24 de fev. de 2009

Tarologia

- Eu digo cale-se.
- Ãhn?
- Eu to cagando pra balada.
- Cagando onde?
- Não é onde, é pra quem...ou pra que..Sei lá, vc entende?
- O que?
- Eu cago pra isso tudo de balada e festa e night e todas as merdas desse tipo. Veja bem, não troco minha cama por nada, nunca acho que estou perdendo algo sensacional se simplesmente preferir dormir.
- Uhmmm
- E você?O que acha?
- Acho do que?
- Disso, oras...que merda, presta atenção...Acha que isso é algum tipo de depressão? Tipo, assim, não querer sair e preferir dormir ou ficar sozinha?
- Acho que é uma fase.
- E?
- E que você é louca.
- Ahh, tá, fala uma novidade. Me passa o café, por favor. Só o adoçante, aliás, quero aprender a tomar café puro, forte. Mas como estava dizendo, assim, posso ter um problema, sabe?
- Eu gosto daquelas bolachinhas e água com gás antes do café.
- Jura?Isso me lembra o ... Lembra dele?
- Não.
- Claro que lembra, pelamordeus você, hein...Mas sério, acha que tenho problemas?
- Sim, muitos.
- Me sinto deslocada. Me salva?
- De você mesma?
- Não, me salva de tudo. Até de você eu me encho na maior parte do tempo.
- Isso foi pra me ofender?
- Não, acho que na verdade foi um elogio.
- ?
- Assim, se falo assim com você, tudo que penso e sinto é pq eu te amo.
- E desde quando você considera intimidade um bom negócio? Até....
- Ai caralho. Você não aprendeu ainda o quanto sou castradora.
- Não acho que você seja, mesmo porque...
- Sou, sou sim. Castradora, egoísta, egocêntrica.
- Louca. Tá me dando tédio essa conversa.Que tal se você só me beijasse?
- Não posso. Não consigo. Sou complusiva por idéias e pensamentos.E tenho que externalizar isso de alguma forma, então falo sem parar. E não posso me conter.
- Então fale.
- Mas eu não quero falar!!!Quero que vc me responda! Você acha que tenho algum problema?

- Ai Cristo, diz enquanto olha para mim com olhos obliquos, quase fechados e sim, lívidos.

Pega um cigarro entre os dedos e me pede o cinzeiro.
Eu entrego sem muita convicção, se é que seja necessário...

- Tá bem, eu digo. Pode perguntar.

Diante do inevitável me assusto. Finjo uma atitude surpresa. Sento-me sobre seus joelhos, olho para cima e dou um trago no seu cigarro. Coloco-o novamente entre seus dedos.

- Você me acha chata?
- Às vezes.
- Quando por exemplo?
-Uhmmmm...assim de supetão não vou lembrar...

Tamborilo os dedos na janela, fingindo impaciência.

- Tá, como aquela vez que fomos ao cinema e você não parava de falar sobre as coisas que tinho lido sobre o filme tentando me impressionar.
- E consegui?
- O que?
- Te impressionar!
- Ahnnn, não. Achei meio patético.

Fecho levemente os olhos. Continuo.

- Você me acha bonita?
- Sim.
- Sempre?
- Especialmente quando você acorda.

Sorriso com o canto dos lábios, fingindo modéstia ou timidez.

- E gostosa?
- Também.
- Também o que?
- Também acho.
- Muito?
- Ahhh, sei lá. Gostosinha.
- Gostosinha? Pergunto enquanto ajeito a blusa tentando levantar os peitos.
- Eu gosto dos seus peitos.
- Cala a boca.

Ele me puxa ao seu lado e tenta me beijar enquanto eu deslizo pela beirada da cama. Sento-me de costas e acendo um cigarro. Gentilmente ele me oferece o cinzeiro.

- Sou muita chata. Chata, chata.
- Você só precisa relaxar.
- Relaxar?Repito enquanto inspiro e expiro profundamente. Ahhh, sim, pq não me disse antes?
- Eu já disse, só que você não ouve.
- Me ensina a te ouvir? Digo enquanto me aproximo para beijá-lo.
- Vou te ensinar a se calar.
- Uau, adorei. Fala assim de novo?Só que acrescenta um palavrão aí.
- Você é pirada.
- Isso é bom?
- Na maior parte do tempo.

Suspiro. Olho bem em seus olhos pensando em como consegui aquilo.
Ele me olha com as mãos, me puxando novamente ao seu lado.

- Sabe, não te contei, ele diz.

Continua:

- Lembrei de você outro dia. Estava passando...

Eu adormeço em seus braços sem conseguir ouvir o final da história. Sonho com castelos, casas, terra, muita água e uma luz azul que cobria nossos corpos. Incandescentes, flamejantes dissolvidos em um pó cinza, leve e fino. Uma fumaça suja, preto-fuligem espalha-se pelo ar. Combustão. Finalmente.

20 de fev. de 2009

Sexta-feira da paixão

Estou, tipicamente, ansiosa, mas hoje com um agravante a mais.
Claro, não vou dizer o que é. Mas tá aqui preso na garganta. e escorre lentamente pelo corpo todo.
Claro que quero dizer tudo, pular de cabeça no asfalto quente, só para sorrir depois com boca e sangue e dentes para você.

Meu Deus, tenho chamado tanto Jesus esses dias que sei lá. Me pego pensando se tudo vale a pena, se você vale a pena. Se, nossa, não consigo parar. Compulsiva, ansiosa, dramática, louca, insensível. Pq penso assim?
Eu. de mim. para mim.
Como poderei fazer algo para você se nem ao menos consigo te ouvir.
(dou um grito ensurdecedor)
e saio corredo pela avenida, correndo, correndo.
Acho que to precisando de sexo para liberar energias.

13 de fev. de 2009

A outra (por myself)

Analisava esteticamente. Superficial, por isso em tópicos.
Didaticamente:

Cabelos Loiros

Não! Eu não sou você, não. isso é só eu te vendo de fora de você mesma, para não parecer banal.

Caraca, meu!!! Vamo se joga na balada hoje! Tipo, c tem um ácido? Ou, sei lá, descola aí um pó (alguém conhece aí uma gíria pra usar no lugar de pó?), nossa, cara, c nem sabe ontem, preciso te contar tuuuudo, amiga. Não, te amooooo! Vamo brisáaaaaaaaa.
É, ou, ainda me perguntam: Por que você não fica em casa?

Ou, ela é mó invejosa, certeza. Viu o Orkut dela?Mó idiota. Porque meu pai, aí ele me disse:

Tipo: Cadê o (xxxxx)?
Assim, né meu?Eu respondi:
Tipos, pai: Nem quero nada com ele.

Pai:
Isso mesmo, filha, ele não te merece.
Nuvens, nuvens. (Ele não te merece, filhinha, porque ninguém te amará mais que eu. Que sou másculo e forte e sei de tudo)

Ai pai, me defende.

Mas, assim, né? Descolou o pó?Porra, vamo de bala, quero ficar fucking crazy. Vamos tirar uma foto?
Nuvens, nuvens (Isso, de cima, olhando pro lado. Meu peito é fudido, caralho, é ótimo ter peitão)

Meu, não olha, não olha.

Porra, meu. Falei pra vc não olhar. é ele.

Tipos, vou ao banheiro. Meu, fica aí e vê se ele vem falar com vc.

Não, penso, não, penso, não, penso.

Nossa, gataaaaaaaaaaaa. Qq vc ta fazendo aqui? Hahahaha, claro que vou na festa. Ta loca? Assim, casa? Rá...casar, pode crer, engravidou...mas sempre foi biscate...ai, claro, amiga. Te ligo, ta? Não some! Me manda um scrap.

Ahhh, vc por aqui?Eu vi você, tipos, eu vi. Eu te vejo o tempo todo, pra onde quer que eu olhe. Por que minha vida tem super sentido, e eu gosto de martnália, mas gosto de Alice in Chains, só pq vc...Mas vc...escroto.

Ele respira, para sucumbir. Mas só existem nuvens e nuvens.

As mãos estão trêmulas: Poética

Olhos podem ser lívidos?Por que não consegue mais escrever poesias?O que se perdeu?Talvez tenha sido quando desaprendeu a perdoar, se é que alguma vez soube.
Quando começou a ponderar tanto as coisas?E achar que literatura eram posts e escrever obrigação e linguagem algo que pudesse ser adequado à necessidade?
Por que regras gramaticais sempre bloqueavam o processo criativo.

