já fumou um cigarro, já entrou na internet, já tomou água, já foi ao banheiro, já escovou os den..zzzzzz
Er-ra-do.
Ele não dorme. E fica só falando, falando sem parar, e todo cheio de beijos e abraços e muitas historinhas divertidas.
Preciso te dizer: é tãaao lindo.
Mas, aí, né, ele não fala dele.
Ahhh, e isso até me lembrou outra coisa. Outro dia desses eu estava lá. E tava semi-de-costas-para-ele, eu estava deitada na cama e quando olhei para trás, ele tinha aqueles olhinhos distantes, multicoloridos, fracionados tão quietinhos, que eu disse:
— O que há?
E ele me responde coisas como, "sempre, mãe, não, se quisesse, saco".
Então eu olho com cara-de-peixe-morto, que eu uso sempre quando fico sem graça e digo: Ui.
***
Mas aí vem a parte do carinho, vou te contar:
Sabe, ele gosta de gatinhos, e gatinhos, você sabe, né? Não gostam muito de carinho. Quer dizer, só gostam quando tem vontade, isto é, de um jeito muito específico.
E, esperta que sou, pensei: gatinhos...
Aí, né, descobri que gatinhos gostam de carinho na barbicha. E eu, veja só você, adoro carinho em barbicha de gatinho.
Então, pensei: que gostoso, Até dá pra ron-ro-nar.
Bem, ele disse: "Não. Quer dizer, de vez em quando, bem de vez em quando".
Aí, teoricamente a história termina por aqui.
Nisso, minha irmã entra. E diz, coçando a nuca com a ponta dos dedos:
— Mas que palhaçada é essa?
— Que palhaçada digo eu. O que você tá fazendo aqui? Esse texto não é seu não ô. Volta lá pro seu dragão!
— Quer dizer, o seu dragão...
— Uhmmm... é, tá, vai, volta lá. Este texto nem é seu. É meu e do terriv...
— Por isso mesmo eu vim, onde já se viu terminar texto pro terriv.... assim? Que coisa bizarra. "Teoricamente acaba assim" hahahahahaha
E ela ri gargalhadas de segurar a barriga e torce os dedinhos. E juro, até vi ela dando tapinhas na mesa, apesar dela negar veementemente que tenha feito algo assim. Tá bom...
Acordo deitada no chão frio da minha sala. Paredes amarelas, teto branco. Pés gelados.
Dou uma giradinha, encosto as buchechas no piso, sinto os fios caindo pelos olhos, testas, orelhas.
Levanto-me, esfrego os olhos, saio andando na ponta dos pés. Te encontro na esquina do corredor. Um beijo e um sorriso.
Porque, mesmo incrível, mesmo menino, assim eu sei que ele gosta.
16 de dez. de 2009
AtosFatosCacos
– Medo do que, minha santa?
– Medo, oras. Medo de ....sei lá....não existe um objeto, medo pra mim é só aquela sensação de estômago vazio, o pescoço duro, uma respiração rápida e curta.
– Mas não precisa, senta aqui.
– Uhmm...sério?
– É, vem cá. Encosta no meu peito. Não deixo você ficar com medo. Pois, quando estou com você perco o medo de tudo. Quero que você se sinta da mesma maneira comigo.
– Uhmmmm...
– Na verdade, queria te dizer, faz tempo....Minha vida é tão melhor com você. Digo, eu admiro e me espelho e sinto tesão...
– É tipo uma declaração isso?
– Ahn, uhmmm, sei lá. Só queria te dizer o quanto gosto de você e fico feliz que goste de mim também.
CORTA
– Eu preciso confessar. Sinto tanto amor que não cabe dentro de mim. Sabe, paixão?
– Sei, daquelas que explodem todos os minutos. Daquelas bem bregas de músicas sertanejas.
– Não, na verdade é uma daquelas bem dramáticas e infantis. Enlouquecidas.
PAUSA
Ele não entende meu amor por ele. Ele não entende o excesso de amor. Sabe, né? As coisas para ele são tão sempre tão. Ele não entende eu me jogando cazuzamente aos seus pés. Aliás, acho que ele nem gosta de Cazuza, quem gosta dessas coisas assim, sou eu.
E eu fico, sabe? Vem aqui, deixa eu te amar de joelhos. (Não seja cafona)
SILÊNCIO
Mas eu não quero me calar, eu não quero não dizer tudo isso. Todas essas vozes. Mesmo que soe egoísta, mesmo que soe contraditório.
Certo, meu caro Brecht?
Eu não quero essa entrega desmedida, essa combustão interna. Digo, lidar com essas janelas de vidro que me sufocam.
LAMPEJOS
- E a chuva que caia, de repente, implodiu as janelas.