Será que ninguém seria jamais capaz de compreender que certas coisas não se aprendem? Que, para certas coisas na vida não é preciso ter regras ou manual de instruções?
Coisas. Paixões, destino, coincidências. Frases curtas.

(IT) tentava se superar, fugir de seus próprios lugares comuns. Porque sentia nos seus textos, assim como sua vida, uma grande repetição. E só de pensar nisso, continuava repetindo o mesmo erro. Claro, havia uma certa lógica, isto é, se conseguisse enxergar a longo prazo.

Ciclos.

O ciclo dos treze anos. Igreja.
O ciclo dos catorze. Hi-Fi.
O ciclo dos quinze. Árvore.
Aos dezesseis. Sexo.
Aos dezessete. Pizza+motel. Sim, paredes salmão.
Aos dezoito. Nova Iorque.
Aos dezenove. Mentiras.
Aos vinte. Ônibus.
Depois perdeu as contas.

Hoje. Edição de texto.
Hoje. Por que é sempre hoje e o hoje nunca acaba.

Mas não queria falar sobre nada disso. Queria escrever. Como sempre quis, queria algo que não estava em si. Nem na madeira, nem nas traças, nem nos seus silêncios. Muito menos no pão, ao alcance de seus pés. Além de onde sua vista alcançava. Por que sempre havia muitas paredes cerqueando o pensamento.

Um dia, deitou-se no chão. Fechou os olhos. Porque o céu era tão assustador?Com nuvens e uma imensidão que fugia ao seu controle. tudo continuava parecendo pequeno. Mesmo o infinito e todas suas idiossincrasias eram banais. Por mais que se esforçasse sua vida nunca chegava ao clímax.

Um texto pode ter sim:

começo-meio-fim.
Introdução-dois argumentos-alguma parcialidade-uma conclusão que retomasse o começo.

Mas sua vida não seguia nenhuma lógica. Claro, seguia: Paixões, destino, coincidências. Mas com frases curtas não havia conclusão.

Morte. (Angústia de quem vive, solidão de quem ama). Não, não coloque aspas. Não, não indique referências, copie deliberadamente. Quem inventou que não posso copiar? Se minha vida é uma grande repetição de si mesma, por que não posso imitar, reinventar, emular?

Meu DEUS (CAIXA ALTA), digo. Quer que eu repita? Os gregos, já diziam, e diziam tanto e tanto. Pode se viver uma vida toda, sonhando com a glória, mas ser só (pausa) medíocre.

Retórica nunca levou ninguém a lugar nenhum, sério.

(heresia)

Sim, como a linguagem pode ser simplesmente reduzida a Bechara? Sabe quem é Bechara? Não se importe, juro, não faz a menor diferença na sua vida.

Mas quando via alguém moreno-cigarro em punho-uma cerveja em um copo americano:

Cara, essa é propaganda, lembrei de nóis. Carnaval é coisa de gente besta.

Ou

Uma foto de si mesmo (o outro, é uma história, tá?) no jornal, enchia o peito de orgulho e batia as asas e balançava o rabo (pensei num pavão, veio um cachorro, fazer o que?)

Meu DEUS, sentia um acréscimo de estima por si mesmo (Ãnh?Isso eu sei!) e pensava que pessoas vaidosas e egocêntricas e autoritárias não podiam fazer nada além de manipular a massa. O Povo.

Se Aristófanes e Ivete Sangalo podiam falar em nome do Povo, por que eu não posso?

Ivete Sangalo mostrando seu camarim-exclusivo-high tech-na TV:
“Sabe porque eu tenho TUDO isso?Por causa do Povo, só por ele.”

Agora sim aspas, para não deixar dúvidas.

Devo concluir o texto retomando o começo, pensou. Mas aí teria que saber se olhos podem ser lívidos.

Dostoéivski diria que sim. Mas e Bechara?

9 de fev. de 2009

feiras e seus hífens

Era uma tarde de sábado chuvosa e quente. Ela tinha uns grandes olhos castanhos amendoados.

Olhos para comer. Mãos para ver. Uma dor deveras fria para sentir.

Sentada, observava a chuva que nunca atingia sua rua, não alagava sua casa. Resumiasse somente a um barulho distante, estridente, quase bom para dormir, se ela conseguisse fechar seus grandes olhos.

Ajeitou os cabelos para trás, pensou em ler um livro, olhava o teto branco. Não, nem pensava em nada demais. Se é que pensava em alguma coisa. Estava, simplesmente. Não era, não existia, não possuia.
Porque para ser deve-se possuir alguma coisa, não? Um colar de pérolas, um anel de prata, sapatilhas vermelhas, um gadget qualquer, uma saudade, um desejo, uma verdade.

Levantou-se, foi em direção ao espelho. Experimentou um par de calças velhas. Pintou os lábios com um antigo batom vermelho cheirando a mofo. Pendurou grandes brincos de madrepérola. Ficou sem blusa, prendeu os cabelos, acendeu um cigarro e abriu, uma a uma, todas aquelas gavetas e livros e pastas.
Sentou-se no meio de tudo, envolvida por muito pó e fantasmas que não existiam.

Espalhou cartas, bilhetes, memórias, fotografias. Olhava para tudo com grande afetação e um certo sentimentalismo grosseiro. E se fizesse um ritual? Dançando nua em volta, enquanto ateava fogo à todo aquele silêncio que vinha da chuva lá fora.
Ainda se chovesse dentro, e toda essa tempestade acontecesse dentro daquele quarto de paredes borrentas. E seu peito partisse em dois.
Mas não, só uma brisa morna e seus grandes olhos céticos amendoados garantiam alguma vida àquele estúpido lugar.
Ela se animou. Estúpido.
Sim, lugarzinho de merda.

Não conseguia mover-se. O cigarro se auto-consumia no cinzeiro. Começou a sentir-se mal. Sufocava, engasgada pela própria respiração. Vontade de se rebelar. Declarar guerra contra si mesma.
Consciente x inconsciente, ela não sabia que lado lutaria. Quem era o mocinho dessa história? Animus poderia ser o vilão?

Sua vida era uma eterna fuga contra o presente, e um gosto de ressaca amargo de um passado que nunca cicatrizava.
Vivia vizualizando esse momento pós-hoje que seria mágico e perfeito como ela merecia.E, então, todas as noites, deitada em sua cama, permitia-se acreditar nisso por 5 minutos até pegar no sono.
Mas seus sonhos eram repletos de labirintos e caminhos que ela desconhecia, mesmo em seus sonhos ela fugia da chuva e da água que insistia povoar seus cenários inconscientes.

E, assim, o futuro nunca chegava em sua casa, em seu quarto, sua cama.
A culpa era sua, mas suas mãos estavam atadas e seus grandes olhos amendoados serviam só para comer, não para enxergar através da janela que permanecia fechada.

31 de jan. de 2009

Verdes campos, flores, amarelo, furta-cor

Ele tinha os cabelos compridos no passado. Achava-se muito especial, parecido com o Jim Morrison. Todavia não sabia o que era ayahuasca, nem sabia da predileção de Jim por Rimbaud.
De qualquer maneira era um rapaz inteligente. Talentoso e autodidata, intolerante e com um ar meio apático que fascinava as mulheres, meninas ou mães dos amigos.

Não tinha preconceitos. Gostava de loiras, morenas, nordestinas, ruivas, negras, até mulheres grávidas (e casadas). Se tivesse um pouco menos de orgulho próprio seria michê, mas não queria ser redimido a simples objeto sexual. Sabia que as mulheres o procuravam pelo pau sempre duro, pelos cabelos despenteados, pelo jeito de beber, por aquele jeito de falar sem se importar e uns olhos infantis.

Gostava de falar, mas não gostava muito ouvir. Passava por aquela fase niilista e existencialista que todos os jovens do mundo deveriam passar em algum momento da vida. Queria ser funcionário público só porque não gostava de trabalhar e ainda acreditava naquele lance de drogas como inspiração artística e toda aquela história de portas da percepção, apesar de nunca se lembrar de Willian Blake.

Gostava de acordar de ressaca. Gostava das fugas, de não ter responsabilidade. Procurava alguém que cuidasse dele.
Mas toda vez que isso acontecia, ele fugia. Um pai que o bancasse, uma mãe que preparasse almoços aos domingos, uma mulher que dividisse planos de se mudar para Europa para conhecer Budapeste.
Nunca conseguiu nada disso, buscava nas sarjetas, em garrafas de vinho barato e em todas as bucetas da cidade algo que nunca teria.

Fumando um cigarro atrás do outro, em frente a uma árvore centenária do centro, cumprimentava mendigos e traficantes, apesar de não ter a menor consideração por nenhum deles.
Começou a chover e ele não se moveu. Sentiu as primeiras gotas e o vento morno cortar sua pele.
Tinha feito a barba.
A água não apagou o cigarro. Algumas gotas caíram dentro da garrafa do vinho vagabundo. Sua mente estava confusa, culpa, medo, orgulho próprio, auto-suficiência. Intransigência. Algum pavor.

Fuga inconsciente, inerente. Era sagitariano com ascendente capricórnio, que merda. Ele cagava para isso de astrologia. Só ouvia sobre essas coisas se isso garantisse uma foda muito boa. Mas estava cansado de todos os tipos de jogos, especialmente os sexuais. Achava punheta coisa de moleque à toa. Sabia muito bem que as pessoas tentavam justificar suas fraquezas, medos, traumas por meio de uma vida sexual ativa.

Que se foda essa merda toda, só queria sexo se fosse com uma puta bem suja, dessas que vivem na sarjeta e dividissem um dose de conhaque e um cigarro vagabundo com ele.
Queria a vida pelas ruas, vivendo à margem da sociedade. Mandar toda aquela merda de cidade, bons costumes, moral, pra casa do caralho.
Cuspir em um altar de igreja. Lembrou daquela foda em um confessionário quando tinha uns 15 anos. Expulso mais uma vez daquela escolinha de merda.

Sua mente voltava-se até aquela cidade do interior cheia de puritanismo, catolicismo e gente medíocre, verdadeiro reduto de bêbados, maridos infiéis, mulheres sedentas por sexo anal.
É, quanto mais cristão e subdesenvolvido, mais vontade de dar o cú. Deu mais um gole na garrafa de vinho.
Bela idéia, mas não era sua. Só achou engraçado se lembrar disso. Não era bem engraçado, mesmo por que ele odiava pessoas felizes e idéias divertidas.
Rituais, celebrações. Seu maior fetiche era fazer sexo em cima da mesa de Natal. Entre passas, taças, arroz, abacaxi, peru, ervilhas, toalha vermelha.
Jogar tudo pro chão, salvar só o molho do peru e rolar pelo carpete encharcado de molho, suor, entre tapas e orgasmos.

A chuva havia cessado, mas ele mantinha-se em pé. O vento estava um pouco mais gelado.
Queria voltar pra casa, dormir na sua cama.Porém, sentia-se como um intruso e seus lençóis eram muito quentes e limpos para alguém como ele.
Decidiu não voltar. Tentou ligar a cobrar para alguns ex-amigos. Ex-namoradas. Não que quisesse mesmo falar com algum deles. Queria só irritar alguém, ouvi-los o chamando de baixo, imoral, escroto, insensível.
Sim, sou vil e ignóbil.
Por um instante sentiu-se muito bem com a idéia. Jogou o celular contra a parede.
Mas logo se arrependeu. Como ouviria música? Que som abafaria sua própria voz, que insistia em ressoar pelo seu corpo inteiro?

Se fosse mulher choraria, mas odiava tudo aquilo e nunca teve muitas lágrimas. Essas putas modernas que assistem "Sex and the City". Isso mesmo. Putas. Todas vagabundas, vendiam-se por tão pouco.
Queria mesmo uma estrangeira, que não falasse porra nenhuma. Estava cheio das aspirações medíocres dessas mulheres todas que o cercavam.

Começou a andar. Seguiu até a São João.
Cambaleante, não olhava o movimento da rua ao atravessar. Era sim, muito prepotente, onipotente e egocêntrico. Sabia disso, sabia também que havia tido problemas na infância. Subiu em uma grade. Virou toda a garrafa de vinho. Jogou o vidro do outro lado da rua dedicando à Freud. Tentou acender um cigarro, mas o vento estava forte e o isqueiro não conseguia manter a chama. Entrou no primeiro bar que encontrou e pediu ao garçom que o ajudasse.
Saiu no mesmo instante. Bar de merda. Sujo, engordurado, com velhos bêbados e prostitutas com boca aberta e pernas flácidas.
Queria era jogar bilhar e ouvir Sabbath, mas não tinha nem um puto no bolso.
Resolveu voltar pra casa.

Abriu a porta com dificuldade. Mijou com a porta aberta. Sim, havia alguém acordado, mas ele não se importou em ver quem era. Pegou o violão, rascunhou algumas músicas, procurou alguma cerveja esquecida na geladeira.
Não havia, mas se lembrou de um resto de uísque que estava no armário da sala.
Tomou banho com a garrafa na pia, trocou de roupa. Ainda bem já havia feito a barba.
Comeu algumas bananas que estavam na geladeira.
Saiu rumo ao ponto de ônibus com o rosto quente, sem sensibilidade nas mãos, com o pescoço suando. Não se lembrava de qualquer coisa da noite passada.
Sentou no fundo do ônibus. Cochilou e sonhou com estátuas, pinturas renascentistas e alguns amigos da infância. Beijos na boca e o cheiro de alguém que ele havia esquecido em algum ponto de um passado recente.

29 de jan. de 2009

Pet Shop

Ontem eu deveria escrever. Deitada na cama, queria ler, ver, assistir, escrever, engolir, falar, fumar, mas mantive-me deitada. Quase como se estive cansada.
Saudade de quando ainda valia a pena chorar ou simplesmente apagar a luz e ficar em silêncio. Alguém, por favor, avisa por aí que eu fiquei invisível.
Mas não, não era essa a sensação. Era algo pior, como se fosse um tesão incontrolável, orgasmos múltiplos, aqueles segundos que antecedem o clímax. Mas não tinha sexo, por que não era bom.

Sabe aquela vontade de vomitar?Não, também não era isso. Fugir muito menos.
hahahaha
passou longe.

Vontade de escrever algo super poético e profundo, contemporâneo, mas de que adianta se não sou capaz de criar uma peça de mkt dirigido?
Nunca desistiria, nunca levantaria assim, com uma desculpa qualquer e fugiria da página em branco. E depois, sentada com paredes, e páginas e telas e tanta a coisa a ser preenchida ao meu redor, não quis escrever. Não que não pudesse, posso. Só não quero mais falar sobre as coisas que eu sei, isto é:

Não quero, cansei. Porque tudo é tão relativo? A partir de agora só quero verdades absolutas na minha vida.
Você me ama? Amo. Então, acredito.
Você escreve bem? Sim, muito. Eu já sabia.
Você é autoritária? Claro que não. Unanimamente democrática. E toda unanimidade é burra. (Ponto) (Verdade) (Conceito?)

Tá, aí né. Hoje acordei. E me deu assim uma vontadezinha de chorar, cara foi da hora. Seria legal derramar umas lagrimazinhas assim, disfarçando com o óculos de sol, enxugando as gotinhas de sal silenciosas que iam estragar o rímel e o blush.
But, não chorei.
É, sai, fui pra rua, o telefone tocou e eu esqueci que tinha que chorar. E fiquei bem puta, porque ainda quero, mas não to com vontade.

Liga aí pra mim, diz uma bobagem qualquer pra me ofender, só pra me dar esse prazer? Mas liga tipo à tarde, umas 3, 4 horas. Porque aí, além de chorar, vou ter uma desculpa pra dar uma voltinha no quarteirão e fumar um cigarro.
Pô, faz esse favor, vai?

22 de jan. de 2009

Obama

Sim, eu também vou escrever sobre o Obama, pensou enquanto ruía as unhas em frente ao espelho.
Porra, momento histórico do caralho. Um negro, pra ser melhor só se fosse um negro muçulmano. Caralho, caralho.

Sentada no bar não lembrou de falar sobre isso, mas nossa, o que foi aquele vestido verde abacate da primeira-dama?Ai vida miserável, essas americanas novas ricas, nenhuma tinha a classe e requinte de uma Carla Bruni. Ahhh, sim Jack Kennedy (bocejo).