- Caminhei a passos curtos em busca da tua imagem refletida em cada um dos pedacinhos.
- Juntei peça a peça, como um grande quebra-cabeça.
- Sua imagem perfeita, refletida em meus braços, santificada e sufocada na prisão de estilhaços que fiz de você.
15 de dez. de 2009
Sobre as alcovas
- Ãnh?
- Pera, a música triste acabou.
- E daí?
- E daí que a gente só tem essas ideias quando tocam música triste.
- Pelo menos você ainda gosta de música, quem ama de verdade não tem mais ouvidos para música, nem para poesia, nem para.... Sei lá mais o que, nem me lembro mais, tanto tempo faz que não fico apaixonad...
- Eu amo mesmo, nunca deixei de me apaixonar. Ok, sempre pelas pessoas erradas,e daí?
- Conhece alguém que se apaixona certo? É sempre meio torto, meio sozinho. Já parou pra pensar nisso?
- Isso o quê?
- Isso de solidão.
- E o amor?
- O que tem?
- Onde fica o amor na solidão?
- Esse é meu ponto, amar é uma via de mão única. Você ama a ideia de ser o que o outro é. Isso é muito egoísta.
- Nossa, quanta bobagem. Você podia parar de repetir as coisas que ouve por aí.
- Bobagem? Eu repito porque realmente acredito nisso.
- Acredita nada, que eu bem te conheço.
- Humpf...
- Diz.
- Diz o quê?
- O que você realmente acha do amor. O que te vem na cabeça?
- Uhmmm...dor de barriga, ansiedade, medo, insegurança.
- rsrsrsrs
- Porque ri?
- Eu? Por nada não. to aqui lembrando de outra coisa que não tem nada a ver com amor.
- O quê?
- Inveja.
- Do nada?
- É. Tipo, porque as pessoas escondem tanto que sentem inveja? E são competitivas e sentem calafrios de pensar em alguém melhor que si mesmas?
- Você se sente assim. Não assuma que todos os outros se sintam da mesma maneira.
- Ahhhh é, você nunca teve inveja? Para de ser hipócrita.
- Eu?
- É.
- Idiota.
- Babaca.
...
Na verdade o que mais gosto no amor, são as cartas, as declarações, sabe?
...
Você ainda está aí?
...
Tudo bem, seu papo tava uma bosta hoje. Vou ficar aqui hoje refletindo....rsrsrsrs....Pera, posição de faquir. Isso, agora sim.
Uma musiquinha, já que não estou amando nem nada. Algumas comidinhas: frango assado, daquele de lamber os dedos. Muito sexual. Pernas roliças, pelinhos escuros, unhas sujas.
Ai, meu peito dói. Minhas pernas não se movem, sim, sim, posso ser. Posso ser tudo o que eu quiser, não preciso nem de interlocutor. Quem curte. Hoje minha pauta para o dia todo é solidão.
Amor? Amor. Tudo parece cada vez mais claro. Me ajuda a me livrar de mim, que a gente se ama. Sem amarras, sem egos, sem medos.
...
Você voltou? Acende a luz, por favor. Vem aqui, deita do meu lado. Isso, liga o seu som, acende suas velas.
Oi, não consigo te ouvir...Fala mais alto...Por...sim.
11 de dez. de 2009
Aula de javanês
Segurava dentro do peito mais amor do lhe era permitido amar.
Guardava dentro do corpo, mais desejo do que conseguiria desfrutar.
A tarde corria mansa, silenciosa como deveriam ser todas as tardes, vazia como deviam ser todos os dias.
Uma chuva que não incomodava, um ruído constante que não dizia nada, um almoço com gosto de comida. Daquelas que só nos mantém em pé.
As perspectivas não eram sólidas, mas, e daí?
Até Cartola cantando parecia feliz demais.
Os cabelos em chamas, a cama fria, as paredes invisíveis.
Gostava até de ouvir os bêbados conversando na rua. encher o quarto de luzes não-estáticas.
Páginas em branco, paredes amarelas, unhas sem esmalte, céus cinzentos.
Prelúdio de verão.
10 de dez. de 2009
Seu silêncio
Espuma pela boca, escorre pelas pernas.
Amoleço os braços, apresso meu passo para te acompanhar.
Fazer teu caminho mais leve.
Digo, ai, me mordo de ciúmes.
E você:
ri
Aquela risada torcendo a cabeça pra trás, segurando a barriga
E deito meu peito no seu
E fico respirando sua respiração
Ai, terrível que sou.
Você diz - pare de rir
Mas não posso.
Não tenho mais para onde fugir.
Dentro de você, meu universo é todo o seu desejo.
8 de dez. de 2009
Meu Breton
Mãos espalmadas, de dedos gordos e sangue quente.