Bem, mas Obama estava ali, a página em branco, sentiu-se parte da história viva, preciso escrever, deixar registrado que era sim politizada, e não pensava só em Big Brother, indicados ao Oscar, corridas, sexo, pequenezas do trabalho e picuinhas como unhas roídas.
Tentou simular uma epifania, uma mudança no curso do texto, pra poder fugir com alguma sutileza do assunto.
Não, não.

O-BA-MA.

Mas quer saber, achou uma bosta aquela festinha da MTV, flashes de celular, uma valsa não ensaiada, trilha sonora fraca. Depois de tantos anos assistindo produções róliudianas astronômicas, aquilo parecia um filminho de Bollywood.

Plim.

Será que isso foi um sinal, uma dessas mensagens subliminares que a MTV transmite em suas vinhetas?
Pensa só, um negro no poder. Um negro revolucionário. Muçulmano, democrata. Começo de uma nova era para o planeta. Fim de antigas convenções, novas perspectivas, uma nova maneira de olhar o mundo.
Depois de tantos anos enxergando os Estados Unidos pela ótica da indústria parcial-hipócrita-maniqueísta dos roteiristas de Los Angeles, será que a posse de Obama não foi representada propositamente para indicar o fim da hegemonia americana da maneira que conhecemos até hoje?
Um produção simplezinha: Ei, muleque, se toca, tudo aqui é real. Você tem que se emocionar sem trilha sonora, sem um grande roteiro fake. Ele é o cara e chegou pra ficar.

OBAMA é presidente.E antes de ser americano, é negro e muçulmano. Poderemos dormir, conversar com amigos nos bares, ir de ônibus ao trabalho e até entrar na fila pelo novo iPhone (Steve Jobs lives!), viver nossas vidas tranquilamente sem achar que Bush invadiria a Venezuela continuaria no Iraque ou montaria bêbado em seu cavalo atrás de índios paquistaneses, ops, camponeses, ops.

(sic, sic, não pude evitar)

Sim, ele podia estar atrás de você nesse momento! (Tinha que colocar aqui aquela fotinho do Tio Sam, né?)

Barack é antes de tudo um cidadão do mundo.
Vamos comemorar sua vitória assistindo a filmes iranianos. Vamos tomar um pisco e comer um lanche ali no Habib's. Tomar nossas brahmas pensando o quanto acreditamos em Deus e não desistimos nunca. Encheremos nosso peito de orgulho, aiaiaiai. Sim, sim.

Até a próxima guerra, até a próxima bomba, até o próximo conflito. Até a próxima ameaça mundial.
Por que você sabe, né?
Ele é cidadão do mundo, mas antes de tudo humano, demasiado humano.
E nunca confie num humano tanto assim, já dizia Will Smith.

OBSERVAÇÃO: Medo, mas medo mesmo na vida agora só do Tom Cruise cientólogo. Tipos, ele come placenta. se fecha.

9 de jan. de 2009

As novidades mais quentes da última hora

Não sinto vontade de falar, espero o tempo passar. Sereno, calado, qual era mesmo aquela palavra? Lânguido, lânguido, tinha esquecido que sabia o que era isso.
Como naquele dia que te contei sobre vaidade e escrever um livro todo com impressões inconscientes e você achou do caralho, e eu enchi meu peito de orgulho porque você tinha concordado comigo, fiquei me sentindo tão especial e olhando para você enquanto pensava o quanto você iria se arrepender de não ficar comigo. Onde encontraria alguém que falasse sobre tudo que você gostava de ouvir assim?
Lembrei que você sempre me esperava no bar com um copo da minha bebida favorita, e ria quando eu dizia que gostava de blood mary.

Como ontem, conversei com essa pessoa e enquanto ela falava eu só ficava procurando atos falhos e defeitos, e um certo rancor me fazia ranger os dentes. Será que ela notou? Será que ela sentiu? Porque às vezes desejamos mal para as pessoas sem ter a intenção, sabe? Ou talvez a intenção seja a pior de todas...
Queria ser como ela, assim, articulada. Ou aquela outra amiga minha, que conheceu Singapura e a Malásia, e ainda tem covinha na bochecha.
Caralho, sempre quis uma covinha. É algo meio a pinta da Cindy Crawford.

Sim, alguém entrou no msn agora, pensei que podia ser você. Como penso toda vez que chego em casa que você poderia estar lá me esperando. Ou deixado uma carta com meu porteiro, você é tão old school que me mandaria uma carta, não um e-mail.
Mesmo que fosse algo para me xingar, sabe? Eu poderia ainda sentir sua respiração ofegante e seu hálito quente e. Eu te mostraria novas músicas francesas, só pra você rir de mim e dizer que acha tudo uma bosta. E eu poderia encher minha casa de alecrim, como naquele texto do Caio Fernando Abreu, ou eu poderia ter um janeiro cheirando a pêssegos e incensos, exatamente como os dezembros da Lorena. E passaria uma água de cheiro como Gabriela.
Mas com você eu não precisaria de nada disso, porque você gostava do meu cheiro e gostava de sentir minha respiração.

Eu sei, tá uma merda esse post. É porque não é um texto, é só um post de um blog. E me sinto especialmente inspirada para dizer coisas não interessantes hoje.
Não quero pensar, só existo. Ignobilmente, pusilânimamente (uhuuuu), perdidamente afogada em mim mesma, adormecida dentro do meu próprio peito. Não vivo, não pertenço, não me ausento, porque para sair teria que ter para onde voltar. Não sei nem bem o porquê deste vazio sem gosto. Espero que os dias passem devagar o suficiente para que não sinta aquele vento que bate quando se está em alta velocidade.

Vou ao cinema hoje, para assistir aquele filme, aquele novo de um diretor antigo. Você não sabia nem quem era Pablo Neruda...
O que mais você não sabia mesmo?

Minha visão turva-se, olho minhas mãos marcadas pelo sol, anéis agressivos, as unhas, malditas unhas. Por que você é melhor que eu?
Pareço tão inadequada à cadeira, a carne descolada dos ossos, a pele não resiste, mas os cílios são longos. Os dedos não sabem para onde apontar e os olhos não conseguem enxergar nada sem ser através de lentes multicoloridas. (Objetivo de 2009: comprar óculos 3D. sei lá, podia ser um relógio cor-de-rosa e aquelas geléias gosmentas que ficam marrons no final. Vende na FNAC. Garanta o seu agora mesmo. Está esperando o que?)

Sim, você não entenderia. Sujeitos herméticos, você sabe? Acho que não, você só falava sobre....sobre...sabe que me esqueci? É assim que as coisas começam?
Eu já deveria ter aprendido. Com você não tem mais graça.

7 de jan. de 2009

Não leia, já sabe, né?

O coração parece tentar sair espremendo-se pelas minhas artérias. Fugir, parar de bater, sossego, um descanso, uma pausa.

Olho através da janela o dia ainda claro, a palmeira, ou coqueiro, movimentada pelo vento. Esse ar todo de verão me enjoa, pessoas desfilando suas novas ou velhas roupas. Seus sorrisos e patéticos óculos de sol e que mais? Pastas, muitas pastas.
Estranho, um coração que bate na garganta. Qual será o meu problema? Ensaiei coisas que eu deveria dizer, decorei todas as coisas das quais deveria te acusar, me martirizei com minha culpa e desculpas.

Sonhei que sim, você ainda pensava em mim. Esperei sim, que você notasse o quanto tudo estava.....esteve o tempo todo diante dos seus olhos, dos meus. Como pudemos?
Como tudo isso aconteceu? Me pergunto, de qualquer maneira, como chegamos até aqui mesmo? Fugíamos juntos?Ou corríamos de tudo, incluindo um do outro?

Definitivamente você é sagitário com ascendente em capricórnio. Mas decidi, sim, decidi. Em 2009 não acredito mais em horóscopos e começarei a usar presilhas no cabelos, tiaras de princesa e flores de todos os tipos.
Ahhh, vou sim assistir ao Luiz Melodia, e vou também ver até aquele filme do cachorro, pra chorar por algo que valha a pena. Vou a yoga aos sábados, vou nadar na USP.
Olha só, compro várias revistas, livros, encho o mp3 de novas músicas, bebo com as amigas às quintas, volto a ir ao Lapeju, aceito todos os convites que fizerem, até aqueles para videokês na Rua da Gloria.

Belo nome esse, Rua da Gloria, essa rua merece receber um assassinato passional qualquer hora. Chiquérrimo, não?

Organizo armários, livros, limpo janelas, banheiros, volto a comprar a Bravo, me inteirar sobre política externa, preço do petróleo e terceiro setor.
Durmo cedo, procuro na agenda telefones de caras do passado, revejo fotos e passo horas no supermercado escolhendo um novo amaciante de roupas.
Lavo meu carro, fumo, fumo muito.

Mas não abro a janela que costumava abrir, nem bato a cinza no trilho, muito menos acendo meus cigarros com os fósforos da parede. Você se lembra?
Ainda se recorda? De noites e dias, muitas madrugadas, discussões intermináveis pelo telefone, todo meu mau humor, minhas crises, minha paciência, minhas confissões. Você conseguia perceber quando eu te contava segredos?
Eu queria o tempo topo ouvir você repetindo aquele r seu, aquele que não é retroflexo. Como é mesmo?

Sinto novamente uma dor na garganta, esse gosto do estrago, uma certa fraqueza nos braços, o estômago desfragmentado. Revejo os dias e conto tudo novamente. Quantos dias mesmo?
Já é noite e a rua já está suficientemente escura para que eu possa sair sem ser notada. Até por mim mesma.

Mais do mesmo. Mesmo, viu?

Ela tentava esconder de si mesma, mais uma vez encontrava-se fugindo.

Pulsos cerrados, respiração ofegante, olhos apertados. Primeira providência a se tomar, ela já conhecia de cor, acender um cigarro. Sim, vamos todos fumar. Você fuma, eu fumo por que vc fuma e aí quando não está comigo você não fuma e eu acho que a culpa dos seus vícios sou eu.

Meu raciocínio é sempre genial assim, melhor, bem melhor que o seu e a lógica formal que você detesta. E eu detesto tudo em você.

Eu sou uma puta, daquelas bem fáceis, que se vendem por qualquer promessa vazia, qualquer barba mal feita de toque macio. Qualquer segredo ao pé do ouvido, qualquer coisa que você fizesse...

Parei, hein?

Foda-se você, tenho até ânsia de vômito e dor de estômago, tá bem, não vou exagerar....talvez fosse só sexo, quem garante?

Talvez fosse sei lá, qualquer merda, umas dessas coisas que acontecem, destino, astrologia, intuição, Deus, vou colocar até o Diabo nessa lista pra ficar bem cafona.

Mas, veja bem, não sou assim como você, ou uma outra psicótica qualquer. Olha só, tá vendo, deveria estudar um pouco mais de psicanálise. Ela não gosta tanto de você assim, ela só te usa como fuga existencial pra correr das próprias neuroses, por que ninguém ama tanto assim outra pessoa a ponto de esquecer de si mesmo.

Foda-se o que você acha. Foda-se você e todas as suas mentiras e fugas.

Perco o fôlego, aquele gosto amargo do seu silêncio, a garganta seca e um certo pavor reprimido que cresce a medida que você se tranquiliza por não me ter mais por perto. Um fogo me acende por dentro e por alguns instantes minhas veias parecem pulsar ao ritmo inexorável com que você se afasta. Você e suas lembranças, eu e minha culpa.

O gosto amargo na garganta – o estrago - me lembra uma música qualquer, uma tarde de domingo procurando no céu por uma estrela perdida, já deveria saber que isto era um indício.

Queria sentar e te relembrar de todos os bons momentos, cuspir na sua cara tudo que fiz, gritar bem alto que eu sempre tive razão, provar para você que você sempre fez tudo errado. Que eu, e meus valores, crenças, minha falta de moral e de ética, minhas verdades. Eu.

O cigarro acesso...observo inertemente a fumaça que sai pelas pontas dos meus dedos, procuro alguns círculos, como aqueles, sabe?

Mas a fumaça que sai dos meus cigarros não repete seus movimentos, e quanto mais te procuro, mas você se dispersa como a merda da fumaça da merda de um cigarro que me lembra você.

18 de dez. de 2008

Hispano-gregos

Não é mais desejo, é necessidade. Malígna, mal, dramaticamente em silêncio. Mas não posso mais parar, já queimei todas as fases, já falei mais do que deveria. Vou tentar mímicas, sempre funciona. Sim acredito nisso. Acredito em tantas e todas e omnibus.
Até em você, consequentemente, nós. Tão estranho, porque, sim, é um desejo incontrolável de poder. Mas quanto mais posso menos controlo. E se fico absorta e o silêncio.....

Mas não é silêncio, muito menos avós. Tampouco viável. É você, ops, ato falho. e um jantar sábado à noite. e se eu vomitar?Vou aperta forte minha mão?e meus cabelos? vc puxa para trás até que eu caia de costas e consiga ver o mundo por outra perspectiva além do chão?
E se eu pedir por favor? Lágrimas, muitas lágrimas de sal eu prometo. Isso te encherá de rancor e glória?
Veja só, somos exclusivos e importantes. Imponente só você. É, eu acho, estou fechando os olhos.
Não consigo mais, existe fim?Fala pra mim, conta aquilo. Todas aquelas bobagens que você inspira e diz: Você não me conta.

O que me resta, além de tudo que já conheço?Vinícius e suas mãos espalmadas. é de moraes.
claro.
Achou que era o quê?Você é bobo. Desculpe, você é. Sinto muito. Acredite. Por favor, me ouça. Não, não. Só me toque. Não suporto mais esses olhos clichêdianos-machadianos. Estou sentindo, ainda sou capaz. Não perdi a sensibilidade, não perdi o medo.
Nas verdade tudo começou assim. Um pavor incontrolável. Pressentimento, energia. Merda. nem quero mais saber sobre....
Também não sabia antes, não estou perdendo muita coisa. Talvez seja só Clarice, de óculos, fumando um cigarro. Uma barata cruza a sala, um céu sem estrelas.
Juro, vou fazer um fogueira. Canto uma música em árabe e volto de carona pois não pego ônibus depois das 11 sozinha.

Tá pensando o quê?

6 de dez. de 2008

Fica aí a dica da Marina

Sempre quis responder essas coisas. To me sentindo na Contigo.
Sim, frequento o Leblon e o posto 9.

1 . Antes só do que… to apaixonada. Tudo é melhor que estar só. Fazer o quê?Merda.
2. Minha casa em três palavras: sabão em pó, incenso e torradas.
3. O melhor de morar só: Chegar em casa e encontrar minha amiga ouvindo Tom Jobim.
4. O pior de morar só: Problemas no encanamento.
5. O que não falta na minha geladeira: Comida vencida.
6. Antídotos contra a solidão : TV acabo.
7. As três últimas coisas que comprei: sabonete, água e umas sacolinhas plásticas que roubei do mercado.
8. Quem eu adoraria levar para casa: Minhas irmãs, sempre.
9. Quem jamais vai sentar no meu sofá: o outro.
10. O que ando lendo: Jung , hinos védicos, Plauto, e mais umas coisas que me fogem agora.
11. A trilha sonora do momento: Los Hermanos, Carla Bruni (aliás, alguém sabe onde eu guardei cd?)
12. Uma receitinha esperta: Torradas com queijo branco derretido no microondas.
13. Mania assumida: Limpeza e organização.
14. Uma frase que me move: “Não se importe com o que eu digo, não se zangue com o que eu falo. A verdade do que sinto está nas coisas que eu calo.” (Sei não de quem é, mas é boa...)

PS> Copiei daqui, tá?
http://blogmiojo.com.br/?p=342

3 de dez. de 2008

Sobre como tocar Mozart com uma guitarra

Caminhou a passos curtos e rápidos debaixo da chuva. A bolsa pesada, o jeans com a barra molhada, a blusa respingada de gotas d'água. Foi pensando na maquiagem, se estava com os olhos bem marcados, se ainda existia blush. Chiclete, sim, um chiclete.

Conseguiu enxergá-lo de longe, teve a impressão de que ele também a havia reconhecido, mas desviou o olhar. Melhor assim, definitivamente ficaria tímida se ele a fitasse por mais de 3 segundos. Atravessou a rua a passos quase corridos, um pé atrás do outro, pequenos passinhos desviando das poças de água e lama e todo tipo de sujeira inerente ao asfalto.
Ele gostava dos seus pés, ela pensava enquanto saltava sobre a sarjeta. Por alguns instantes sentiu-se sublime e quase superior. Ele deve estar sentado agora pensando nos meus pés nus, deitados à meia-luz, fumando um cigarro e todas aquelas coisas de liquidificador que Cazuza gostava, apesar dele não gostar de Cazuza.