Lábios azuis, quase negros como os dentes.
Pernas rechonçudas de varizes.
Ai, se pudesse fugir.
Mas dopava-se, e aquilo era muito triste.
Mas escondia-se atrás das frágeis costelas de ossos finos.
Dizia coisas sem sentido, frases sem efeito.
Pensava por conectivos - Preguiça;
Enquanto escrevia, dilacerava os pulsos
Arregaçava os punhos
Abria com força os olhos pregados da noite de insônia.
Desejo de carne
Com uma saliva espessa e persistente.
O coração dizia: contraia-se.
Não era ela que estava apaixonada, era, antes de todos, seu corpo.
Amor. Orgasmos quentes.
Faltava paixão ao mundo.
3 de dez. de 2009
O Senhor Puntila e uma epifania
Era uma chuva quente e abafada. Seus olhos marejados, os pés fixos no chão, as mãos enfiadas no meio das coxas.
- Meu Deus, como essas pessoas todas falavam.
Os vidros permaneciam embaçados, o barulho da água incessante, tudo parecia tão violento. Mas dentro desta sala, só podia ouvir todas aquelas vozes, quase que ofegantes. Quase pedia a eles:
- Mas respirem antes de falar.
***
E pensava nele, pensava em si mesma, seus planos, suas confissões, confusões, entregas, mentiras, tudo aquilo que formava a nuvem de poeira que cobria seus olhos e paralisava as mãos.
Sim, como uma tempestade de areia, um redemoinho de pó cinza, escuro e areia fina.
***
Voltou andando pela chuva, com o passo apressado, o coração na garganta, precisava correr, precisava saber, entender, comandar, organizar.
- Sem vulgarizar, por favor.
Mas podia ver, nos fracassos da outra, suas próprias sombras refletidas. Quase sentia-se bem, quase sentia-se completa.
***
Não conseguia prestar atenção no caminho, desviava dos buracos do asfalto alagado sem conseguir prestar atenção nos próprios pés. A sandália de cordas apertadas, os ossos magros vermelhos, as unhas sem cor.A bolsa pendurada em um só ombro.
Quase podia se lembrar daquela época que se andava a pé. Nas madrugadas, nas tardes frias, segurando as paredes, enxugando lágrimas, um fone de ouvido ligado na rádio, passos curtos, um eterno reencontro com si mesma.
Quase sorria. E a imagem de si mesma fugindo e, ao mesmo tempo, se encontrando, parecia tão real. Tão nítida. Clara como água fria escorrendo pelas pontas dos dedos. Os lábios quentes, os pés descalços.
Não, ele não acreditaria. Porque ele não entenderia. Afinal, será que tudo que havia restado era ela, assim, com os olhos baixos e alguma sofreguidão na voz?
Não, não. Não era ele, não era também a menina de olhos arregalados que a viu chegando molhada da chuva.
Não eram aquelas pessoas que não a olhavam nos olhos enquanto ela falava. Não eram os cargos, os nomes, as cobranças, as mentiras, todos os erros, todas as fugas. Não era aquele gosto do vazio na voz, nos olhos, a raiva incontida.
***
A chuva havia cessado. Só restava nas ruas o barulho, o pó, a mistura de concreto e poeira que invadia seus pés úmidos. O céu furta-cor que não denunciava o tempo dos próximos dias. Tudo permanecia permanentemente incerto.
Amor. Transbordando por todos seus poros.
27 de nov. de 2009
Nove é o numero da sorte?
E naquela noite ela havia sonhado com dentes. E não gostava de sonhar com dentes.
Era supersticiosa e muito frágil. Pelo menos ela gostava de se sentir assim.
Quando abriu os olhos de manhã, e via ele se vestindo, pensava em sua bunda. Quem foi que disse que só bunda de mulher podia ser bonita?
Mas mudou de ideia, isso parecia tão vulgar. E não queria coisas vulgares nessa manhã de sexta-feira, a imagem dos dentes quebrados em seu sonho ainda percorria sua espinha como um sopro quente.
Ela queria não pensar nisso, ou em coisa alguma....porém, era quase impossível evitar.
Em sua vida, seus hábitos, era quase impossível deixar de pensar em algo que não fosse, como dizer, não sabia mais se era positivo ou negativo.
Enquanto dirigia seu carro, quase sentia-se bem, mas ao olhar para os lados achava tudo tão entediante e sujo. Antigo, tudo tinha cara de ultrapassado: as cores dos carros, o escuro-esburacado do asfalto, os cigarros e os pontos de ônibus.
Neste dia, as coisas todas quase saiam do lugar, tudo caminhava naquela linha imaginária que ela inventou para separar um bom dia, de um mal dia.
Quando saiu de casa, o elevador estava parado em seu andar. Bom sinal. Quando entrou, ele subiu até o 12.