Sentou-se apressada, olhando vagamente para os lados, nem ao menos um beijo. Nem um abraço. Sentou-se apavoradamente, pensou em acender um cigarro. Droga, não quero mais fumar. É, acaba com a pele e não tenho mais 15 anos.
Falou por uns 10 minutos compulsivamente sobre trabalho, trânsito, lembranças, projetos. Ele a beijou. E começou a falar sobre uma história que levava a outra história e um cigarro que ele acendia. É, fez a barba. E contava sobre seu dia enquanto fechava levemente os olhos ao soltar a fumaça do cigarro. Estava de bermudas, sentado displicentemente sobre a cadeira.
Falava sobre este livro novo que ela deveria ler e ela falava sobre a Rússia e aquele amigo-havia-dito-que. veja-bem-ele-conhecia-o-lugar.sim-já-havia-ido-umas-10-vezes-pra-Europa.não-não-era-meu-namorado. Era bom falar sobre outros caras, ele podia sentir ciúmes. Veja bem, conheço muita gente mais sofisticada que você. Só que acabava desistindo no final, imagina éramos só amigos.

Mais um beijo lento e macio, mãos no cabelo, olhar fixo enquanto as bocas se afastavam. Não, ela não estava acostumada a este tipo de cumplicidade. Mais um gole de cerveja. Foda-se, não precisava dele. Tinha seu emprego, seu carro, sua faculdade, cursos, livros, ginástica, opiniões, conceitos. Não tinha uma ideologia, nem valores morais. Mas que importa? Tinha medo, organização, disciplina, auto-controle, sua vida nunca saia do trilho, sua vida era previsível e silenciosa. Dirigia o carro respeitando limites de velocidade, ouvia som em um nível adequado à vizinhança, bebia somente dois copos de cerveja, dormia às 11 da noite. Lavava o rosto, passava hidratante, fazia as unhas semanalmente, não faltava ao trabalho, limpava sempre a casa e mantinha tudo em absoluta ordem.

Ele colocou o fone do celular em seu ouvido. Conhece essa música? Sim, adoro. rsrsrsrs
Mais algumas risadas cúmplices. Quero dizer, é do caralho.
Olhou para os lados. A chuva incessante, as calçadas entupidas de lixo, o mendigo atravessando a rua, o balcão engordurado, a velha gorda passando ao lado, a mocinha de calça com babados e o noivo de cabelos compridos tomando uma cerveja.
A pilha de bebidas vagabundas distribuídas numa prateleira, a TV ligada na novela, o garçom fumando um cigarro enquanto conversava com o taxista que tomava um café.

Cruzou as pernas e jogou os cabelos balançando a cabeça. Uma amiga fazia isso, ela achava o máximo e resolveu copiar. Sim, vou me alongar um pouco. É, faço yoga. Será que ele acharia interessante?Arriscou o movimento como se fosse a coisa mais natural do mundo, ele assistia o resultado dos jogos do Campeonato Brasileiro. Droga, vou ter que repetir isso até ele notar.

O telefone dele tocou. Ele fez uma cara feia e hesitou alguns minutos antes de atender. Ela demonstrou desinteresse. Começou a conversar com o rapaz-magrelo-cabeludo-sorriso-apático na sua frente. Sim, nesta hora havia alguém à mesa. (Ela esqueceu de me contar)

- To no bar.
- .......
- Te liguei pq vc me ligou de madrugada.
- .......
-Fala.
- ......
- Não, mas.....

Dois minutos depois o celular toca novamente.
Ele se levanta.
Vontade incontrolável de levantar e ir embora, olhar pra trás e procurá-lo até ele encontrar seus olhos e perceber que não estava divertido. É, bem dramático assim mesmo.
Vontade de ir embora. Merda de bar escroto, merda de amigos, merda de moleque, vagabunda, neurótica, cretino.
Ele voltou.
- Imagina, minha mãe perguntando onde eu estava.
Ela engoliu a seco um gole de uma cerveja quente e deu um trago no cigarro que ela havia pedido ao amigo loiro.
Fingir superioridade ou sutilmente ficar em silêncio? Optou por ouvir, absolutamente interessada, às histórias do amigo e rir de uma maneira que pudesse novamente jogar os cabelos para trás. Sentou na cadeira com as pernas cruzadas em x despretensiosamente. Ele passava a mão na sua nuca, oferecia um cigarro.
Cretino, tá com a consciência pesada.

Ela resolveu levantar-se e ir ao banheiro. Não quis se sentar no vaso, muito menos encostar na parede. Em que ponto estava....em que momento havia se tornado.....isso?essa?
Pelo menos não lavou as mãos.
Voltou à mesa e recebeu mais um beijo, olhou para a maneira que ele estava sentado e porra. Que pau esse moleque tem. Será que ela estava com ele só por sexo? Olhou seus olhos, as mãos, ajeitou seu cabelo para o lado enquanto ele falava sobre baixos.
Infelizmente não era só sexo, porque senão seria bem mais fácil, porque senão seria mais simples. Estúpida, mulheres nunca são simples.

Queria deitar no seu ombro, ouvi-lo falando baixinho sobre qualquer coisa e vê-lo acordar assustado por não tê-la ao lado.
Merda, e se ele nunca fosse capaz de oferecer isto? E se ela estivesse fantasiando um tipo de homem inatingível? E se ela estivesse sendo muito crítica? E se isso fosse só medo?E se a culpa fosse dela por não gostar de caras que a elogiassem? É, não havia nada pior do que caras que concordassem com tudo que ela dissesse ou a achasse muito sofisticada por ouvir jazz.
Sair correndo o quanto antes?

Foram embora à pé dividindo um guarda-chuva, ele a abraçando pelo pescoço e com todo corpo debaixo d'água. Era assim que ele gostava.
Na frente do portão, perguntou à ela se estava tudo bem. Ela olhou fixamente em seus olhos e disse que sim, claro. adorei.
Dois minutos depois ele ligou novamente. Quero aproveitar que estou bêbado, vamos combinar. Sempre dizer a verdade e tudo que nos incomodar. sempre, tá bom?
Ela sentou-se na beira da cama, deu um suspiro e achou que ao soltar o ar tudo que estava entalado na garganta fosse sair. Seus medos, fracassos, inseguranças, máscaras. Desligou submissamente com um tom de voz simpático, que estava tudo bem. até sorria!
Foi tomar banho, escovar os dentes, passar hidratante, organizar a bolsa e ler Jung antes de dormir, pensando se pintaria as unhas de carmin ou vinho no dia seguinte.

14 de nov. de 2008

Sentada, parada, não movo as pernas nem o tronco. Esfrego as mãos debaixo da mesa e enxugo o suor na calça,
Olha fixo nele, nela, no outro. Balanço a cabeça afirmativamente algumas vezes, mas não absorvo o que me diz.
O peito agitado, o sangue em ebulição, fervendo. Vontado de chorar.
Vontade de dormir, levantar e ir embora. Apagar as luzes, fechar as portas.
Vomitar. Escrever. Fugir. Correr.
Deliro febrilmente.
Mas entro pela porta de casa e te vejo.
Tomo um banho me segurando no boxe.
Durmo com o caderno aberto no peito e uma caneta debaixo do travesseiro.
Por um momento me odeio.
Te odeio.
Olho o celular ligado.Olho a janela, o espelho, não quero dormir, não quero você.
Queria só silêncio, mas minha surdez me apavora. Minha voz não me alcança, seus olhos não se escontram, e só sinto meu próprio cheiro por toda parte.
Prendo a respiração.
Não te quero mais. Faço uma lista mental dividindo culpas, medos, fracassos e erros.
De que tudo isso adianta?Preciso parar de escrever.

13 de nov. de 2008

Por favor, me dá tua mão

Eu quero falar com você.
Mas estou na dúvida se você está preparado para me ouvir,
Estou hesitante. E se eu não souber o que falar na hora e ficar dando voltas, círculos em volta de uma idéia que não existe, pq se não proferida não é consumada, certo?
Algo não pode existir somente em um plano ideológico, inconsciente. Veja que heresia eu....o ser é, o não ser não é....Ouvi isso faz algum tempo....estava esperando a situação adequada para utilizá-la. Igual a chamar alguém de otário, sempre me vem na cabeça idiota, escroto, imbecil. Mas otário é melhor que todos esses...pq nunca me lembro dos melhores epítetos?
Olha só, hein?Vou dar um trago no cigarro e soltar a fumaça na sua cara. Sou muito especial, fumo só pelo pulmão esquerdo, mas você não acha graça por que não tem senso de humor.
Você me olha meio de soslaio. uau. sos-lai-o
Vc tá ficando careca, sabe?Mas não quero falar de você. Porque hoje já tive uma experiência traumática suficiente para uma manhã de início de verão.
É, to pensado naquele lance de hinos védicos e mesmo assim não consigo me motivar. Só se eu escrever bastante, até o pulso doer, até o ponto que nada que escreva tenha algum sentido artístico, literal ou racional. Aí você vem e me analisa pelos meus textos, que nem eu sei o que significam. Mas você que nem freudiano é, muito menos sabe quem é Yung vai me analisar.
pq minha intuição nunca falha - dirá você num ímpeto vaidoso.
Pq se meu ego me persegue vc não tem super ego. E vc, que tá parado aí do lado não sabe o que é a porra do ID.
rsrsrsrsrs
Desculpe, vc é patético. Especialmente quando enche assim o peito para falar sobre suas crenças, valores, ideologias. Especialmente quando você abre a boca assim para dizer que não tenho.....qual era mesmo a palavra?Limites?Não, não era....mas sei lá, deixa isso....
Deixa você e suas verdades.
Nem queria falar disso. Queria falar sobre os meus planos.
Ficar em silêncio dias a fio, sobre como gostaria de trabalhar em uma fábrica pós revolução industrial. Passar os dias selando embalagens, ouvindo música, almoçando em bandejões. O ponto alto do meu dia seria quando alguém decepasse um dedo, ou quando organissem um motim do qual eu não participaria.
Ficaria sentada do lado de fora, esperando tudo acabar.
E se não acabasse eu podia ir pescar. Claro, eu moraria na Inglaterra. Uma pequena vila, comendo batatas e fazendo sexo na terra, debaixo de árvores de maça.
Teria móveis de madeira, toalhas de renda branca e uma banheira velha.
Meu sonho....eu não teria sonhos. Nem angústias, nem ansiedade, nem convulsões, nem nós na garganta, mãos trêmulas, pés gelados, sangue púrpura, cabelos ralos, coração desconexo.
Viveria à margem da minha própria sombra. E daí? Depois que eu morresse eu iria pro céu viver eternamente feliz, o pastor da minha igreja ou o locutor da rádio diria.
Quem sabe eu visse isto escrito na traseira de um ônibus cheio de fumaça-fuligem-ferrugem que estivesse de saída pra Londres.
Ou num porto sujo com seus marinheiros cheirando a cerveja.
Eu os beijaria na boca.
Sem exceção.
De olhos bem fechados.
Bem fechados. leves. silenciosamente. inocuamente.
Passaria o resto dos meus dias lendo romances ingleses.

10 de nov. de 2008

Sujos de tantas outras paixões

10:00 da manhã.


Em pé, sozinha no meio-fio. Sol. Céu. Um céu azul que você me mostrou outro dia. E eu pensei naquela fotografia que nunca existiu.

As pessoas continuam se movimentando, trânsito, buzinas, pombas, comida, sujeira, gordos, feios, grávidas, cachorros sarnentos, namorados apaixonados, vendedores ambulantes. Velhinhos estúpidos, sujeitos burocratas, advogadas e seus sapatos de bico fino. Uma música ao fundo, um restaurante que cheira a paredes engorduradas, um cuspe no chão, uma rua esburacada, pombas, pessoas, crianças, bicicletas, motos e capacetes cor-de-rosa.


O céu me pertence. Ninguém esbarra em mim. Sinto como se eu fosse o eixo pelo qual a terra gira, tudo acontece em círculos à minha volta.E é como se eu não tocasse o chão por que não sinto meus pés.

Penso em todas as coisas que nunca existiram, todos os amores que desperdicei, minhas fugas, minhas fraquezas. Quero tacar fogo em tudo, já falei, um rito de passagem.


Não movo os braços, mantenho-me firme, em pé, não me permitiria ajoelhar ou sentar no meio-fio com os pés na rua, cabeça entre os joelhos. Mantenho-me sempre ereta.


Tudo continua em círculos, girando ao meu redor, pessoas, cachorros, comidas, buracos, portões, celulares, vitrines, peitos e bundas, cabelos, ambulantes, dinheiro. Girando cada vez mais rápido, não sinto minha respiração, não sinto meus joelhos e os pés das pessoas e os sapatos das advogadas e as mochilhas dos estudantes e não me mexo, não me misturo, não me perco, não cedo, mas meus joelhos já não obedecem, meu tronco não se sustenta, curvo-me perto do bueiro, logo abaixo do meio-fio.

E vomito púrpura e sangue. Violeta e anis.


E vomito mais um pouco e vou perdendo a força. Sob meus cabelos, sob meus pés descalços, o líquido quase translúcido escorre pelo meio das minhas pernas, encontra a sarjeta, desce lentamente até o bueiro e se perde na água que já está em ebulição lá dentro.


Tento alcançar o fundo, mas minhas mãos não atravessam a grade suja de ferro.

Apóio as mãos nos joelhos. Pneus, o chão quente, de perto os buracos no asfalto não são tão assustadores assim, penso. Pernas, verrugas, línguas de cachorros, um rato morto do outro lado da rua e uma bituca de cigarro numa poça d'água.


Limpo a boca com o braço.

Você segura meus cabelos, ajeita para trás. Sua imagem faz sombra sobre meu rosto e o sol não atinge meus olhos, você filtra toda a dor para eu não me machucar.

Te ofereço minha mão, o sinal está fechado. Vamos sair daqui.

7 de nov. de 2008

Vinte e cinco motivos

Sento-me com as mãos sobre o colo. As pernas alinhadas para frente. Coluna ereta.
Olhar fixo no seu cordão. Aquele que você tirou delicadamente do meu pescoço.
Ajeito os cabelos ao balançar levemente a cabeça.
Sou altiva, prepotente, equilibrada.
Além de não não servir para mim, você me atrapalha. Você e todos os outros.
Por que eu....ahhhh eu.
Se tivesse um pau grande igual ao seu seria general.
Mas eu não tenho nada. A não ser muito medo.
Hoje me sinto absolutamente situada no tempo e espaço adequado, mas deslocada tangencialmente do caminho que eu deveria seguir.
E se eu estiver errada? E se no fundo eu não tiver razão?
Eu.
Acho que só preciso ficar sozinha.
Ou não. Talvez esse seja o erro.
Talvez deva parar de escrever. Parar com florais, yoga, ler, faculdade, trabalho.
Vou começar a acordar esperando o fim de semana. Sair para baladas na Vila Olímpia pra encontrar executivos que fizeram administração.
Parar de ler jornais. Começar a ouvir axé, ir em micaretas, festas patrocinadas por operadoras de celular, comprar sapatos da moda, encontrar um marido justo e responsável.
Fazer uma poupança, pagar previdência privada. Assistir novelas.
Comprar pacotes turisticos da CVC e almoçar mais lasanha e estrogonofe.
Beber vinhos de 20 reais, aquele que investem num rótulo legal e ficam bonitos quando eu guardar na geladeira.
Talvez deva visitar mais meus pais, dormir mais, assistir mais TV, reclamar mais, ser mais crítica, ter valores morais incorruptíveis, acreditar em verdades absulutas e resolver casar na igreja.
Talvez deva parar de escrever.

Cruzo as pernas. Apóio o cotovelo no joelho e seguro o queixo com as mãos.
Sim, pareço muito intelectual.
Mas não, não me lembro que o Monteiro Lobato havia criticado a Semana de Arte Moderna.
Não, não escrevo nada em grego.
Não, meu latim é uma bosta.
Meu inglês é com sotaque e não tenho dinheiro pra pagar o espanhol.
Sim, uso umas expressões em francês. Soa tão sofisticado.
Mas fumo cigarro de menta como putas pobres ou peruas divorciadas.
Sim, falo sobre teatro como se fosse uma habitué, mas chamo Paulo Autran de Paulo Francis.
Confundo gregos e romanos e não me lembro de todas as figuras de linguagem.
Sim, minha mente está confusa. Não tenho memória.
Sou irresponsável, imatura, inconsequente, por isso, hoje estou aqui.