Quando chegou no estacionamento o carro estava aberto. Ótimo. Mas a chave estava no pneu traseiro, isso pode ser um pouco irritante.
Não havia trânsito e ela quase bateu o carro para observar um sujeito de grandes óculos de sol que pedia informações a um taxista. Porque raios isso deveria ser interessante?
Absolutamente. Não era interessante.
Mas ela olhava fixamente para o sujeito que gesticulava e parecia até meio baixo dentro de um carro tão imponente. Engraçado, porque homens de óculos de sol dirigindo carros pretos podem ficar subitamente interessantes? Aliás, tinha uma nova teoria para isso: ou estes homens ficam muito mais bonitos do que realmente são ou parecem completos idiotas.
Sempre pode ser uma coisa ou outra, às vezes, as duas juntas. É sempre assim... rá. engraçadona, sei, sei. Bom sinal, ainda tinha algum senso de humor. Muito bom.
Só mudou de ideia quando notou na calçada aqueles três adolescentes bebendo cerveja, na saída da faculdade. Por um milésimo de segundo pode se imaginar em uma mesa de bar de plástico, tomando cerveja em copo americano, com um cara feio e uma colega qualquer. Ficando bêbada, dando risadas aleatoriamente e no final uma conta pra rachar de R$8,50. Sentia-se tão moderna, quase uma mulher de verdade: podia pagar sua própria bebida e bebê-la como homem de verdade, sem vomitar, sem chorar ou falar de ex namorados. Sabe, existiam todas essas regras...
E então começou a pensar sobre todos os esteriótipos de cabiam dentro de si. Afinal, é possível gostar de Nina Simone e Kings of Leon? Lembrou na sequência sobre como detestava essas pessoas que gostavam de Coldplay. Tudo parecia bege. Nude.
O vento quente da rua invadia seu carro, a calça jeans que cobria as pernas pegando fogo. A imagem refletida no retrovisor. A moto estridente ao lado. A música que ela gostava-e-odiava tocando no rádio. O barulho que o painel do carro fazia.
Um estranho vento quente lhe subia a espinha, tinha algum motivo, hoje ela não seria 100% feliz porque....ahh, dentes. Claro. Efetivamente podia não ser um bom sinal.
cre-ti-na (isso porque não sabe separar idiota em sílabas)
Isso não tem nada a ver....dentes, já havia sonhado com dentes tantas vezes...até parece...uma vez, e faz tempo, ainda havia aquela nuvem do passado sobre sua cabeça, seus dentes explodiam na boca.
(respiração profunda) (estava aprendendo)
Cartola, porque aquela música era tão triste? E porque ele gostava de músicas tão tristes? Ela procurava em seus silêncios as peças que formavam o quebra-cabeças que era sua vida. Pois ele não gostava muito de falar, especialmente se este falar tivesse a ver com...ele..
E ela tentava se justificar, tentava ser especial, tentava alcançar seu afeto e sua aprovação. Então ele a abraçava, e ela suspirava em silêncio. E ele não podia notar, porque ela já tinha se acostumado a viver no escuro. E era assim que ela se sentia mais forte, ironicamente.
Mas as pessoas iam e vinham. e sua irritação crescia no mesmo ritmo do andar de pessoas do estabelecimento. E quando notou, estava irritada, falava alto pelos cantos, segurava a alça da bolsa com toda sua força, quase rangendo os dedinhos.
Foi quando a garçonete entrou. E ela trazia dois pratos de comida na mão. Um deles encostava em sua barriga e a pasta branca roçava seu avental azul, que escondia sua pele flácida e suada.
Mal conseguia comer. Você sabe, não se pode ter tudo na vida. Mas comeu. E mastigava lentamente o bolo úmido... e de repente descobriu porque engolia tão rápido, sentir aquela massa quase líquida se formando em sua boca...
Pediu uma água de côco que veio quente.
Colocou os óculos de sol no rosto (não, não eram aqueles modelos wayfare da moda). Voltou a passos lentos pela calçada, pensando na sapatilha que quase se abria na traseira: preciso arrumar, preciso colocar nesta minha lista interminável de coisas para fazer.
Tanto a se conquistar, tanto a se descobrir, tanto a se aceitar, tanto a se mudar.
Estava quase feliz de pensar que só faltavam poucas horas para o dia terminar, e ela poderia ler seu livro mais novo livro. Não poderia ser acaso, e pensar que ele entedia isso, a fazia imensamente feliz. (Solicito aos leitores que imaginem aqui alguns corações com glitter piscando, grandes e pequenos, naquela vibe MSN de adolescente)
Dentes, dentes, dentes. Uma grande borracha verde, bebês sorridentes, muita felicidade. Respiração profunda.