Sentada com as pernas cruzadas.
Olhando uma garrafa de água cheia, um celular morto, uma janela empoeirada, tentando decidir que filme assistir, se vou de MacBeth ou Marques de Sade.
Decidindo se te ligo ou te esqueço.
Decidindo qual amigo odiar mais e qual a próxima mentira a contar.

Decido me levantar.
Esfrego as mãos.Tiro a roupa.
Caminho em sua direção.
Te beijo com os olhos fechados. As palmas da mão abertas. Peito limpo. Cabelos sobre seu rosto.
Sim, você já sabe. Não sei sobre uma porção de coisas importantes. Não sei sobre mim mais do que sei sobre você.
Mas não te culpo mais do que deveria me culpar. Por que eu não queria ter me perdido, mas agora ......de que importa...
Já acendi um fósforo, sentei ao lado dos sacerdotes. O som do canto envolvente, o fogo.
A redenção pela crença. A redenção pela arte, pela fé do que restou das minhas cinzas.
Vem, beija minha pele. Silencia o ambiente.
Me conta aquela história que você nunca terminou, por que eu já cansei de falar de mim.

3 de nov. de 2008

Desespero não é moda só em 76

Na sexta-feira saí às 7 da noite com uma sensação sublime e confortante ao redor do pescoço. Algo que me subia pelas pernas devagar e me enchia de um um estranho desejo de silêncio e paixão, algo cheio de ternura. Que de alguma maneira combinava com o tempo meio chuvoso e quente que me sufocava.
Ao longo da noite, meu humor oscilava entre um cigarro e outro, e conforme o líquido vermelho ia descendo pela garganta eu conseguia me acalmar por algumas horas.
Tinha sim alguns momentos de lucidez ou será que na verdade consegui me livrar alguns momentos , ainda que pequenos, do meu super ego?Que me persegue há tento tempo...tá gordo o bicho, viu?

Um sábado que eu pouco me recordo. Um sábado repleto de sonhos visionários, Artacho Jurado, olhares trocados, mesas vermelhas (eram verdes, verdes na verdade) e um prato com limão e bitucas de cigarro.

Sonhos indecifráveis, dor nas costas, saudade da yoga, meias e blusa de frio. Estava me escondendo de mim mesma, eu suponho....

Uma manhã chuvosa e quente, Led Zepellin, (...), Led, (...), um Cartola pra não perder o costume de estar no controle.Um banho que cheirava a cor-de-rosa e sem gosto.
Um filme espanhol pela metade, um estranho estado de torpor, de envenenamento, mãos trêmulas, boca semi-aberta, sorriso amarelo (achei que só eu notasse).
Um último cigarro pela metade para terminar o dia, não consegui finalizar nem iniciar nada. Eu que estava tão inspirada, começo de mês. Mantive-me apática, esperando pela janela por um sol que não apareceu.

Sonhos desconexos, uma parede fria, um gosto amargo na boca. Algum tremor me percorria o corpo. Dormi com a estranha sensação de alguém que assiste ao jogo do lado de fora do campo, como um jogador de meia idade gordo, com problemas na coxa esquerda, tomando uma cerveja.
Com uma premonição nostálgica, um círculo que se renova a cada aniversário, que eu aceito sim com muita coragem, mas cada vez mais pálida.

Andréia dois

Descaradamente retirado da Folha de hoje.
Alguém aí sabe quem é Luiz Felipe Pondé? Se conhecer diz que eu mandei um beijo.



LUIZ FELIPE PONDÉ



Às vezes a diferença entre o Bem e o Mal é apenas o número de taças ou de horas


DE NOVO Andréia. O dia anterior tinha sido de fortes emoções. A conversa com seu chefe, a ligação de seu noivo (e a estranha desatenção que sentiu por ele), as batidas violentas do coração, o medo da saia talvez excessivamente curta, enfim, o suor à noite sozinha na cama. O medo de se perder "na saia excessivamente curta" foi o estopim do pesadelo que tivera. No sonho, deitada em um caixão, morta, ouvia as palavras duras das pessoas: "Imagine, a Andréia, fazer uma coisa dessas...". Como não se sentir uma mulher vulgar tendo tais desejos? O medo de ser apenas comum é uma descoberta que marca o amadurecimento de todo mundo que respira.
Acordou num susto. Ainda olhando para o teto, Andréia foi tomada por um sentimento horrível de culpa. Mas passou, graças a Deus.
Na noite anterior, nada em seu coração parecia indicar medo. Hoje, ela se afogava em temor. Qual seria a razão? Como suportar tamanha variação de humor?
Era uma mulher inteligente, e difícil de ser enganada. Ela não corria riscos como se fosse uma menina banal mergulhada em delírios românticos. Às vezes era assaltada pela sensação de que tinha projetos demais e que talvez não quisesse ser tão forte assim para realizá-los. Mas sua geração era condenada à força como forma de vida. Isso era ser livre. Passava os 25 anos. Dizia pra si mesma: "Ainda tem muito tempo...".
Olha o relógio e vê que acordou cedo demais. "Vou ler", pensa. Vai até a estante do pai e pega o livro "Para Além de Bem e Mal" do Nietzsche. A decisão de ler esse livro, muito famoso, veio da sensação que sentira no dia anterior quando conversava com seu chefe. E o que viria a ser "estar além do Bem e do Mal"?
Engana-se quem pensa que isso seja uma fórmula filosófica complexa. Estar além do Bem e do Mal para nossa assustada Andréia era o seguinte: caminhar pelo centro velho de Praga de mãos dadas com seu chefe. Por exemplo, visitar a casa do Kafka, o velho cemitério judeu medieval, sentar-se num café, tomar um vinho e juntos sentir frio.
Às vezes a diferença entre o Bem e o Mal é apenas o número de taças de vinho, às vezes os números de horas entre as taças. Simples assim. Afinal, onde estariam seus princípios? Em lugar nenhum. Seria sua ética apenas a distância entre o instinto, o álcool e a culpa?
Será que a grana dele a seduzia? Não, isso seria muito humilhante, alguma beleza deveria haver nele. Havia uma leveza no modo daquele homem tratar a vida. A indiferença mesma com a qual ele parecia lidar com o mundo, era o que a atraia. Agarrou-se a esta palavra: "indiferença". Largou o livro. Tropeçou. Comeu além do normal. De pé, contemplava suas roupas: "Hoje vou vestida de freira". Decidiu que ligaria para seu noivo ainda no caminho. Onde estaria o celular?
Descendo a Rebouças, Andréia sentia que o mundo estava rápido demais para as 8 da manhã. Toca o telefone, atende, era o noivo. Ele ligara antes, afinal. Sua prontidão a irritava. Estaria ela, de algum modo, apaixonada pela indiferença?
Conversa de amenidades, amaldiçoa o trânsito. Marca um encontro à noite. Desliga. Três ou quatro frases que qualquer um poderia ter falado, uma conversa absolutamente impessoal. Talvez até o almoço voltasse a sentir alguma culpa, e aí estaria salva.
Pensa naquele noivo carinhoso e atencioso. "Algo falta nele", pensa. O que pode faltar num homem carinhoso e atencioso? Por um instante, quase esqueceu do seu rosto. "Há algo de errado comigo!"
Entra no estacionamento da agência. Percebe, com um salto do coração, que o impossível acontecera. Chegaram juntos, ela e o indiferente. Por um instante ela pensa em fingir que procurava algo para não ter que suportar 13 andares juntos no elevador. Entre aquele indiferente e a prontidão do noivo, só uma louca ficaria com o primeiro.
Seria Andréia agente de seu pequeno destino? O chefe a vê e vem até ela. "Bom dia, Andréia." Ela desce do carro. Entram juntos no elevador. Procura algo para dizer. Deseja ardorosamente que outras pessoas entrem no elevador. Atravessam os andares em silêncio e sozinhos. Na altura do 6º andar, percebe um livro na mão dele.
"Já leu?", pergunta o indiferente, mostrando a capa. Lia-se em letras vermelhas "O Anticristo" de F. Nietzsche. "Não!" Definitivamente, a vida tomara a dianteira: ela estava à deriva novamente. De repente, a revelação no espelho do elevador! Ela estava com calça muito justa.